Os conceitos são familiares, e necessários, a qualquer campo de saber.
Também os encontramos na própria vida comum – na qual lidamos cotidianamente
com conceitos mesmo que sem termos plena consciência disso, e em diversos
outros campos de atividades humanas, como os vários campos profissionais, áreas
de atividades diversificadas como o esporte e o entretenimento, ou ainda em
campos como os da política, religião e arte. Um lutador de judô, por exemplo,
precisa criar conceitos para lidar com as diversas formas de luta que sua arte
marcial oferece, assim como para repertoriar os golpes e imobilizações que
terão a sua funcionalidade no judô. Um músico, para criar suas composições e
performatizá-las, terá de lidar com conceitos já seculares, como os de
‘acorde’, ‘harmonia’ ou ‘polifonia’. Uma religião precisará dos conceitos para
pensar, invocar ou compreender as suas figuras de mediação entre este e o outro
mundo, sejam estes anjos, demônios, espíritos ou orixás. Os políticos precisam
dos conceitos para pensar o mundo político nas suas diferentes possibilidades,
e também para se comunicarem uns com os outros. Os conceitos, já veremos
porque, são imprescindíveis nas mais distintas áreas da ação e criação humana,
como está esquematizado no ‘Quadro 1’.
Quadro 1: Lugares e ambientes que produzem conceitos.
Na Ciência, entrementes, os conceitos são fundamentais e realmente
imprescindíveis. São eles que permitem a organização de qualquer saber, as
reflexões mais aprofundadas que são exigidas de todo campo científico, e a
própria possibilidade de comunicação entre os cientistas. De fato, os conceitos
funcionam, por um lado, como ‘unidades de conhecimento’; e ao mesmo tempo
constituem ‘unidades de conhecimento’. Esta dupla finalidade dos conceitos
espelha-se nas seis funções básicas que estão expostas no ‘Quadro 2’.
Quadro 2: Para que servem os conceitos?
A primeira destas funções é a de ‘organizar’ a realidade ou certo aspecto
da realidade, que de outra forma seria percebida caoticamente pelos seres
humanos. Se ao olharmos para o céu não dispuséssemos de conceitos como os de
‘planeta’, ‘estrela’, ‘meteoro’, ‘cometa’ – os quais permitem classificar,
comparar e contrastar os distintos corpos celestes – e se não pudéssemos pensar
em conceitos como os de ‘rotação’, ‘gravitação’, translação’, que possibilitam
a compreensão das relações que os corpos celestes estabelecem entre si, a
realidade celeste nos pareceria caótica e não poderia ter se desenvolvido uma
ciência como a da Astronomia, capaz de fazer previsões de todos os tipos e de
vasculhar o imenso espaço sideral apenas através da observação, do cálculo e de
outros tipos de procedimentos intermediados pelos conceitos e por instrumentos
inventados para finalidades diversas. Uma teoria amparada por conceitos
apropriados, e uma metodologia constituída a partir dos procedimentos adequados
a cada caso, constituem a base do conhecimento científico em qualquer um dos
campos de saber configurados como ciências.
Da mesma forma que o céu nos pareceria caótico se não tivéssemos
conceitos para organizá-lo mentalmente, também teríamos um passado humano a
princípio caótico se os historiadores não dispusessem de diferentes conceitos
para compreender, por exemplo, as variadas formas de governo que já foram
desenvolvidas pela humanidade – como a ‘democracia’, a ‘tirania’, a ‘monarquia’
e tantas outras – ou para apreender os diferentes tipos de violência coletiva
que ocorrem nas relações entre as sociedades, tais como a ‘guerra’, as
‘revoluções’, os ‘golpes de estado’, o ‘banditismo’. Assim como os astrônomos precisam dos conceitos para organizar o "céu", os historiadores também precisam dos conceitos para organizar a imensa variedade de fenômenos que ocorreram ao longo da vida humana em toda a história. Se olhássemos para o passado sem conceitos que o pudessem organizar, nada veríamos senão caos: os diferentes tipos de violência que ocorreram e que ocorrem nos dias de hoje pareceriam apenas violência disforme, e não compreenderíamos que podemos estar diante de fenômenos tão distintos como as guerras, revoluções, insurreições, revoltas, motins, bandistismo, criminalidade. Cada um deste fenômenos, para ser compreendido em nível de maior profundidade, precisa de um conceito que o especifique mais, que o defina, que esclareça as suas implicações e campos de aplicação. Depois que formulamos um conceito como estes, podemos tentar agrupar os fenômenos onde a violência desempenha um papel similar e que apresentam certas características em comum - como as "guerras" - para contrastá-los com outros bem diferentes, como as "revoluções".
Diferença entre os conceitos e as palavras comuns
Quando pensamos em ‘conceitos’, um primeiro aspecto a se considerar é possível distinção entre
os ‘conceitos’ propriamente ditos e as ‘palavras comuns’. Ninguém estranharia,
a princípio, se disséssemos que ‘ideologia’ e ‘classe social’ são conceitos
importantes nas áreas de História e Sociologia, e que ‘gravitação’ e ‘número
primo’ são conceitos importantes na Física e na Matemática, respectivamente.
Posso também recolher um certo conjunto de palavras, aleatoriamente escolhidas,
e postular que são palavras comuns, como mostra o ‘quadro 10’.
‘Desastre’, ‘tentativa’, ‘pedra’, ‘copo’, ‘aflição’ são palavras que empregamos
em nosso dia-a-dia, o que também não impede que empreguemos cotidianamente –
inclusive como ‘palavras comuns’ – algumas das palavras que situamos acima,
como ‘classe social’. A rigor, como
veremos, não existem palavras que são sempre conceitos, e palavras que são
sempre ‘palavras comuns’ – embora isso também possa ocorrer com certas
interjeições como “oh”, ou com os diversos nomes que são dados aos habitantes
de qualquer sociedade. Muitas vezes, entretanto, as palavras oscilam entre um
uso comum e um uso conceitual. Devemos entender, antes de mais nada, o que é
esse ‘uso conceitual’ de uma palavra.
Já mostramos, na primeira seção deste texto, que os conceitos têm dois papéis
importantes na produção de conhecimento científico, ou mesmo no interior de
comunidades relacionadas a práticas diversificadas, como os esportes, o
trabalho, as religiões ou a política. Além de funcionarem como importantes 'unidades de comunicação', os conceitos funcionam como ‘unidades de
conhecimento’ porque através deles podemos estender um olhar mais preciso,
aprofundado e sofisticado sobre aspectos de uma certa realidade no interior de
certo campo de pensamento ou de práticas específicas. Como ‘unidades de
conhecimento’, os conceitos servem para ‘organizar’ a realidade à nossa volta,
em maior nível de complexidade. Servem também para, em um determinado campo de
saber, por exemplo, ‘comparar’ diferentes objetos, identificando propriedades
em comum e, nesta operação, agrupando uns por oposição a outros que com eles
contrastam. Os conceitos, como vimos, estabelecem generalizações.
É claro que as palavras comuns também podem ajudar a organizar a
realidade no seio da nossa vida cotidiana, e de fato fazem isso. Mas os
conceitos, no interior de certo campo de saber, fazem isso tanto agregando um
olhar de profundidade como instituindo um processo de comunicação importante
entre os praticantes de determinado campo de saber. É por isso, aliás, que
dissemos que os conceitos, além de serem ‘unidades de conhecimento’, são também
‘unidades de comunicação’. Os cientistas lidam com os conceitos de um modo
específico: eles os discutem sempre, reatualizam seus usos, aprimoram suas
possibilidades de aplicação, fazem ajustes na sua definição – podem discuti-los
em longas sessões de congressos científicos. Na sua vida diária, um cientista
usa palavras comuns, como todos os seres humanos. Mas na prática do seu saber,
eles pensam e se comunicam através de conceitos (além de, é claro, continuarem
a usar palavras comuns). Os conceitos, nestas situações, tornam-se palavras que
adquirem certo destaque no interior de cada campo de saber que precisa deles
tanto para uma análise mais objetiva da realidade como para uma comunicação
mais sofisticada entre os praticantes de um campo. O que estamos falando aqui é
válido para outros campos além da ciência, como as artes, a política, o sistema
jurídico, a prática de esportes, a religião, e diversos outros. Mas vamos nos
ater mais especificamente ao caso das diversas ciências.
Os conceitos são objeto de discussão permanente entre os cientistas. Se
apenas utilizamos as palavras comuns nas nossas atividades diárias, uma vez que
elas só precisam atender a um processo comunicativo mais superficial, já os
conceitos precisam ser discutidos e definidos a cada momento que os utilizamos
com finalidades científicas. Determinados campos de saber podem utilizar
consensualmente certos conceitos durante muito tempo, mas a possibilidade de
sua discussão está sempre em pauta, mesmo porque a ciência vê a si mesma como um
campo de saber falível, que precisa ser aprimorado constantemente, propondo
novas leituras da realidade que não raramente substituem outras, ou então as
aperfeiçoam. Por isso os conceitos basilares de cada ciência, e também os
conceitos mais específicos relacionados à diversidade dos seus objetos de
estudo, estão sempre em pauta, como palavras especiais que permitem ver as
coisas de uma certa maneira. Os conceitos, neste sentido, são instrumentos da
teoria.
Oportunamente, veremos que elaborar conceitos – em contraste com a
simples menção de uma ‘palavra comum’ – implica agregar a este conceito uma
definição constituída de diversos elementos mínimos que lhe trazem clareza e
precisão (a chamada ‘compreensão’ do conceito), e também implica considerar os
objetos e situações às quais o conceito se aplica (a ‘extensão’ do conceito). Por
ora, quero destacar que, se não costumamos pensar isso para as palavras comuns que
empregamos no dia-a-dia, já para os conceitos, em ambiente científico, esta
operação está sempre implícita. Deste modo, a prática científica vai deixando
muito clara a distinção entre os conceitos e as meras palavras comuns (em
referência a este ou àquele campo específico). No entanto, é preciso considerar
que algumas palavras podem oscilar perfeitamente entre o seu uso comum e o seu
uso conceitual. Uma palavra que habitualmente é vista como ‘conceito’ em
determinado campo de saber, em outro pode só aparecer como uma ‘palavra comum’.
Além disso, um mesmo conceito – ou uma mesma palavra que designa um conceito –
pode se abrir a determinados sentidos e significados em um campo de saber, e a
outros sentidos e significados em outro. Uma definição válida para um conceito
em certo campo de saber pode não ter nenhuma operacionalização em outro campo.
Vamos ilustrar essa situação com a palavra
“angústia”, que frequentemente utilizamos como palavra comum em nosso
dia-a-dia, mas que pode se apresentar como expressão verbal associada a
diferentes conceitos em determinados campos de saber. Por isso, trouxe a
palavra para meio caminho entre a área dos conceitos e a área das palavras
comuns, no quadro anterior, mesmo que esta palavra na maior parte do tempo
esteja imersa na dinâmica de palavras comuns com as quais nos comunicamos uns
com os outros todo o tempo. Neste novo momento, vamos nos aproximar da palavra
‘angústia’, de modo a refletir sobre as suas potencialidades como palavra comum
e como conceito.
Na vida comum, quando empregamos a palavra ‘angústia’ estamos nos referir
a uma ansiedade negativa, difícil de definir, e geralmente ocasionada por algum
fator ou combinação de fatores na vida do indivíduo angustiado. Todos nós
sentimos ‘angústia’ diante de determinadas situações, em maior ou menor grau, e
por menor ou maior período de tempo. Ao nos comunicarmos com outros indivíduos
e dizermos que estamos angustiados com relação a determinada questão, ou mesmo
que estamos sofrendo de angústia de modo mais geral, não precisamos dar maiores
explicações acerca do sentido que estamos atribuindo à palavra angústia. A
compreensão desta palavra é mais ou menos imediata por qualquer pessoa comum, e
particularmente no sentido comum como definimos a palavra no início deste
parágrafo. Contudo, se a angústia está provocando muito desconforto e
sofrimento, pode ser que tomemos a decisão de recorrer a um psicólogo.
Para a Psicologia, ‘angústia’ é um conceito importante, pois pode se
referir a uma doença ou distúrbio que requeira tratamento ou maiores cuidados.
Os psicólogos discutem o conceito de angústia em seus congressos, e operam com
os seus sentidos mais precisos em sua prática clínica diária. A angústia, para
eles, pode ser entendida como um sentimento negativo de ansiedade e desconforto
que pode provocar sensações físicas e psicológicas, bem como danos graves ao
indivíduo. Ao discutir a angústia, os psicólogos provavelmente darão um uso
conceitual clínico a esta palavra. Há tratados de psicologia sobre a angústia e
sobre as diferentes formas de tratá-la. Os pesquisadores da área também
produziram teses, ensaios, conferências, documentos, estatísticas e trabalhos
analíticos sobre esta disposição mental, e em cada um destes diferentes tipos
de textos precisarão trabalhar conceitualmente com a expressão verbal
‘angústia’. Para eles, neste momento, não teremos aqui mais uma palavra comum,
mas sim um conceito.
Passando da Psicologia à Filosofia, podemos encontrar outros
desenvolvimentos conceituais aplicáveis à ideia de angústia. Na filosofia existencialista
e pré-existencialista, em suas diversas correntes e contribuições autorais,
‘angústia’ torna-se um conceito central. O próprio ser humano, nesta nova
perspectiva filosófica, passa a ser visto como o único animal que tem a sua
vida permanentemente interferida e redefinida pela angústia. Neste sentido, a
capacidade de se angustiar (ou a incapacidade de não se angustiar) pode ser
mesmo pensada como uma nota significativa que se acrescenta ao acorde
conceitual que define a espécie humana e amplia a distinção desta em relação a
outras espécies animais. De todo modo, o que importa para a nossa presente
discussão é dar a perceber que – para filósofos existencialistas como Jean-Paul
Sartre (1905-1980) e filósofos precursores desta corrente como Kierkegaard
(1813-1855) – a angústia também não pode mais ser utilizada como uma palavra
comum, devendo, sim, ser operacionalizada como um conceito.
Qual é a principal angústia dos seres humanos? Isso vai variar de
filósofo a filósofo no ambiente existencialista, mas todos concordam a angústia
seria central para definir as condições e características essenciais da
existência humana. Para Sartre, por exemplo, a angústia central é a
‘liberdade’, outra palavra que frequentemente empregamos de forma comum em
nossas conversas cotidianas, mas que nas discussões filosóficas inspiradas em
Sartre também assume o status e funcionalidade de um conceito.
É bem conhecida a célebre frase proferida por Sartre: “o homem está
condenado a ser livre”. Esta frase, não raramente, é muito usada de maneira
descaracterizada, deslocada de suas conotações existencialistas, para
significar poeticamente que “o homem está destinado à liberdade”. Ou seja,
nessa interpretação comum (e desvirtuada) da frase sartreana, a liberdade é
abordada em seu aspecto positivo e a expressão “está condenada” é desvinculada
de suas implicações filosóficas para assumir um matiz poético, como se
quiséssemos dizer que, não importa as tiranias que se abatam sobre a
humanidade, nada pode impedir a liberdade que está destinada à espécie humana.
A frase de Sartre, em seu contexto original, não trata, todavia, disto.
O que ocorre é que o conceito de “liberdade”, na filosofia
existencialista de Sartre, conecta-se com o conceito de “angústia”, central na postura
existencialista. A liberdade faz parte da condição humana através de um viés
angustiante: diante de qualquer situação, das mais simples às mais decisivas,
os seres humanos não apenas tem direito a fazer escolhas – eles são obrigados a
fazer escolhas. A todo instante de suas vidas, os seres humanos tem a
‘liberdade’ e a ‘responsabilidade’ de fazer escolhas (estes dois conceitos
também estão incontornavelmente ligados na filosofia existencialista
sartreana). O único tipo de escolha que está vedado a um ser humano, diante das
situações concretas que a ele se apresentam, é o de não fazer escolhas. Aqui, a
ideia de que “o homem está condenado a ser livre” adquire seu pleno sentido. Em
síntese, a angústia humana estabelece-se diante da sua responsabilidade de
escolher.
Existe outra célebre frase de Sartre que também fala implicitamente de
suas escolhas: “o homem é um projeto inacabado”. Dito de outra forma, o homem
faz-se a si mesmo – e está sempre por se fazer. Enquanto isso, fora o próprio ser
humano, todos os demais animais já possuem sua existência determinada desde o
nascimento de cada um dos indivíduos de sua espécie. Uma abelha, ao nascer, já
está destinada a habitar uma colmeia, a inserir-se na função que a ela foi
determinada pela sua casta biológica dentro da espécie das abelhas, e a
trabalhar em um grande sistema voltado para a produção de mel e para a
estabilidade da hierarquia que culmina com a abelha-rainha – esta também já
apresentando seu destino individual determinado desde o seu nascimento destacado
de todas as demais abelhas. As abelhas, como as ovelhas, as abelhas não podem
escolher, e o seu modo de ‘existência’ já está determinado previamente e
sintonizado com a sua ‘essência’ (mais dois conceitos centrais no
existencialismo). O próprio Sartre utiliza um exemplo enfático, ao se referir
aos objetos e contrastá-los com a existência humana:
"Consideremos um objeto fabricado, como, por
exemplo, um livro ou um corta-papel. Tal objeto [...] é ao mesmo tempo um
objeto que se produz de uma certa meneira e, por outro lado, que tem uma
utilidade definida, e não é possível imaginar um artífice que produzisse um
corta-papel sem saber para que há de servir tal objeto. Diremos, pois, que,
para cada corta-papel, a essência - quer dizer, o conjunto de receita e de
características que permitem produzi-lo e defini-lo - precede a existência. E
assim a presença, frente a mim, de tal corta-papel está bem determinada"
(SARTRE, 1946).
Com o animal humano, entretanto, “a existência precede a essência” (outra
célebre frase de Sartre). A essência de um homem (aquilo que ele pode vir a se
tornar) procede diretamente de suas escolhas. Mesmo um africano que fosse
capturado no século XVII para ser transformado em escravo e enviado ao
cativeiro nas Américas, em que pese a crueldade que foi praticada contra ele,
precisará fazer suas escolhas. Adaptar-se, resistir, definhar e morrer,
atirar-se ao oceano na viagem a que será obrigado em sua diáspora? Chegando ao
cativeiro, o que escolherá? Aprender a língua do seu opressor, e através dela
negociar melhores condições de existência? Resistir ao aprendizado da língua,
como uma forma de não ser tragado pela cultura do opressor? Fugir
solitariamente? Fugir em grupo? Suicidar-se? Até mesmo o escravo sobre o qual
se abate a crueldade do cativeiro estaria “condenado a ser livre”, pois
precisaria fazer as suas escolhas – conscientes ou inconscientes. Dessas
escolhas decorrerá a sua essência, aquilo que ele poderá vir a ser.
O nosso objetivo aqui não é o de discutir todos os meandros e complexidades
da filosofia existencialista sartreana, mas apenas mostrar que o conceito de
‘angústia’, nessa filosofia, adquire delineamentos próprios. Para além do que
propõe a Psicologia, que se propõe a tratar a angústia no plano individual e
normalmente como uma disfunção, o conceito de ‘angústia’ é generalizado na
filosofia sartreana para toda a espécie humana: torna-se uma característica
fundante de cada um dos indivíduos da espécie e um aspecto que se conecta a
outros conceitos que se ajustam uns aos outros na filosofia proposta por esta
corrente existencialista. Enquanto isso, o conceito de angústia mostra-se
igualmente importante na filosofia de Martim Heidegger (1889-1976) – mas, aqui,
a angústia que se coloca no centro da vida humana é a ‘consciência de
finitude’. O homem é o único animal que, a todo instante, tem a consciência de
que vai morrer; e que, em um nível consciente ou inconsciente, em todos os
instantes pensa na sua morte. Já na filosofia de Soren Kierkegaard (1813-1855),
filósofo dinamarquês que é apontado como um precursor do Existencialismo, a
angústia é constituída a partir de uma tensão entre o conhecimento e a fé.
Nossa intenção, com esta pequena digressão, foi a de mostrar que a
palavra angústia pode desempenhar o papel simples de uma palavra que empregamos
na vida comum, ou pode ser alçada à posição de um conceito que assume
diferentes significados e funções em correntes filosóficas diferenciadas, ou ainda
em outros campos como o da prática clínica dos psicólogos. De igual maneira, em
determinado ambiente filosófico como o existencialismo sartreano o conceito de
‘angústia’ gera conexões específicas, ligando-se a outros conceitos como o de
‘existência’ e ‘liberdade’, palavras que também podem se apresentar como
expressões verbais simples inseridas nas conversas cotidianas, e que só assumem
a função de conceitos em determinados contextos filosóficos ou científicos. O
exemplo nos mostra que não existe propriamente esta “palavra comum” ou aquele
“conceito” específico como expressões verbais que habitam necessariamente
espaços diferenciados do repertório de uma comunidade linguística. Também
pudemos ver, com o exemplo proposto, que a polissemia se apresenta nas
diferentes definições do conceito de ‘angústia’ e nos ajustes diferenciados que
ocorrem em cada corrente filosófica que o trazem para a centralidade de seus
discursos.
Vamos dar mais um exemplo de oscilação entre a palavra comum e os conceitos. A
princípio, ninguém diria que lápis é, senão, uma palavra comum. Quando pedimos
a alguém um lápis emprestado estamos certos de que seremos compreendidos e que
nosso interlocutor nos estenderá a mão para nos passar um lápis, e não um livro
ou um corta-papel. Dificilmente, e isso seria mesmo ridículo, alguém responderá
ao nosso pedido de empréstimo de um lápis com uma solicitação para que
definamos melhor o que entendemos por lápis. No entanto, se estivermos
negociando com um fabricante de lápis, ou mesmo procurando este objeto em uma
papelaria especializada, no mesmo instante seremos indagados acerca do tipo de
lápis que estamos procurando. Há lápis próprios para o desenho, outros para
fazer contornos em telas de pintura, outros para marcar paredes. Há também
lápis que funcionam melhor com certos tipos de papéis, e assim por diante. Para
o fabricante de lápis, e para os profissionais que usam estes instrumentos de
desenho e escrita, lápis pode se apresentar como um conceito. De igual maneira,
se empregamos a palavra cadeira de maneira cotidiana, já um marceneiro
certamente utilizará a cadeira como conceito, e buscará utilizá-la como um
'conceito agrupador' que prevê tipos mais específicos de cadeiras. Poderíamos dar
inúmeros outros exemplos para mostrar que, a princípio, a mais inocente palavra
comum pode, em certas situações, envergar as majestosas vestes de um
‘conceito’. Não obstante, é claro que cada campo de saber mobiliza mais habitualmente um certo conjunto de palavras ou expressões verbais que devem ser entendidos como conceitos - palavras cujo significado deve ser discutido com maior precisão, e que funcionam simultaneamente como 'unidades de comunicação' entre os praticantes de determinado campo de saber, e como 'unidades de conhecimento' que nos habilitam a organizar melhor a realidade examinada.
(O presente texto foi baseado no livro "Os Conceitos - seus usos nas ciências humanas", de José D'Assunção Barros (Editora Vozes, 2015).
[Para dar continuidade e aprofundamento ao estudo deste tema ver o artigo Sobre o uso de conceitos nas ciências humanas
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