sexta-feira, 3 de abril de 2020

História dos Conceitos


A ‘História dos Conceitos’ – uma das modalidades historiográficas mais cotejadas da última década – situa-se em uma confluência particularmente rica de campos históricos: em última instância, ao menos de acordo com a abordagem proposta por Reinhart Koselleck, ela implica em uma relação entre a história das ideias e a história social. De acordo com esta perspectiva, abordar os conceitos na História e no decurso da história implica questões particularmente importantes para a historiografia contemporânea. Conceitos existem na própria história (ou seja, expressos nas fontes históricas examinadas pelo historiador), e também na História (historiografia) que vai sendo construída pelo historiador à medida que ele entretece suas reflexões sobre a “história vivida” que lhe chega através dos vestígios do Passado. Desta maneira, seria possível, ao historiador, considerar dois níveis de conceitos – dois planos através dos quais ele se movimento em sua prática historiográfica: o plano das suas próprias reflexões e construções historiográficas, e o plano histórico que está sendo examinado:
Quando o historiador mergulha no passado, ultrapassando suas próprias vivências e recordações, conduzido por perguntas, mas também por desejos e inquietudes, ele se confronta primeiramente com vestígios que se conservaram até hoje, e que em maior ou menor número chegaram até nós. Ao transformar esses vestígios em fontes que dão testemunho da história que deseja apreender, o historiador sempre se movimenta em dois planos. Ou ele analisa fatos que já foram anteriormente articulados na linguagem ou então, com a ajuda de hipóteses e métodos, reconstrói fatos que ainda não chegaram a ser articulados, mas que ele revela a partir desses vestígios. No primeiro caso, os conceitos tradicionais da linguagem das fontes servem-lhe de acesso heurístico para compreender a realidade passada. No segundo, o historiador serve-se de conceitos formados e definidos posteriormente, isto é, de categorias científicas que são empregadas sem que sua existência nas fontes possa ser provada.” (KOSELLECK, 2006, p.305).


Em duas palavras, os historiadores lidam simultaneamente com os conceitos ou expressões que uma época passada elaborou para refletir sobre si mesma (e também sobre outras épocas), e com conceitos e categorias decorrentes de sua própria atividade científica como produtores de conhecimento historiográfico – sejam estes conceitos criados por eles mesmos ou por uma tradição que já está estabelecida na comunidade dos historiadores. Em decorrência do que foi dito, a História Conceitual apresenta naturalmente um duplo interesse, pois permite examinar a história e a própria História. Perceber os conceitos e suas metamorfoses como fenômenos que retratam e se tensionam contra a sociedade, e que, se de um lado, elevam-se do fundo da história e da vida, por outro lado terminam por contribuir para redefini-la e por redirecioná-la, é um primeiro campo de análises1. Os conceitos, como objetos e sujeitos da história, permitem também que se redefina esta tradicional relação entre objetividade e subjetividade. Mas é possível ainda, como se disse, dirigir o olhar da História Conceitual para a própria Historiografia: dar a perceber, como através dos conceitos vai se transformando a própria escrita da História. Há por fim, a possibilidade de examinar as discordâncias e convergências entre a História e a história. Isto porque, tal como ressalta o próprio Koselleck, “a história dos conceitos mede e estuda essa diferença e convergência entre os conceitos antigos e as atuais categorias de conhecimento” (2006, p.306).


1 Koselleck chamará atenção para este poder dos conceitos de transformar a história, isto é, de “criar experiência”, em um de seus ensaios. Se os conceitos podem ser produtos de realidades históricas concretas, por outro lado há conceitos que, eles mesmos, criam novas realidades históricas. Nestes casos, “já não se trata mais de conceitos que classificam experiências, mas de conceitos que criam experiências” (KOSELLECK, 2006, p.324). O historiador alemão, ainda neste mesmo ensaio, dá o exemplo do conceito de “republicanismo”, criado por Kant na obra Paz Perpétua (1795) para expressar um “movimento” que se impulsiona em direção à República (2006, p.69). O conceito, tal como indica Koselleck, “servia para antecipar teoricamente o movimento histórico e influenciá-lo praticamente” (p.325). Logo depois, no século XIX e mais além, no século XX, surgiriam outros “conceitos de movimento” (o que, para Koselleck, já constitui aliás um traço da modernidade). “Socialismo”, “democratismo”, “liberalismo”, “comunismo”, “fascismos” – eis aqui uma série de conceitos que passam a “influir diretamente no acontecer político” (p.325).

José D'Assunção Barros
E-mail: jose.d.assun@globomail.com

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