A ‘História dos Conceitos’ – uma das modalidades
historiográficas mais cotejadas da última década – situa-se em
uma confluência particularmente rica de campos históricos: em
última instância, ao menos de acordo com a abordagem proposta por
Reinhart Koselleck, ela implica em uma relação entre a história
das ideias e a história social. De acordo com esta perspectiva,
abordar os conceitos na História e no decurso da história implica
questões particularmente importantes para a historiografia
contemporânea. Conceitos existem na própria história (ou seja,
expressos nas fontes históricas examinadas pelo historiador), e
também na História (historiografia) que vai sendo construída pelo
historiador à medida que ele entretece suas reflexões sobre a
“história vivida” que lhe chega através dos vestígios do
Passado. Desta maneira, seria possível, ao historiador, considerar
dois níveis de conceitos – dois planos através dos quais ele se
movimento em sua prática historiográfica: o plano das suas próprias
reflexões e construções historiográficas, e o plano histórico
que está sendo examinado:
“Quando o historiador
mergulha no passado, ultrapassando suas próprias vivências e
recordações, conduzido por perguntas, mas também por desejos e
inquietudes, ele se confronta primeiramente com vestígios que se
conservaram até hoje, e que em maior ou menor número chegaram até
nós. Ao transformar esses vestígios em fontes que dão testemunho
da história que deseja apreender, o historiador sempre se movimenta
em dois planos. Ou ele analisa fatos que já foram anteriormente
articulados na linguagem ou então, com a ajuda de hipóteses e
métodos, reconstrói fatos que ainda não chegaram a ser
articulados, mas que ele revela a partir desses vestígios. No
primeiro caso, os conceitos tradicionais da linguagem das fontes
servem-lhe de acesso heurístico para compreender a realidade
passada. No segundo, o historiador serve-se de conceitos formados e
definidos posteriormente, isto é, de categorias científicas que são
empregadas sem que sua existência nas fontes possa ser provada.”
(KOSELLECK, 2006, p.305).
Em duas palavras, os historiadores lidam simultaneamente com os
conceitos ou expressões que uma época passada elaborou para
refletir sobre si mesma (e também sobre outras épocas), e com
conceitos e categorias decorrentes de sua própria atividade
científica como produtores de conhecimento historiográfico –
sejam estes conceitos criados por eles mesmos ou por uma tradição
que já está estabelecida na comunidade dos historiadores. Em
decorrência do que foi dito, a História Conceitual apresenta
naturalmente um duplo interesse, pois permite examinar a história e
a própria História. Perceber os conceitos e suas metamorfoses como
fenômenos que retratam e se tensionam contra a sociedade, e que, se
de um lado, elevam-se do fundo da história e da vida, por outro lado
terminam por contribuir para redefini-la e por redirecioná-la, é um
primeiro campo de análises1.
Os conceitos, como objetos e sujeitos da história, permitem também
que se redefina esta tradicional relação entre objetividade e
subjetividade. Mas é possível ainda, como se disse, dirigir o olhar
da História Conceitual para a própria Historiografia: dar a
perceber, como através dos conceitos vai se transformando a própria
escrita da História. Há por fim, a possibilidade de examinar as
discordâncias e convergências entre a História e a história. Isto
porque, tal como ressalta o próprio Koselleck, “a história dos
conceitos mede e estuda essa diferença e convergência entre os
conceitos antigos e as atuais categorias de conhecimento” (2006,
p.306).
(Leia
a continuação deste artigo em: https://www.researchgate.net/publication/320977191_Koselleck_a_historia_dos_conceitos_e_as_temporalidades)
1
Koselleck chamará atenção para este poder dos conceitos de
transformar a história, isto é, de “criar experiência”, em um
de seus ensaios. Se os conceitos podem ser produtos de realidades
históricas concretas, por outro lado há conceitos que, eles
mesmos, criam novas realidades históricas. Nestes casos, “já não
se trata mais de conceitos que classificam experiências, mas de
conceitos que criam experiências” (KOSELLECK, 2006, p.324). O
historiador alemão, ainda neste mesmo ensaio, dá o exemplo do
conceito de “republicanismo”, criado por Kant na obra Paz
Perpétua (1795) para expressar um “movimento” que se
impulsiona em direção à República (2006, p.69). O conceito, tal
como indica Koselleck, “servia para antecipar teoricamente o
movimento histórico e influenciá-lo praticamente” (p.325). Logo
depois, no século XIX e mais além, no século XX, surgiriam outros
“conceitos de movimento” (o que, para Koselleck, já constitui
aliás um traço da modernidade). “Socialismo”, “democratismo”,
“liberalismo”, “comunismo”, “fascismos” – eis aqui uma
série de conceitos que passam a “influir diretamente no acontecer
político” (p.325).
José D'Assunção Barros
E-mail: jose.d.assun@globomail.com
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