quinta-feira, 25 de junho de 2020

Micro-História


Micro-História: definições e confusões em torno da palavra


A Micro-História é um campo relativamente recente na Historiografia, e ainda hoje gera muitas polêmicas com relação às suas possibilidades de definição. Uma questão complicadora é que a Micro-História começou a desabrochar com um grupo muito específico de historiadores italianos, que possui, até os dias de hoje, publicação própria (os Quaderni Storici), e por isto não é raro que se confunda a Micro-História – enquanto nova possibilidade de abordagem historiográfica, ou mesmo como um "campo histórico" específico – com este grupo italiano que conforma apenas uma escola histórica muito específica. Mas veremos a seguir que a Micro-História merece ser tratada de maneira mais ampla, como um novo âmbito de possibilidades historiográficas - como um "campo histórico" -, e não como uma corrente ou escola dentro da historiografia. O olhar micro-historiográfico, deve-se dizer, pode ser conectado aos mais distintos aportes teóricos, e é assim que ele tem aparecido inclusive na historiografia brasileira das últimas décadas. Deste modo, ao nos perguntarmos se a Micro-História é uma escola de historiadores (como a Escola dos Annales, ou a Escola Inglesa do Marxismo, ou se é algo mais amplo - um "Campo Histórico" que é definido por uma abordagem específica da História que já discutiremos - prefiro seguramente essa segunda respsta. A Micro-História é um "campo histórico" - uma modalidade historiográfica que propõe uma abordagem específica, e que pode ser compartilhada por todos os historiadores que se aproximem da sua perspectiva metodológica.

Avançando no âmbito de confusões que podem surgir a partir da expressão "Micro-História", há uma particularmente absurda que é a que ocorre quando se pensa que a micro-história corresponde a uma historiografia que faz recortes pequenos no tempo (trabalhando com recortes de tempo muito curtos, em oposição aos recortes mais extensos). Isso não tem qualquer fundamento. O fato de um historiador empreender um recorte de tempo mais curto (2, 5 ou 10 anos, ou qualquer outro), diz respeito ao seu desejo de empreender um mergulho de profundidade. É muito comum que, em monografias e teses, o historiador trabalhe com recortes pouco extensos de tempo, de modo a que possa dar um maior mergulho de profundidade no seu problema historiográfico. Mas a preocupação em limitar mais o recorte monográfico de tempo histórico - evitando recortes muito extensos que se tornem inviáveis - nada tem a ver (não necessariamente) com a abordagem historiográfica. Recortar o tempo em um período mais curto é uma decisão monográfica muito comum, independente da abordagem historiográfica que será utilizada.

Existe ainda outra confusão absurda, e totalmente descabida, que se dá quando se confunde "Micro-História" com "História em Migalhas". A expressão "história em migalhas" surgiu nos finais da década de 1980, para designar depreciativamente uma moda editorial que favorecia a publicação de temáticas que a muitos pareciam irrelevantes, como por exemplo alguns temas relacionados a uma antropologia histórica mais factual e descritiva que estudava temas muito específicos sem uma ligação maior com grandes problematizações históricas. Por exemplo, digamos que um historiador desejasse estudar a "história das canetas-tinteiro", ou a "história dos barquinhos de papel", ou a "história do pão de queijo" - ou a história de uma pequena curiosidade qualquer - e não se preocupasse em ligar o seu tema a um contexto social mais amplo, a problematizações historiográficas, ficando a apenas em um plano descritivo e que meramente satisfaria curiosidades de menor relevância. Esse tipo de perspectiva, que a muitos pareceu uma história descartável e alienante, passou a ser chamado por certos autores de "história em migalhas". O historiador François Dosse, crítico desta moda editorial, chegou a escrever um livro crítico chamado "A História em Migalhas". Este culto ao pequeno e ao irrelevante, à mera curiosidade de antiquário, à curiosidade pela curiosidade, não tem qualquer relação com a "Micro-História". No entanto, não é propriamente raro que alguém acredite que a Micro-História interessa-se pelos pequenos temas - e, pior, que se interessa pelos pequenos temas de uma maneira pequena não problematizada. Já veremos que esta confusão é igualmente descabida.

Outra confusão sem nenhum fundamento que algumas vezes se faz - por mais estranha que pareça quando se conhece verdadeiramente a proposta da Micro-História - surge quando se relaciona equivocadamente a História Regional (ou a História Local) e a Micro-História, apesar de estes serem campos radicalmente distintos no que concerne às suas motivações fundadoras. A História Regional, ou a História Local, podem (ou não) se relacionar à Micro-História, mas não necessariamente. Pode ser que uma certa pesquisa histórica possa ser classificada como "História Regional" no que se refere ao recorte de espaço que empreende, e que seja ao mesmo tempo uma "Micro-História" por trabalhar com a escala aproximada de observação. Isso pode ocorrer; mas não ocorre necessariamente. "História Local" (ou "História Regional") são coisas distintas de "Micro-História". Gostaria de me deter mais neste ponto de comparação. Vejamos a seguir, para diferenciá-la mais claramente da Micro História, do que se trata quando se fala em “História Regional”.



História Regional, ou História Local


Quando um historiador se propõe a trabalhar dentro do âmbito da História Regional (ou da História Local), ele mostra-se interessado em estudar diretamente uma região específica (ou, melhor dizendo, uma determinada espacialidade). O espaço regional, é sempre importante destacar, não estará necessariamente associado a um recorte administrativo ou geográfico, podendo se referir a um recorte antropológico, a um recorte cultural ou a qualquer outro recorte proposto pelo historiador de acordo com o problema histórico que irá examinar. Mas, de qualquer modo, o interesse central do historiador regional é estudar especificamente este espaço, ou as relações sociais que se estabelecem dentro deste espaço, mesmo que eventualmente pretenda compará-lo com outros espaços similares ou examinar em algum momento de sua pesquisa a inserção do espaço regional em um universo maior (o espaço nacional, ou uma rede comercial, por exemplo).

Que a região é uma construção do historiador, do geógrafo ou do cientista social que examina uma determinada questão, isto já o sabem de longa monta os historiadores regionais. A região não existe obviamente como espaço pré-estabelecido, ela é construída dentro das coordenadas de uma determinada pesquisa ou de uma certa análise sociológica ou historiográfica. Por isto, aliás, é preciso que o pesquisador – ao delimitar o seu espaço de investigação e defini-lo como uma ‘região’ – esclareça os critérios que o conduziram a esta delimitação. Posto isto, é óbvio que o ‘espaço’, seja este definido como espaço físico ou como espaço social, é uma noção fundamental dentro deste campo de estudos que pode ser enquadrado como História Regional. Veremos a seguir que, enquanto a História Regional relaciona-se ao conceito de "região" - e a História Local ao conceito de "lugar" - já a Micro-História está relacionada a um conceito bem distinto, o de "escala".



Micro-História


Enquanto a História Regional corresponde a um domínio ou a uma abordagem historiográfica que foi se constituindo em torno da ideia de construir um espaço de observação sobre o qual se torna possível perceber determinadas articulações e homogeneidades sociais (e a recorrência de determinadas contradições sociais, obviamente), já a Micro-História corresponde a um campo histórico que se refere a uma coisa bem distinta: a uma determinada maneira de se aproximar de uma certa realidade social ou de construir o objeto historiográfico. A Micro-História, sustentaremos aqui, relaciona-se a uma abordagem, mais do que a qualquer outra coisa.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que a Micro-História não se refere necessariamente ao estudo de um espaço físico reduzido ou delimitado, embora isto possa até ocorrer. O que a Micro-História pretende é uma aproximação na escala de observação do historiador com o intuito de se perceber aspectos que, de outro modo, passariam desapercebidos. Para termos uma boa imagem metafórica, o micro-historiador é um historiador que traz consigo uma poderosa lente de aumento; ele trabalha com uma escala de observação e com um nível de atenção e observação que fazem lembrar a prática dos investigadores criminais ou dos microbiologistas.

Quando um micro-historiador estuda uma pequena comunidade, pois isto pode eventualmente ocorrer, ele não estuda propriamente a pequena comunidade, por ela mesma, mas estuda através da pequena comunidade (não é por exemplo a perspectiva da História Local, que busca o estudo da realidade micro-localizada por ela mesma). A comunidade examinada pela Micro-História pode aparecer, por exemplo, como um meio para se atingir a compreensão de aspectos específicos relativos a uma sociedade mais ampla. Da mesma forma, pode-se tomar para estudo uma ‘realidade micro’ com o intuito de compreender certos aspectos de um grande processo de centralização estatal que, em um exame encaminhado do ponto de vista da macro-história, passa-riam certamente desapercebidos.

O objeto de estudo do micro-historiador não precisa ser, desta maneira, o espaço micro-recortado. Pode ser uma prática social específica, a trajetória de determinados atores sociais, um núcleo de representações, uma ocorrência (por exemplo, um crime) ou qualquer outro aspecto que o historiador considere revelador em relação aos problemas sociais ou culturais que está disposto a examinar. Se ele elabora a biografia ou a “história de vida” de um indivíduo (e freqüentemente escolherá um indivíduo anônimo) o que o estará interessando não é propriamente biografar este indivíduo, mas sim os aspectos que poderá perceber através do exame micro-localizado desta vida. O indivíduo, é o que precisa ser entendido aqui, será para o micro-historiador apenas um caminho para entender aspectos sociais mais amplos.

Da mesma maneira, assim como a Micro-História não deve ser confundida com a História Regional ao examinar eventualmente um espaço micro-recortado, também não deve ser confundida com o chamado ‘estudo de caso’ ao estudar uma prática social ou uma ocorrência, e nem ser confundida com a Biografia Histórica ao examinar uma “vida” ou uma trajetória individual. Sempre que toma estes objetos – micro-localidades, práticas sociais, ocorrências históricas, trajetórias individuais entrecruzadas ou vidas individuais – o micro-historiador está no encalço de algo mais do que estes objetos em si mesmos. A prática micro-historiográfica não deve ser definida propriamente pelo que se vê, mas pelo modo como se vê.

Para utilizar uma metáfora conhecida, a Micro-História propõe a utilização do microscópio ao invés do telescópio. Não se trata, neste caso, de depreciar o segundo em relação ao primeiro. O que importa é ter consciência de que cada um destes instrumentos pode se mostrar mais apropriado para conduzir à percepção de certos aspectos do universo (por exemplo, o espaço sideral ou o espaço intra-atômico). De igual maneira, a Micro-História procura enxergar aquilo que escapa à Macro-História tradicional, empreendendo para tal uma ‘aproximação da escala de observação’ que não poupa os detalhes e que investe no exame intensivo de uma documentação. Considerando os exemplos antes citados, o que importa para a Micro-História não é tanto a ‘unidade de observação’, mas a ‘escala de observação’ utilizada pelo historiador, o modo intensivo como ele observa, e o que ele observa.

A ideia de que, em muitos casos, a Micro-História examina um campo ou um aspecto reduzido para enxergar mais longe, ou para perceber elementos que escapariam à macro-perspectiva tradicional, merece alguns esclarecimentos adicionais. Poderíamos utilizar aqui uma nova metáfora: a de que o micro-historiador examina “uma gota d’água para enxergar algo do oceano inteiro”, contanto que tenhamos uma compreensão muito precisa sobre que esta imagem significa. Suponhamos um oceanógrafo que estivesse investindo em uma possibilidade como esta. Ele se propôs a buscar compreender algo do oceano inteiro a partir de uma minúscula gota d’água extraída deste oceano – será isto possível? A resposta depende obviamente do problema científico que se pretende examinar. Não é possível compreender a fauna marítima examinando uma simples gota do oceano (um peixe não cabe em uma gota d’água). Mas é possível estudar a composição molecular da água a partir de qualquer gota (com exceção, talvez, das gotas extraídas de áreas que sofreram vazamentos de óleo nos acidentes ecológicos que ocasionalmente têm perturbado os noticiários recentes). Não está sendo defendida aqui nenhuma proposta de que este macrocosmos que é o oceano está essencialmente contido neste microcosmos que é a gota d’água, ou de que a sociedade inteira está contida em cada um dos seus fragmentos passíveis de serem examinados. Também não se trata de dizer que a micro-análise seleciona um fragmento para amostra (algumas gotas do oceano, por exemplo), para depois proceder a uma generalização das observações com o fito de concluir que o que aconteceu a uma ou mais gotas d’água acontecerá a todas que compõem o oceano (o que seria o método empírico-indutivo tradicional). Na verdade, a Micro-História não trabalha propriamente com generalizações deste tipo. Pelo contrário, as motivações que produziram este novo tipo de abordagem historiográfica são até mesmo um pouco avessas seja às grandes generalizações (tão típicas das antigas utopias historiográficas da “história total”), seja à ideia de que a gota contém o oceano ou de que o fragmento social contém a sociedade). De que se trata então?

A verdade é que a Micro-História é uma opção metodológica, uma postura historiográfica, uma "abordagem", mais propriamente falando. Ela requer uma atenção incomum aos detalhes - não porque os detalhes são curiosos, mas porque os detalhes são reveladores . Conforme veremos no texto que propomos para dar continuidade a estas reflexões, não é de causar surpresa que certas fontes atraiam especial interesse dos micro-historiadores, como por exemplo os processos criminais e inquisitoriais. Estas fontes, em particular, permitem uma análise intensiva - onde tudo pode ser revelador - e ao mesmo tempo são espaços nos quais se confrontam diversas vozes sociais. Nos processos criminais, é dada uma voz aos acusadores, ao réu, às testemunhas, aos técnicos que proporcionam perícias e análises setoriais, e à própria vítima. Mesmo quando um corpo já não pode falar na sua vida comum, ele deve falar aos micro-historiadores, assim como pôde falar para os peritos na investigação criminal.

Uma gama de muitas outras fontes particularmente adaptáveis ao tratamento micro-historiográfico também pode ser mencionada - como os diários, que exatamente por não terem sido escritos para serem expostas, podem revelar aspectos ocultos da vida vida comum, ou como as correspondências, os relatos de viagem, e muitas outras.

O que veremos a seguir, no artigo que prossegue com nossos esclarecimentos sobre a Micro-História, é que o micro-historiador vale-se de suas fontes para tentar enxergar a complexidade que pode estar oculta atrás da simplicidade dos detalhes. O olhar da Micro-História é intensivo, detalhista, atento às complexidades, àquilo que destoa do comum, mas também ao detalhe que é de tal maneira já naturalizado por todos, que ninguém mais o percebe como um detalhe revelador. Adentremos, a seguir, os aspectos metodológicos pertinentes à Micro-História ...


José D'Assunção Barros



Leia a continuação deste texto em Sobre a Feitura da Micro-História (Opsis, vol.7, n°9, 2007).



O presente texto também se encontra, em outra versão, mais aprofundada, em um dos capítulos do livro O Campo da História (BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição).

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Outras referências bibliográficas:

BARROS, José D'Assunção. "Micro-História" in O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição. p.152-179.

BARROS, José D'Assunção. "O olhar micro-historiográfico no Brasil". Revista do IHGB, a-165, n°424, jul/set. 2004.

GINZBURG,Carlo. “O inquisidor como antropólogo” In A Micro História e outros ensaios. Lisboa: DIFEL, 1991 [original: 1989]

GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” In Mitos, Emblemas, Sinais, São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.143-179

GINZBURG,Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987 [original: 1975]

LEVI, Giovanni. "Sobre a Micro-História" in BURKE,Peter (org.) A Escrita da História - novas perspectivas. São Paulo: Unesp. 1992. p.133-161.

LIMA, Henrique Espada. A Micro-História Italiana - escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

PESAVENTO, Sandra. “Esta história que chamam micro” In: Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre: Edurgs, 2000, p. 228-229.

REVEL, Jacques (olrg.). Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.


José D'Assunção Barros
E-mail: jose.d.assun@globomail.com

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