quinta-feira, 25 de junho de 2020

Hipóteses na História



O que é uma Hipótese? Como a hipóteses podem ser utilizadas para conduzir uma investigação científica, e, em particular, uma investigação no âmbito das ciências humanas? Como as hipóteses se articulam à necessidade historiográfica de proposição de novas problemas, e de elaboração de interpretações historiográficas? Vamos discutir estes aspectos no texto a seguir, que pode ser útil tanto aos estudiosos de ciências humanas em geral, como também, de maneira mais específica, aos historiadores.





1.  O caráter provisório das Hipóteses e seu papel na pesquisa científica

  O primeiro aspecto que levaremos em consideração acerca do uso de hipóteses para a elaboração de conhecimento científico é o seu uso provisório. Uma hipótese, conforme veremos neste ensaio, tem por finalidade principal a de guiar ou motivar uma investigação, propor respostas possíveis para um problema, colocar o pesquisador em estado de perturbação criadora e em movimento, mobilizar procedimentos metodológicos e ajustá-los às assertivas teóricas, ao mesmo tempo em que pode contribuir para a própria reconstrução destas mesmas assertivas. A hipótese tem por finalidade liberar potencialidades da pesquisa, e não engessá-la. Este é um primeiro aspecto a considerar, e para isto recorreremos a um exemplo já clássico para as ciências sociais brasileiras.
No período do imediato pós-Guerra, o mundo começava a tentar se recuperar do impactante trauma dos horrores promovidos pela intolerância Nazista, sistema totalitário que assombrou a Europa com sua filosofia extremamente racista, seu culto à pretensa superioridade de uma “raça ariana” e suas práticas de extermínio em campos de concentração. Os nazistas tinham sido vencidos, e a Europa e demais regiões do planeta mais indiretamente envolvidas no conflito – como as Américas, a África, e certas regiões da Ásia – respiravam ao mesmo tempo um ar de libertação e de inquietação diante dos questionamentos sociais que agora giravam como um turbilhão de inquietações em torno de diversas questões que traziam para o centro do palco os problemas relacionados às desigualdades e diferenças humanas.
Em 1951, alguns intelectuais, entre os quais o antropólogo suíço-americano Alfred Metreaux (1902-1963), idealizaram a promoção de uma pesquisa junto à UNESCO que teria por objetivo mostrar como o racismo era despropositado e como poderia haver esperanças de uma futura civilização mundial na qual convivessem seres humanos de diversas origens étnicas[1]. Mais ainda, discutia-se então a própria validade do conceito de raças, ou os limites desta conceituação. Indagava-se, principalmente, se, em um mundo recém-egresso da Segunda Grande Guerra – e que tinha a duras custas derrubado um perigoso regime de intolerâncias – se não haveria no planeta experiências sociais que pudessem inspirar o reconhecimento do extraordinário valor e benefício do convívio dos diferentes[2].
A pesquisa elegeu como foco de análise o Brasil: um país do qual se dizia que o racismo era menos intenso do que em qualquer parte do mundo, conforme sustentavam algumas obras clássicas do período de 1930 das quais a mais célebre era Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987). A motivação principal era encontrar o Brasil como exemplo de sociedade anti-racista, fazer um elogio da mestiçagem e do convívio das diferenças no contexto de um pós-Guerra que tinha visto surgir com o Nazismo um extremado exemplo de in-convivência racial[3].
Era um projeto ambicioso, envolvendo diversos intelectuais importantes, e entre os contratados para esta pesquisa estavam pesquisadores da realidade social brasileira já particularmente importantes no âmbito das Ciências Humanas e das Ciências Sociais, entre os quais citaremos os nomes de Florestan Fernandes (1920-1995), Roger Bastide (1898-1974), Oracy Nogueira (1917-1996) e Thales de Azevedo (1904-1995). Conforme já ressaltamos, a hipótese de trabalho que era lançada para o grupo, para que cada um a investigasse livremente, com a devida independência, e de acordo com as singularidades de seus estudos, era a de que o Brasil poderia ser tomado como um inspirador modelo de sociedade anti-racista.
Em que pese o fato de que alguns dos autores envolvidos no projeto corresponderam às expectativas da UNESCO, como seria o caso de Thales de Azevedo, já outros dos estudiosos envolvidos no mesmo projeto – na verdade a maioria – chegariam a resultados bastante contrários às proposições sustentadas pela hipótese inicial de trabalho. Estudiosos como Florestan Fernandes e Roger Bastide chegaram precisamente a conclusões que apontavam para a existência no Brasil de formas específicas de racismo, uma espécie de “racismo à brasileira”, bem distante da antiga noção de “democracia racial”.
Encontro neste exemplo uma ilustração bastante significativa sobre o que representa a hipótese no meio científico, no que concerne ao seu caráter de instrumento provisório de trabalho. Alguns intelectuais partem de uma proposição inicial, de uma certa expectativa, de uma proposta que se apresenta a um problema específico – o do racismo – bem estabelecida sobre a idéia de que o Brasil poderia ser apontado como um modelo anti-racista, e, ao fim de seus empreendimentos, suas pesquisas os conduzem a conclusões diametralmente opostas.
Não é nosso objetivo, naturalmente, discutir estas conclusões específicas, mas apenas chamar atenção para o fato de que a hipótese, seja ela qual for, é essencialmente um instrumento provisório, podendo ou não ser confirmada, verificada ou demonstrada. A hipótese, no caso discutido, apenas ofereceu-se como elemento de movimentação inicial para a pesquisa. Não é papel da hipótese antecipar os resultados do trabalho. Sua função, na verdade, ou uma de suas diversas funções, é apenas a de colocar o pesquisador em movimento. O exemplo ilustra bem isto. Veremos em maior detalhe como as hipóteses podem ser instrumentalizadas pelas pesquisas em modelo acadêmico, e buscaremos discutir, inicialmente, de onde se origina a necessidade de sua utilização nas ciências humanas.


3. Sobre a constituição de um Problema como ponto de partida para o processo de investigação

A investigação científica tem se edificado basicamente, desde longa data, em torno da intenção de resolver “problemas” bem delineados, os quais grosso modo constituem o ponto de partida do próprio processo de investigação. Essa característica da investigação científica hoje predominante em várias partes do planeta é muito familiar aos setores das ciências exatas e naturais, mas não é de modo nenhum estranha às ciências sociais e humanas. Também as Ciências Humanas, e entre estas a História, empenham-se em discutir problemas específicos, mesmo que este problemas não apresentem soluções únicas e definitivas. Já discutimos, anteriormente, que as ciências humanas, a exemplo da História, são ciências interpretativas.
Se algumas das ciências exatas tornam-se tanto mais valorizadas quanto mais problemas parecem resolver, as ciências humanas são tanto mais relevantes quando se tornam capazes de propor novos problemas. No caso da História, desde que os historiadores assumiram o projeto de torná-la reconhecidamente uma ciência, podemos dizer que essa necessidade de problematização foi se fazendo cada vez mais característica da historiografia ocidental – sobretudo a partir do século XX, quando se superou a história narrativa ou descritiva do século XIX em favor de uma “História-Problema”[4].
Já não existe maior sentido, para a historiografia profissional de hoje, no gesto de narrar simplesmente uma seqüência de acontecimentos, ou de descrever certo cenário histórico, se esta narrativa ou esta descrição não estiverem problematizadas. Problematizar é lançar indagações, propor articulações diversas, conectar, construir, desconstruir, tentar enxergar de uma nova maneira, e viabilizar uma série de operações que se fazem incidir sobre o material coletado e os dados apurados. Problematizar, nas suas formulações mais irredutíveis, é levantar uma questão sobre algo que se constatou empiricamente ou sobre uma realidade que se impôs ao pesquisador. Problematiza-se também, é importante lembrar, no próprio momento de constituição do objeto da pesquisa, na eleição da base de fontes que será mobilizada na investigação, e em diversos outros momentos da pesquisa.
A formulação de hipóteses, no processo de investigação científica, é precisamente a segunda parte deste modo de operar inaugurado pela formulação de um problema inicial. Antes de tudo, a hipótese corresponde a uma resposta possível ao problema formulado – equivalendo a uma suposição ou solução provisória mediante à qual a imaginação se antecipa ao conhecimento, e que se destina a ser ulteriormente verificada (para ser confirmada ou rejeitada)[5]. A hipótese é na verdade um recurso de que se vale o raciocínio humano diante da necessidade de superar o impasse produzido pela formulação de um problema e diante do interesse em adquirir um conhecimento que ainda não se tem. É um fio condutor para o pensamento, através do qual se busca encontrar uma solução adequada, ao mesmo tempo em que são descartadas progressivamente as soluções inadequadas para o problema que se quer resolver.
Pode-se dizer que a Hipótese é uma asserção provisória que, longe de ser uma proposição evidente por si mesma, pode ou não ser verdadeira – e que, dentro de uma elaboração científica, deve ser necessariamente submetida a cuidadosos procedimentos de verificação e demonstração. Constitui-se em um dos elos do processo de argumentação ou investigação (na pesquisa científica ela é gerada a partir de um problema proposto e desencadeia um processo de demonstração a partir da sua enunciação).
É por isto que, etimologicamente, a palavra “hipótese” significa literalmente “proposição subjacente”. O que se “põe embaixo” é precisamente um enunciado que será coberto por outros, ou por uma série articulada de enunciados, de modo que a Hipótese desempenha o papel de uma espécie de fio condutor para a construção do conhecimento. Apesar do seu caráter provisório, a Hipótese tem sido a base da argumentação científica e desempenha uma série de funções dentro da pesquisa e do desenvolvimento do conhecimento científico, como se verá a seguir ...

 José D'Assunção Barros


Veja a continuação deste artigo em As Hipóteses nas Ciências Humanas (BARROS, José D'Assunção. Sísifo, n°7, 150-162, 2008).

O texto também dialoga com o capítulo "Hipóteses", do livro O Projeto de Pesquisa em História (BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2005). Neste último caso, as hipóteses são trabalhadas instrumentalmente, com vistas à sua aplicação à elaboração de um Projeto de Pesquisa e ao planejamento de uma pesquisa científica, em especial na área de ciências humanas e nos estudos de História.




NOTAS:


[1] METREAUX, 1950, P.384-390.
[2] Um documento-base que registrava em 1951 o conjunto de preocupações expressas pela UNESCO foi o Statement on Race, publicado em Paris em 21 de novembro de 1951, escrito em inglês e chancelado pela United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO).
[3] Assim se expressa Marcos Chor Maio, em um artigo sobre o “Projeto Unesco”: “o Projeto Unesco foi um agente catalizador. Uma instituição internacional, criada logo após o Holocausto, momento de profunda crise da civilização ocidental, procura numa espécie de anti-Alemanha nazista, localizada na periferia do mundo capitalista, uma sociedade com reduzida taxa de tensões étnico-raciais, com a perspectiva de tornar universal o que se acreditava ser particular. Por sua vez, cientistas sociais brasileiros e estrangeiros haviam assumido como desafio intelectual não apenas tornar inteligível o cenário racial brasileiro, mas também responder à recorrente questão da incorporação de determinados segmentos sociais à modernidade” (MAIO, 1999, p.1).
[4] A expressão “história-problema” adquiriu cidadania no vocabulário historiográfico a partir dos polêmicos artigos de Lucien Febvre (1858-1976) e do programa de ação da chamada Escola dos Annales. Também os novos setores marxistas da historiografia, e de modo geral toda a comunidade historiográfica européia e das três Américas, adotaram a nova perspectiva.
[5] Existem nuances importantes entre as expressões que são habitualmente utilizadas para se referir ao teste sistemático das hipóteses. Nas ciências exatas, usa-se mais a expressão “verificar as hipóteses”, e para alguns problemas específicos é possível chegar a resultados tão objetivos que se pode mesmo dizer que a hipótese foi “provada”. Nas ciências humanas, contudo, já não se tem nos dias de hoje senão a pretensão de produzir interpretações sobre os processos examinados. Um historiador, por exemplo, não almeja chegar a uma verdade absoluta. Por isso, usa-se aqui mais a expressão “demonstrar as hipóteses”, nesta e em outras ciências sociais e humanas que são essencialmente interpretativas, e que apenas pretendem demonstrar que uma certa teoria ou interpretação é sustentável como uma possibilidade passível de ser pensada como verdadeira.

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