O que é uma Hipótese? Como a hipóteses podem ser utilizadas para conduzir uma investigação científica, e, em particular, uma investigação no âmbito das ciências humanas? Como as hipóteses se articulam à necessidade historiográfica de proposição de novas problemas, e de elaboração de interpretações historiográficas? Vamos discutir estes aspectos no texto a seguir, que pode ser útil tanto aos estudiosos de ciências humanas em geral, como também, de maneira mais específica, aos historiadores.
1. O caráter provisório das Hipóteses e seu papel na pesquisa científica
O primeiro aspecto que
levaremos em consideração acerca do uso de hipóteses para a elaboração de
conhecimento científico é o seu uso provisório.
Uma hipótese, conforme veremos neste ensaio, tem por finalidade principal a de guiar
ou motivar uma investigação, propor respostas possíveis para um problema,
colocar o pesquisador em estado de perturbação criadora e em movimento,
mobilizar procedimentos metodológicos e ajustá-los às assertivas teóricas, ao
mesmo tempo em que pode contribuir para a própria reconstrução destas mesmas
assertivas. A hipótese tem por finalidade liberar potencialidades da pesquisa,
e não engessá-la. Este é um primeiro aspecto a considerar, e para isto
recorreremos a um exemplo já clássico para as ciências sociais brasileiras.
No período do imediato pós-Guerra,
o mundo começava a tentar se recuperar do impactante trauma dos horrores
promovidos pela intolerância Nazista, sistema totalitário que assombrou a
Europa com sua filosofia extremamente racista, seu culto à pretensa
superioridade de uma “raça ariana” e suas práticas de extermínio em campos de
concentração. Os nazistas tinham sido vencidos, e a Europa e demais regiões do
planeta mais indiretamente envolvidas no conflito – como as Américas, a África,
e certas regiões da Ásia – respiravam ao mesmo tempo um ar de libertação e de
inquietação diante dos questionamentos sociais que agora giravam como um
turbilhão de inquietações em torno de diversas questões que traziam para o
centro do palco os problemas relacionados às desigualdades e diferenças
humanas.
Em 1951, alguns
intelectuais, entre os quais o antropólogo suíço-americano Alfred Metreaux
(1902-1963), idealizaram a promoção de uma pesquisa junto à UNESCO que teria
por objetivo mostrar como o racismo era despropositado e como poderia haver
esperanças de uma futura civilização mundial na qual convivessem seres humanos
de diversas origens étnicas[1]. Mais ainda, discutia-se então a própria validade do
conceito de raças, ou os limites desta conceituação. Indagava-se, principalmente,
se, em um mundo recém-egresso da Segunda Grande Guerra – e que tinha a duras
custas derrubado um perigoso regime de intolerâncias – se não haveria no
planeta experiências sociais que pudessem inspirar o reconhecimento do
extraordinário valor e benefício do convívio dos diferentes[2].
A pesquisa elegeu como
foco de análise o Brasil: um país do qual se dizia que o racismo era menos
intenso do que em qualquer parte do mundo, conforme sustentavam algumas obras
clássicas do período de 1930 das quais a mais célebre era Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987). A
motivação principal era encontrar o Brasil como exemplo de sociedade
anti-racista, fazer um elogio da mestiçagem e do convívio das diferenças no
contexto de um pós-Guerra que tinha visto surgir com o Nazismo um extremado
exemplo de in-convivência racial[3].
Era um projeto ambicioso,
envolvendo diversos intelectuais importantes, e entre os contratados para esta
pesquisa estavam pesquisadores da realidade social brasileira já particularmente
importantes no âmbito das Ciências Humanas e das Ciências Sociais, entre os
quais citaremos os nomes de Florestan Fernandes (1920-1995), Roger Bastide
(1898-1974), Oracy Nogueira (1917-1996) e Thales de Azevedo (1904-1995).
Conforme já ressaltamos, a hipótese de trabalho que era lançada para o grupo,
para que cada um a investigasse livremente, com a devida independência, e de
acordo com as singularidades de seus estudos, era a de que o Brasil poderia ser
tomado como um inspirador modelo de sociedade anti-racista.
Em que pese o fato de
que alguns dos autores envolvidos no projeto corresponderam às expectativas da
UNESCO, como seria o caso de Thales de Azevedo, já outros dos estudiosos
envolvidos no mesmo projeto – na verdade a maioria – chegariam a resultados
bastante contrários às proposições sustentadas pela hipótese inicial de
trabalho. Estudiosos como Florestan Fernandes e Roger Bastide chegaram
precisamente a conclusões que apontavam para a existência no Brasil de formas
específicas de racismo, uma espécie de “racismo à brasileira”, bem distante da
antiga noção de “democracia racial”.
Encontro neste exemplo
uma ilustração bastante significativa sobre o que representa a hipótese no meio
científico, no que concerne ao seu caráter de instrumento provisório de
trabalho. Alguns intelectuais partem de uma proposição inicial, de uma certa
expectativa, de uma proposta que se apresenta a um problema específico – o do
racismo – bem estabelecida sobre a idéia de que o Brasil poderia ser apontado
como um modelo anti-racista, e, ao fim de seus empreendimentos, suas pesquisas
os conduzem a conclusões diametralmente opostas.
Não é nosso objetivo,
naturalmente, discutir estas conclusões específicas, mas apenas chamar atenção
para o fato de que a hipótese, seja ela qual for, é essencialmente um
instrumento provisório, podendo ou não ser confirmada, verificada ou demonstrada.
A hipótese, no caso discutido, apenas ofereceu-se como elemento de movimentação
inicial para a pesquisa. Não é papel da hipótese antecipar os resultados do
trabalho. Sua função, na verdade, ou uma de suas diversas funções, é apenas a
de colocar o pesquisador em movimento. O exemplo ilustra bem isto. Veremos em
maior detalhe como as hipóteses podem ser instrumentalizadas pelas pesquisas em
modelo acadêmico, e buscaremos discutir, inicialmente, de onde se origina a
necessidade de sua utilização nas ciências humanas.
3. Sobre a constituição de um Problema como
ponto de partida para o processo de investigação
A investigação
científica tem se edificado basicamente, desde longa data, em torno da
intenção de resolver “problemas” bem delineados, os quais grosso modo
constituem o ponto de partida do próprio processo de investigação. Essa
característica da investigação científica hoje predominante em várias partes do
planeta é muito familiar aos setores das ciências exatas e naturais, mas não é de
modo nenhum estranha às ciências sociais e humanas. Também as Ciências Humanas, e entre estas a História, empenham-se em discutir problemas específicos, mesmo que este problemas não apresentem soluções únicas e definitivas. Já discutimos, anteriormente, que as ciências humanas, a exemplo da História, são ciências interpretativas.
Se algumas das ciências exatas tornam-se tanto mais valorizadas quanto mais problemas parecem resolver, as ciências humanas são tanto mais relevantes quando se tornam capazes de propor novos problemas. No caso da História, desde
que os historiadores assumiram o projeto de torná-la reconhecidamente uma
ciência, podemos dizer que
essa necessidade de problematização foi se fazendo cada vez mais característica
da historiografia ocidental – sobretudo a partir do século XX, quando se
superou a história narrativa ou descritiva do século XIX em favor de uma
“História-Problema”[4].
Já não existe maior
sentido, para a historiografia profissional de hoje, no gesto de narrar
simplesmente uma seqüência de acontecimentos, ou de descrever certo cenário
histórico, se esta narrativa ou esta descrição não estiverem problematizadas. Problematizar é lançar
indagações, propor articulações diversas, conectar, construir, desconstruir,
tentar enxergar de uma nova maneira, e viabilizar uma série de operações que se
fazem incidir sobre o material coletado e os dados apurados. Problematizar, nas
suas formulações mais irredutíveis, é levantar uma questão sobre algo que se
constatou empiricamente ou sobre uma realidade que se impôs ao pesquisador.
Problematiza-se também, é importante lembrar, no próprio momento de
constituição do objeto da pesquisa, na eleição da base de fontes que será
mobilizada na investigação, e em diversos outros momentos da pesquisa.
A formulação de
hipóteses, no processo de investigação científica, é precisamente a segunda
parte deste modo de operar inaugurado pela formulação de um problema inicial.
Antes de tudo, a hipótese corresponde a uma resposta possível ao problema formulado
– equivalendo a uma suposição ou solução provisória mediante à qual a
imaginação se antecipa ao conhecimento, e que se destina a ser ulteriormente
verificada (para ser confirmada ou rejeitada)[5]. A hipótese é na verdade um
recurso de que se vale o raciocínio humano diante da necessidade de superar o
impasse produzido pela formulação de um problema e diante do interesse em adquirir
um conhecimento que ainda não se tem. É um fio condutor para o pensamento,
através do qual se busca encontrar uma solução adequada, ao mesmo tempo em que
são descartadas progressivamente as soluções inadequadas para o problema que se
quer resolver.
Pode-se dizer que a
Hipótese é uma asserção provisória
que, longe de ser uma proposição evidente por si mesma, pode ou não ser
verdadeira – e que, dentro de uma elaboração científica, deve ser
necessariamente submetida a cuidadosos procedimentos de verificação e demonstração.
Constitui-se em um dos elos do processo de argumentação ou investigação (na
pesquisa científica ela é gerada a partir de um problema proposto e desencadeia
um processo de demonstração a partir da sua enunciação).
É por isto que,
etimologicamente, a palavra “hipótese” significa literalmente “proposição
subjacente”. O que se “põe embaixo” é precisamente um enunciado que será
coberto por outros, ou por uma série articulada de enunciados, de modo que a
Hipótese desempenha o papel de uma espécie de fio condutor para a construção do
conhecimento. Apesar do seu caráter provisório, a Hipótese tem sido a base da
argumentação científica e desempenha uma série de funções dentro da pesquisa e
do desenvolvimento do conhecimento científico, como se verá a seguir ...
José D'Assunção Barros
Veja a continuação deste artigo em As Hipóteses nas Ciências Humanas (BARROS, José D'Assunção. Sísifo, n°7, 150-162, 2008).

NOTAS:
[1]
METREAUX, 1950, P.384-390.
[2]
Um documento-base que registrava em 1951 o conjunto de preocupações expressas
pela UNESCO foi o Statement on Race,
publicado em Paris em 21 de novembro de 1951, escrito em inglês e chancelado
pela United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO).
[3]
Assim se expressa Marcos Chor Maio, em um artigo sobre o “Projeto Unesco”: “o
Projeto Unesco foi um agente catalizador. Uma instituição internacional, criada
logo após o Holocausto, momento de profunda crise da civilização ocidental,
procura numa espécie de anti-Alemanha nazista, localizada na periferia do mundo
capitalista, uma sociedade com reduzida taxa de tensões étnico-raciais, com a
perspectiva de tornar universal o que se acreditava ser particular. Por sua
vez, cientistas sociais brasileiros e estrangeiros haviam assumido como desafio
intelectual não apenas tornar inteligível o cenário racial brasileiro, mas
também responder à recorrente questão da incorporação de determinados segmentos
sociais à modernidade” (MAIO, 1999, p.1).
[4]
A expressão “história-problema” adquiriu cidadania no vocabulário
historiográfico a partir dos polêmicos artigos de Lucien Febvre (1858-1976) e
do programa de ação da chamada Escola dos Annales. Também os novos setores
marxistas da historiografia, e de modo geral toda a comunidade historiográfica
européia e das três Américas, adotaram a nova perspectiva.
[5]
Existem nuances importantes entre as expressões que são habitualmente
utilizadas para se referir ao teste sistemático das hipóteses. Nas ciências
exatas, usa-se mais a expressão “verificar as hipóteses”, e para alguns
problemas específicos é possível chegar a resultados tão objetivos que se pode
mesmo dizer que a hipótese foi “provada”. Nas ciências humanas, contudo, já não
se tem nos dias de hoje senão a pretensão de produzir interpretações sobre os
processos examinados. Um historiador, por exemplo, não almeja chegar a uma
verdade absoluta. Por isso, usa-se aqui mais a expressão “demonstrar as
hipóteses”, nesta e em outras ciências sociais e humanas que são essencialmente
interpretativas, e que apenas pretendem demonstrar que uma certa teoria ou
interpretação é sustentável como uma possibilidade passível de ser pensada como
verdadeira.
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