1. História
Comparada: delimitações iniciais
A
História Comparada é uma modalidade
historiográfica fortemente marcada pela complexidade. Referindo-se simultaneamente
a um ‘modo específico de observar a história’ e à escolha de um ‘campo de
observação’ de determinado tipo – na verdade um “duplo campo de observação”, ou
mesmo um “múltiplo campo de observação” – situa-se entre aqueles campos
históricos que são definidos por uma “abordagem” específica (por um modo
próprio de fazer a história, de observar os fatos ou de analisar as fontes)[1].
Resumida em duas indagações que a tornam possível, a História Comparada
pergunta simultaneamente, no momento mesmo em que o historiador está prestes a
iniciar sua pesquisa: “o que observar?” e “como observar?”. E dá respostas
efetivamente originais a estas duas indagações.
É
possível que aí esteja o que há de mais instigante nesta abordagem historiográfica:
o fato de que, em função destas duas indagações que parecem constituí-la na sua
essência mais íntima, a História Comparada sempre se mostra como um insistente convite
para que o historiador repense a própria ciência histórica em seus dois fazeres
mais irredutíveis e fundamentais – de um lado, o ‘estabelecimento do recorte’,
e, de outro lado, o seu modo de tratamento sistematizado das fontes e dos dados
e processos investigados. Em suma, a História Comparada tanto impõe a escolha
de um recorte geminado de espaço e tempo que obrigará o historiador a
atravessar duas ou mais realidades sócio-econômicas, políticas ou culturais distintas,
como de outro lado esta mesma História Comparada parece imprimir, através do seu
próprio modo de observar a realidade histórica, a necessidade a cada instante
atualizada de conciliar uma reflexão simultaneamente atenta às semelhanças e às
diferenças, repensando as metodologias associáveis a esta prática.
Antes
de mais nada, consideraremos que comparar é uma forma específica de propor e
pensar as questões. Freqüentemente nos defrontamos com esta forma intuitiva de
abordagem quando nos deparamos na vida cotidiana com situações novas, e neste
caso a comparação nos ajuda a precisamente
a compreender a partir de bases mais conhecidas e seguras aquilo que nos é
apresentado como novo, seja identificando semelhanças ou diferenças. Comparar é
um gesto espontâneo, uma prática que o homem exercita nas suas atividades mais
corriqueiras, mas que surge com especial intensidade e necessidade quando ele
tem diante de si uma situação nova ou uma realidade estranha.
A
comparação neste momento – diante do desafio ou da necessidade – impõe-se como
método. Trata-se de iluminar um objeto ou situação a partir de outro, mais
conhecido, de modo que o espírito que aprofunda esta prática comparativa
dispõe-se a fazer analogias, a identificar semelhanças e diferenças entre duas
realidades, a perceber variações de um mesmo modelo. Por vezes, será possível ainda
a prática da “iluminação recíproca”, um pouco mais sofisticada, que se dispõe a
confrontar dois objetos ou realidades ainda não conhecidos de modo a que os
traços fundamentais de um ponham em relevo os aspectos do outro, dando a
perceber as ausências de elementos em um e outro, as variações de intensidade
relativas à mútua presença de algum elemento em comum. Será por fim possível,
se o que se observa são dois objetos ou realidades dinâmicas em transformação,
verificar como os elementos identificados através da comparação vão variando em
alguma direção mais específica – de modo que se possa identificar um certo
padrão de transformações no decurso de um tempo – e, mais ainda, se temos duas
realidades contíguas, como uma influencia a outra, e como as duas a partir da
relação recíproca terminam por se transformar mutuamente.
Já
nestes níveis de análise, a comparação não mais se mostra um mero gesto
intuitivo, mas sim um método que oferece àquele que a utiliza determinadas
potencialidades e certos limites, forçando-o antes de mais nada a definir o que
pode e o que não pode ser comparado, a refletir sobre as condições em que esta
comparação pode se estabelecer, a formular estratégias e modos específicos para
a observação mais sistematizada das diferenças e variações, acrescentando-se ainda
a necessária reflexão de que alguns tipos de objetos permitem este ou aquele
modo de observação e de análise, e não outro. Seria oportuno, então, indagar
pela natureza do momento em que o gesto comparativo passa da prática intuitiva
e espontânea para um outro patamar, onde se erige em método, em escolha tornada
consciente e acompanhada de autocrítica, de procedimentos, de sistematização.
2. Marc Bloch e a sistematização do método
comparativo na História
Em
que pese a existência de uma série de contribuições importantes para a gradual
constituição do comparativismo histórico, algumas remontando a trabalhos
históricos dos filósofos iluministas, e outras que nos remetem aos desenvolvimentos
das ciências sociais no século XIX, será mesmo com Marc Bloch que a História
Comparada adquire uma especificidade estritamente historiográfica. A História
Comparada de Bloch é antes de tudo uma “História Comparada Problema”, uma
história que se constrói em torno de problematizações específicas, e não de
curiosidades ou meras factualidades. Para além disto, Bloch teve grande
importância como sistematizador do método comparativo de maneira geral, seja a
partir de suas considerações teóricas – expressas em dois textos importantes
(1928 e 1930) – seja a partir de suas realizações práticas.
O
fato de que a História Comparada lida necessariamente com o Comparativismo
Histórico (embora, certamente, possa haver comparativismo histórico sem que
estejamos diante de História Comparada), obriga-nos, antes de mais nada, a
distinguir a “História Comparada“ propriamente dita – vista aqui como um campo
intradisciplinar específico – do “comparativismo histórico”, em sentido mais
amplo.
De
um modo ou de outro, o historiador sempre utilizou a comparação como parte de
seus recursos para compreender as sociedades no tempo, embora não
necessariamente como um método sistematizado. De todo modo, poderemos lembrar
aqui a formulação de Paul Veyne, que retoma um pressuposto de Giambatista Vico e
considera que “toda história é história comparada”[2]. Sobre
esta questão, diremos que – mesmo quando nos referimos ao comparativismo como
método – é evidente que poderemos sempre atribuir um sentido mais específico ao
“comparativismo histórico” como abordagem possível, e não como algo que estaria
implícito a todo o “fazer histórico” consoante a fórmula enunciada por Veyne.
“Comparar”, “elencar semelhanças e diferenças” e “estabelecer analogias” são
naturalmente ações tão familiares ao historiador como contextualizar os
acontecimentos ou dialogar com as suas fontes. Mas para falarmos em um “método
comparativo” é preciso, tal como já pontuamos no início deste ensaio, ultrapassar
aquele uso mais próximo da intuição e da utilização cotidiana da comparação
para alcançar um nível de observação e análise mais profundo e sistematizado,
para o qual “o que se pode comparar” e o “como se compara” tornam-se questões
relevantes, fundadoras de um gesto metodológico.
Posto
isto, já para definir a “História Comparada” como um campo específico, consideraremos
ainda que será preciso se ter em vista uma modalidade que não apenas lança mão
do “comparativismo histórico” como método – por exemplo, como método aplicável
à análise de determinados tipos de fontes ou séries de acontecimentos – e sim
uma modalidade que estabelece campos de trabalho ou de observação muito bem
delineados. A História Comparada, antes do mais, seria uma modalidade historiográfica
que atua de forma simultânea e integradora sobre campos de observação
diferenciados e bem delimitados – campos, a bem dizer, que ela mesma constitui
e delineia. Para o caso daquele tipo de História Comparada que coloca em
confronto duas realidades nacionais diferenciadas, estes campos podem ter até suas
bases já admitidas por antecipação, é verdade, mas sempre é bom se ter em vista
que os universos a serem comparados nas ciências humanas são sempre de algum
modo construções do próprio historiador ou do cientista social – não são
necessariamente conjuntos já dados ou passíveis de serem admitidos previamente,
frisaremos aqui. Situados estes parâmetros iniciais, estaremos discorrendo a
seguir sobre a História Comparada como um campo histórico definido simultaneamente
por um certo tipo de objetos – universos diferenciados postos em comparação e
em iluminação recíproca – e por uma abordagem já específica, de modo que a
História Comparada e o “comparativismo histórico” se encontrarão aqui em uma
prática historiográfica bastante singular.
Retornemos
por ora, ao contexto das primeiras afirmações da História Comparada como possibilidade
de um campo intradisciplinar, ao fim da terceira década do século XX. À época
em que Bloch começa a enunciar suas propostas historiográficas inovadoras, o mundo
mal acabara de conhecer os horrores da Primeira Grande Guerra, e outros horrores
ainda maiores estariam por vir com a ascensão do Nazismo e com o segundo grande
conflito mundial. Respirava-se, em parte significativa da intelectualidade
européia, certo ar de desânimo em relação aos caminhos que tinham sido
trilhados através do exacerbado culto ao Nacionalismo que tanto caracterizara a
estruturação dos estados-nações nos séculos anteriores. Mais ainda, de modo
geral os historiadores tinham desempenhado um papel bastante relevante na
organização institucional dos estados-nações, na estruturação de arquivos para
registro da memória nacional, na construção de narrativas laudatórias que
exaltavam cada nação em particular, e que por vezes chegavam mesmo a conclamar
indiretamente à Guerra. Alguns, como Guizot (1787-1874), tinham mesmo ocupado
postos governamentais; outros, como Michelet (1789-1874), chefiaram arquivos
nacionais em seus países. Agora, diante dos aspectos nefastos daquele processo
de exacerbação nacionalista que resultara em tão terrível desastre, era
compreensível que, no complexo e multi-diversificado circuito dos historiadores
profissionais, surgissem aqui e ali os vestígios de um certo “mal estar” da
historiografia. Não era um sentimento necessariamente predominante em todos os
países e ambientes, mas este mal-estar certamente se fazia presente.
Não
é de se estranhar que, neste mesmo contra-clima de desapontamento em relação ao
nacionalismo radicalizado – que de resto seguiria adiante pelas décadas
vindouras – tenham se fortalecido os primeiros sonhos de ultrapassagem dos
antigos modelos propugnados por aquela velha historiografia política e nacionalista,
que até então estivera sempre tão bem acomodada às molduras nacionais. Neste
ambiente histórico-social surgem os primeiros esforços de sistematização de uma
História Comparada – ou melhor, é neste ambiente que emerge a assimilação mais
sistemática do comparativismo histórico pelos historiadores profissionais, não
apenas como uma prática que há muito já era familiar à historiografia, mas como
um verdadeiro programa de escolhas temáticas e de eleição de novas aproximações
metodológicas.
Comparar,
era de algum modo abrir-se para o diálogo, romper o isolamento, contrapor um
elemento de “humanidade” ao mero orgulho nacional, e, por fim, questionar a
intolerância recíproca entre os homens – esta que logo seria coroada com a
explosão da primeira bomba atômica. Bastante sintonizado com o espírito de
ultrapassar as molduras nacionais, e com motivações não muito distintas das que
levaram Henri Pirenne a escrever a sua História
Européia (PIRENNE, 1981), Marc Bloch estava bastante interessado por volta
dos anos 1930 em levar adiante um programa que cuidasse de elaborar uma
história comparada das sociedades européias – um programa que, se realizado, permitiria
ao historiador um acesso efetivo às causas fundamentais que estavam na base das
semelhanças e diferenças entre as diversas sociedades européias.
Com
esta modalidade de estudos que já havia sido tão bem exemplificada com a
instigante comparação entre as sociedades medievais inglesa e francesa a partir
da obra Os Reis Taumaturgos (BLOCH,
1993) - um livro que já havia sido escrito em 1924 - o intuito de Bloch era também o de liberar o historiador das fronteiras
artificiais que até então vinham sendo delimitadas pelas clausuras nacionais e
governamentais da velha história política no século XIX. Comparar, também aqui,
era ver de uma nova maneira, ultrapassar condicionamentos que haviam sido
impostos aos historiadores por mais de um século através de um paradigma
historiográfico que se ancorava na moldura político-estatal monocentrada.
Sobretudo, comparar era estabelecer uma comunicação possível entre as várias
histórias nacionais que até então pareciam fundar-se no isolamento, e, neste
mesmo sentido, comparar trazia uma verdadeira esperança de comunicação entre os
povos:
A história comparada, tornada mais fácil de se conhecer e
de se utilizar, animará com seu espírito os estudos locais, sem os quais ela
nada pode, mas que, sem ela, a nada chegariam. Numa palavra, deixemos, por
favor, de falar eternamente de história nacional para história nacional, sem
nos compreendermos
(BLOCH, 1928: 40).
Em
1928, no Congresso Internacional de Historiadores de Oslo, Marc Bloch
desenvolveria uma conferência – logo transformada em artigo – que objetivava
refletir precisamente sobre as potencialidades do estudo comparado na História.
No ano seguinte seria publicada a sua primeira realização neste sentido: a obra
Os Reis Taumaturgos (1929). Será mais
do que oportuno retomarmos as reflexões de Marc Bloch sobre o comparativismo
histórico, pronunciadas no Congresso de Oslo.
Em
primeiro lugar, Marc Bloch procura fixar os requisitos fundamentais sobre os
quais poderia ser constituída uma História Comparada que realmente fizesse
sentido. Sua conclusão é a de que dois aspectos irredutíveis seriam
imprescindíveis: de um lado uma certa similaridade dos fatos, de outro, certas
dessemelhanças nos ambientes em que esta similaridade ocorria. A semelhança e a
diferença, conforme se vê, estabelecem aqui um jogo perfeitamente dinâmico e
vivo: sem analogias, e sem diferenças, não e possível se falar em uma autêntica
História Comparada.
De
igual maneira, Bloch visualizou dois grandes caminhos que poderiam ser
percorridos pelos historiadores dispostos a lançar mão do comparativismo na
História. Seria possível comparar sociedades distantes no tempo e no espaço,
ou, ao contrário, sociedades com certa contigüidade espacial e temporal. No
caso da comparação de sociedades distanciadas no espaço e no tempo tinha-se uma
situação singular: a ausência de interinfluências entre as duas sociedades
examinadas. Neste caso, o trabalho consistiria basicamente na busca de
analogias – situação para a qual poderemos exemplificar com a possibilidade de
estabelecer uma comparação entre o que se poderia chamar de “feudalismo
europeu” e o que poderia ser denominado “feudalismo japonês”, duas realidades
afastadas no espaço, em uma época em que não poderiam transmitir influências
uma à outra[3]. Entre os
riscos típicos deste caminho representado pela possibilidade de comparação
entre sociedades não-contíguas estão naturalmente o da falsa analogia e do
“anacronismo” – transplantes de um modelo válido para uma época ou
espacialidade social para um outro contexto histórico onde o modelo não tenha
sentido real, correspondendo apenas a uma ficção estabelecida pelo próprio
historiador.
Quando
nos referimos a “sociedades contíguas”, teremos em vista que o próprio conceito
de contigüidade muda de uma época em relação à outra. Na época da
mundialização, e mais ainda, no período da globalização, duas sociedades
afastadas espacialmente têm possibilidades imediatas de inter-influência, não
correspondendo à situação estanque que se tinha nos períodos em que a
comunicação era menos imediata. De igual maneira, cabe salientar que a
comparação não precisa ser necessariamente entre realidades nacionais
distintas, podendo corresponder também a ambientes sociais distintos, que se
pretenda comparar.
Posto
isso, consideraremos o segundo grande caminho apontado por Marc Bloch para uso
da comparação histórica – na verdade aquele que ele mesmo preconizava como
preferível. Trata-se aqui de comparar sociedades próximas no tempo e no espaço,
que exerçam influências recíprocas. A vantagem de comparar sociedades contíguas
está precisamente em abrir a percepção do historiador para as influências
mútuas, o que também o coloca em posição favorável para questionar falsas
causas locais e esclarecer, por iluminação recíproca, as verdadeiras causas,
interrelações ou motivações internas de um fenômeno e as causas ou fatores
externos. Será importante ainda salientar que, para empreender este caminho da
História Comparada que atua sob realidades históricas contíguas – por exemplo,
duas realidades nacionais sincrônicas (ou então uma mesma realidade nacional em
duas fases temporais em imediata sucessão) – o historiador deve estar apto a
identificar não apenas as semelhanças como também as diferenças. O exemplo mais
concreto que Marc Bloch pôde oferecer desta abordagem, já aplicada a uma
investigação histórica específica, foi a sua primorosa obra Os Reis Taumaturgos. Ao mesmo tempo, o
artigo teórico elaborado pelo historiador francês tornou-se uma espécie de
pedra fundamental da História Comparada, no qual já veremos claramente os
caminhos privilegiados por Marc Bloch no interior desta modalidade
historiográfica em formação:
Estudar paralelamente sociedades vizinhas e
contemporâneas, constantemente influenciadas umas pelas outras, sujeitas em seu
desenvolvimento, devido a sua proximidade e a sua sincronização, à ação das
mesmas grandes causas, e remontando, ao menos parcialmente, a uma origem comum (BLOCH, 1928: 19)
O
que se realiza em Os Reis Taumaturgos
senão este modelo? Teremos aqui duas sociedades medievais vizinhas – a francesa
e a inglesa – ambas com um imaginário em comum e com repertórios de
representações similares, que serão investigados pelo historiador à luz de um
mesmo problema comum que os atravessa: o da crença popular no poder taumatúrgico
de seus reis. As duas sociedades se inter-influenciam; as duas cortes que se
beneficiam das representações taumatúrgicas – a capetíngia na França e a
plantageneta na Inglaterra – rivalizam uma com a outra, movimentam-se, mesmo,
no contexto desta iluminação e rivalidade recíprocas. O material histórico
adequa-se, portanto, ao caminho proposto pelo modelo preconizado por Bloch:
duas sociedades sincrônicas que guardam entre si relações interativas, e que
juntas oferecem uma visão clara de um problema comum que as atravessa. Sem uma
ou outra, no mero âmbito de uma história nacional, não poderia ser compreendida
a questão da apropriação política do imaginário taumatúrgico que se desenvolve
nas monarquias européias, das origens em comum deste mesmo imaginário, das
intertextualidades que se estabelecem, do confronto do modelo taumatúrgico com
outros modelos de realeza. A História Comparada das realezas francesa e inglesa
através do imaginário taumatúrgico contribui, a seu modo, para dar a compreender
a Europa, atendendo a um projeto mais ambicioso que reage contra o
aprisionamento do historiador seja no particularismo local, seja nos modelos
inflexíveis da história política nacional que grassava quase que exclusivamente
na historiografia européia do século XIX.
Tal
foi a contribuição de Marc Bloch para os desenvolvimentos da História Comparada
como campo intradisciplinar: dois textos teóricos que anunciam, com uma
proposta séria de sistematização, a nova modalidade, e uma obra prima que a
concretiza. A partir daqui os historiadores teriam, entre outras tantas vias
que começavam a se abrir face à contestação da antiga História Política
Nacional, um caminho inovador que não tardaria a ser explorado de maneiras
diversificadas. Não será nosso objetivo, neste momento, construir um panorama
das diversas contribuições práticas e teóricas à História Comparada desde estes
momentos pioneiros em que Marc Bloch a delineia. Nossa atenção, a seguir,
concentrar-se-á em certos problemas e questões metodológicas que estão na base
da constituição deste novo campo historiográfico.
3.
Caminhos do Comparativismo
Embora,
tal como se disse, Comparativismo Histórico e História Comparada não sejam
certamente a mesma coisa, e o primeiro possa existir sem a segunda, não há
dúvidas de que, postos diante um do outro, tem-se aqui uma clara afinidade
entre o comparativismo como método historiográfico e a História Comparada como
uma modalidade da história que estabelece um duplo ou múltiplo campo de
observação. Pode-se até dizer que, uma vez que os procedimentos comparativos
são tão fundamentais e viscerais para a história, cedo ou tarde, na história da
historiografia, haveria de surgir uma modalidade como a História Comparada, que
faz da analogia, do contraste, da ultrapassagem do recorte espaço-temporal
tradicionalmente unicentrado, o campo eleito de suas abordagens.
O
comparativismo, através da analogia,
surge mesmo como necessidade em alguns casos. Paul Veyne
(1978: 85) costumava lembrar que por vezes o recurso à analogia é a única
maneira disponível para suprir algumas lacunas de documentação. Postular uma
analogia entre duas sociedades ou fenômenos que revelam alguns traços comuns ou
tendências similares é como levantar uma hipótese de trabalho, que pode ou não
ser confirmada, mas que de todo o modo ajuda o historiador a se colocar em
movimento diante dos enigmáticos caminhos que lhe oferece esse idioma
estrangeiro que é o outro tempo. A comparação, aqui, é bastante oportuna: o
historiador opera como o lingüista diante do idioma desconhecido. Sabe que cada
nova língua representa, a seu modo, uma nova visão de mundo; mas também sabe
que as línguas, por mais remotas que sejam, acham-se de uma maneira ou de outra
situadas em uma complexa rede que fundamentalmente não deixa de ser um grande
emaranhado de um fio só, uma vez que todas apontam para uma única origem da
humanidade. Em sociedade, e submetido a circunstâncias em permanente mutação, o
homem diversifica-se, recria a si mesmo e ao mundo; mas nesta diversificação
ele não perde a sua humanidade fundamental, e tampouco deixa de estar sujeito
ao enfrentamento de determinados limites e problemas fundamentais como a morte,
a sobrevivência, o crescimento da espécie, o conflito diante do outro, a
comunicação, a sexualidade, a sujeição e o exercício do poder. Ao nível mais
irredutível, todas as sociedades humanas apresentam alguns traços passíveis de
serem submetidos à comparação, seja no sentido de encontrar elementos em comum
ou de contrastá-los. A questão para o historiador, contudo, é perceber o ponto
em que uma comparação torna-se realmente útil para o trabalho e objetivos
historiográficos: buscar analogias e contrastes, cedo perceberam os
historiadores modernos, pode tanto revelar como ocultar aspectos que aproximam
ou distinguem as sociedades e os processos sociais uns dos outros.
A
analogia mostra-se aqui uma faca de dois gumes: se por um lado pode levar o
historiador ao erro do anacronismo nos casos em que este se vê tentado a
comparar o incomparável, por outro lado, sem ela não vive o fazer historiográfico.
Sem a analogia como uma possibilidade em seu horizonte, o historiador estaria
diante, a cada instante, de um mundo assustadoramente novo. Seria mesmo de se
perguntar se isto seria possível. Se o historiador necessariamente trabalha com
fontes, com textos – sejam estes textos verbais ou outros tipos de discurso –
isso o obriga indelevelmente à comparação, pois na verdade sempre que lemos um
texto já estamos, mesmo que nem sempre de maneira consciente, situando-o em
intertextualidade com outro texto. Ao lermos um texto comparamo-lo com outro,
nem que seja para espelhá-lo.
Outra
operação intrínseca ao trabalho dos mais antigos historiadores, e que não
poderia deixar de interferir nos caminhos da História Comparada, é a escolha da
escala de observação. Escolher a escala é definir os limites do trabalho
comparativo, as condições onde ele poderá operar e com que tipo de restrições:
o homem como micro-cosmo, a família, a vizinhança, o local, o regional, o
nacional, a civilização, a rede de relações internacionalizadas ou
mundializadas.
Quando
a História Comparada começou a se delinear como um campo de possibilidades, uma
das primeiras questões que se impuseram foi precisamente a desta necessidade de
escolha de uma escala de observação. Marc Bloch, desencantado com os modelos
fechados na história nacional, que haviam sido produzidos pela historiografia
de um mundo que conduzira aos horrores da Guerra Mundial, propunha a comparação
entre duas ou mais sociedades nacionais. Queria talvez encontrar uma humanidade
comum entre estas sociedades, entre a França e a Inglaterra, entre os medos e
esperanças que tanto ingleses como franceses depositavam nos seus reis
taumaturgos. Toynbee, com um olhar voltado para uma maior abrangência, ampliou
a escala, almejava comparar civilizações. Nos anos 1950, surgem os trabalhos
historiográficos de História Local comparada. Bem mais tarde, já bem adentrada
a segunda metade do século XX, viria uma surpreendente guinada: os
micro-historiadores propunham-se se ater à escala do cotidiano, de uma
vizinhança, de uma pequena e singular vida em movimento através de uma rede de
sociabilidades. Estas vidas e pequenos sistemas de sociabilidade também podem
ser comparados, e é neste sentido que se poderia igualmente falar de uma
“micro-história comparada”.
A
opção pela História Comparada adequa-se a qualquer destes níveis de observação.
A escolha da escala, de primordial importância, define de antemão o que poderá
ser visto e o que inevitavelmente ficará oculto. Comparar macro-realidades ou
comparar micro-realidades é legítimo em cada caso: e entre estas operações
guardar-se-á o mesmo tipo de distinção que emerge da escolha entre comparar
estrelas e comparar átomos.
4. História Comparada entre espaço-tempos
distanciados
De modo geral, com relação aos estudos que confrontam historicamente
sociedades distintas, desde meados do século tem predominado nos estudos de
História Comparada o modelo sugerido por Marc Bloch em seu artigo de 1928, no
qual se sugere como caminho preferível a análise de sociedades contíguas no
espaço e no tempo, tanto por serem unidades mais “comparáveis” no sentido de
possuírem pontos em comum, como no sentido de que estas sociedades contíguas
estão geralmente em processo de interação. Contudo, a História Comparada
contempla a possibilidade de comparação entre sociedades distanciadas no espaço
e no tempo.
Robert Darnton, em uma entrevista concedida em 1996 (PALLARES-BURKE, 2000),
discute uma pesquisa que estava realizando com base na confrontação do fenômeno
da Censura em três sociedades bem distintas: a França do Antigo Regime, a Índia
britânica do século XIX, e a Alemanha Oriental do século XX. A sua pretensão
não era encontrar similitudes muito diretas entre as três situações, pois, como
assinala Darnton, cada cultura tem o seu próprio dialeto e especificidades. Sua
intenção foi examinar duas questões específicas, verificando como elas se
apresentam em cada uma destas realidades; como os censores realizaram o seu
trabalho em cada uma destas sociedades, e como eles entenderam o que estavam
fazendo. As conclusões apontam no sentido do delineamento de diferenças: na
França do século XVIII, os censores tinham uma visão de seu ofício em que
acreditavam estar administrando o selo de aprovação régia. Na Índia britânica
do século XIX, os censores acreditavam que estavam ajudando a estabelecer uma
variação liberal do imperialismo. Na Alemanha Oriental do século XX, acreditavam
que estavam envolvidos em um processo de Engenharia Social. O mesmo fenômeno –
a Censura – atravessa três realidades histórico-sociais com resultados bem
diferentes, produzindo inclusive formas de consciência diferenciadas dos atores
sociais que os vivenciaram (PALLARES-BURKE, 2000).
O
exemplo é esclarecedor. Na mesma entrevista, Darnton dá-nos um outro exemplo de
História Comparada ao digredir sobre como a percepção de um determinado
acontecimento ou processo histórico pode contribuir para transformar a análise
de outro. O exemplo dado são os acontecimentos que conduziram à derrubada do
Muro de Berlim, em 1989. A sua vivência destes acontecimentos teriam
contribuído para transformar radicalmente a sua visão da queda do Antigo
Regime.
Conforme
observa Darnton, após os acontecimentos de 1989 o Império Soviético, antes
produtor de uma imagem de forte estabilidade, parecia impressionar
retroativamente por sua clara instabilidade. Por outro lado, estes
acontecimentos também contribuíram para modificar a sua visão de outro
processo, bem mais afastado no tempo. Ao vivenciar os acontecimentos de 1989
como homem de seu tempo, Darnton assevera ter se impressionado com três
aspectos: a força do imprevisto, a capacidade da má-gerência humana precipitar
os acontecimentos, e o peso extremamente relevante da opinião pública. A
percepção destes fatores em um processo contemporâneo teria levado o
historiador americano a reavaliar sua análise dos acontecimentos
pré-revolucionários de 1787 e 1788, uma vez que passou a enxergar ali fatores
semelhantes. Um acontecimento, enfim, contribui para iluminar o outro. Quer
concordemos ou não com a análise específica realizada por Darnton sobre a mútua
comparação entre a ‘Queda do Muro de Berlim’ e a ‘Queda do Antigo Regime’,
temos aqui o típico insight de história comparada. Menos sistemático como
queria Bloch, e carregado de uma forte dose de intuição – mas, enfim, um
mergulho instantâneo na História Comparada entre dois acontecimentos distantes
no espaço e no tempo.
5. Delineamentos
Finais: a História Comparada em sua especificidade
Será oportuno aproveitar as questões até aqui discutidas
para estabelecer um delineamento final acerca do que poderá ser legitimamente localizado
sob a rubrica de uma ‘História Comparada’ – tanto por oposição ao simples
“comparativismo histórico”, como também por oposição às sínteses globais de
história que examinam as várias realidades nacionais como blocos em
superposição. Com relação a este último aspecto, convém acompanhar a ponderação
de Heinz-Gerhard Haupt (1998: 110-111), que nos alerta para o fato de que não constituem
História Comparada as grandes sínteses internacionais que tem por temática algo
como a História Econômica e Social do
Mundo, ou mesmo a história das relações entre países[5].
De igual maneira, uma História das Civilizações que simplesmente forneça um
grande panorama descritivo de diversas civilizações históricas não estará sendo
produzida sob o signo da História Comparada, a não ser que haja uma interação
entre as observações que se acham relacionadas aos vários focos de análise. A
busca de analogias e diferenças, neste caso, será obviamente imprescindível
para que não se tenha um mero quebra-cabeças civilizacional. A História
Comparada, enfim, não se pode reduzir à mera coletânea de histórias nacionais
ou de histórias de civilizações. Ela faz-se de interações, de iluminações
recíprocas, e não de meras superposições.
De fato, acrescentaremos aqui, um bom trabalho de ‘História
Comparada’ mostra-se freqüentemente atravessado por um problema: este pode
corresponder desde à representação taumatúrgica em duas realezas nacionais
distintas, tal como propôs Marc Bloch com Os
Reis Taumaturgos, como à transformação histórica do fenômeno urbano, tal como
propôs Max Weber com sua obra sobre A
Cidade (1966). Não se trata, obviamente, de superpor realidades nacionais
ou regionais distintas para montar um quebra-cabeças a partir de manobras de superposição,
ou de simplesmente historiar uma relação entre dois países. A História
Comparada consiste, grosso modo, na possibilidade de se examinar
sistematicamente como um mesmo problema atravessa duas ou mais realidades
histórico-sociais distintas, duas estruturas situadas no espaço e no tempo,
dois repertórios de representações, duas práticas sociais, duas histórias de
vida, duas mentalidades, e assim por diante. Faz-se por mútua iluminação de
dois focos distintos de luz, e não por mera superposição de peças.
Da mesma forma que a História Comparada apresenta como
traço fundamental a análise interativa entre dois recortes, já não precisaremos
mais insistir no fato de que a ampla utilização do método comparativo emerge
aqui como um segundo traço fundamental e distintivo. Contudo, já ressaltamos
que se o ‘método comparativo’ é necessário ou mesmo imprescindível à ‘História
Comparada’, não será certamente ‘suficiente’ para defini-la em toda a sua
integridade, uma vez que este mesmo método comparativo também pode ser
empregado por outras modalidades historiográficas, inclusive nos trabalhos
monocentrados que utilizam a comparação apenas para melhor delinear um objeto
único de análise. Por fim, será preciso lembrar que o comparativismo, mesmo que
envolvendo recortes historiográficos distintos, pode corresponder apenas a um
momento de determinada análise historiográfica – àquele capítulo inicial ou
terminal de uma tese problematizada em que o autor aproveita para situar seu
objeto diante de outros análogos ou contrastantes – mas isto sem que
necessariamente o trabalho como um todo deva ser adequadamente inserido dentro
da rubrica da História Comparada, já que nesta o comparativismo deve
corresponder a uma marca indelével que atravessa a obra como um todo.
Com
relação aos riscos e armadilhas a evitar no âmbito da História Comparada, estes
são, como vimos, os mais diversos. Para realidades histórico-sociais afastadas
no tempo há a célebre questão do ‘anacronismo’ – isto é, o transporte de um
elemento típico de uma sociedade historicamente localizada para uma outra em
que o elemento não se enquadre. Outro risco freqüente está na ‘leitura
forçada’, isto é, na insistência em ajustar todas as realidades examinadas a um
determinado modelo que já se encontrava definido previamente, ou então na
eleição indevida de um caso como paradigma para avaliar por aproximação ou
afastamento em relação a ele todos os demais.
Por
vezes, ronda ainda a História Comparada aquilo que poderemos chamar de “ilusão
sincrônica”. A idéia de que todas as sociedades são comparáveis se quando se encontram
em estágios similares de desenvolvimento, uma tentação à qual nem todos
resistem, deve ser confrontada com a simples consciência de que determinada
sociedade pode estar em situação análoga a outra mas estar vindo de uma
situação completamente distinta (ou seja, possuir uma história anterior bem
diferente) e indo para situações também diferenciadas no futuro. Enfim, a
“ilusão sincrônica”, cedendo à tentação de comparar sociedades como se fossem
unidades estáticas imobilizadas no tempo, esquece-se de considerar que na
verdade cada sociedade tem seu dinamismo próprio, inerente a um processo de
transformações que se estabelece em uma diacronia (no decurso de uma
temporalidade). A comparação de dois pontos – meramente motivada pela
similitude momentânea – pode levar o historiador a comparar inadequadamente
processos incomparáveis.
Um
‘Duplo ou Múltiplo Campo de Observação’ – ou um âmbito multifocal de análise,
por assim dizer – eis aqui a condição primeira, conforme pudemos examinar desde
o princípio deste ensaio, para que se possa falar legitimamente de uma
modalidade definível como ‘História Comparada’ e não apenas de uma prática
historiográfica que utiliza ‘metodologias comparativas’. Estas, naturalmente,
também são características da modalidade, embora não suficientes para defini-las,
e via de regra baseiam-se na percepção de diferenças e semelhanças, na produção
de analogias, na identificação de traços de singularidade, na elaboração de
tipologias, na construção de modelos de aproximação, na sujeição dos casos em
estudo a uma avaliação de comportamento diante de variáveis fixas, e assim por
diante.
Vimos
ainda que os trabalhos de História Comparada submetem-se habitualmente a uma
certa escala de inscrição. No
contexto de formação deste campo intradisciplinar da História, esta escala costumava ser de maior amplitude: ou ao nível das nações – mais frequente – ou ao
nível das civilizações, tal como propuseram Spengler (1920) e Toynbee
(1934-1961). Contudo, gradualmente a História Comparada foi assimilando novos
objetos e inscrevendo-se em outras possibilidades de escalas. A ‘região’, que
muitos vinham tratando de forma isolada ou quando muito relacionada à sua
inserção em um contexto nacional mais amplo, passou a certa altura a admitir um
trabalho comparativo que confrontava várias regiões distintas – inseridas em um
mesmo contexto nacional ou não. Ambientes ainda menores – vizinhanças, grupos
sociais ou étnicos, unidades de trabalho – ou realidades difusas que não se
concretizavam necessariamente em espacialidades definidas, como as práticas
culturais por exemplo, também se abriram como possibilidades para os estudos de
História Comparada. As realidades literárias, virtuais ou imaginárias, as
mentalidades e os circuitos de representações, também a estes focos se
adaptaram as escalas possíveis de serem utilizadas na História Comparada. As
vidas humanas individuais, confrontadas em análises paralelas, reeditaram a
antiqüíssima proposta de Plutarco com suas "Vidas Paralelas". E, por fim, a própria escolha de um problema
histórico muito específico a ser examinado nos permitira falar em uma ‘escala
problematizadora’, que já não é definida por espacialidades reais ou
imaginárias, nem pela unidade de uma vida ou grupo social, e sim pela força e
complexidade de uma problematização específica. Diante de todas estas novas
escalas, embora a História Comparada não tenha conquistado uma grande
quantidade de realizações em relação a outras modalidades da História,
certamente ela se diversificou.
Uma
‘perspectiva’, já o vimos, tem a ver com os objetivos ou as intenções do historiador:
generalizar a partir dos casos que examina; inseri-los todos em um sistema
globalizador que lhes dê sentido; ou, ao contrário, buscar com o trabalho
comparativo a ‘individualização’ e a ‘diferenciação’, onde cada caso examinado
conquista a sua singularidade através da construção do historiador. Estas e
outras mais perspectivas, relacionadas simultaneamente com modos de trabalho e
concepções da realidade histórica, surgem no repertório de possibilidades da
História Comparada.
Relacionados
por vezes a visões de mundo ou a concepções historiográficas específicas – como
a ‘História Comparada das Civilizações’, a ‘História Total Comparada’, a
‘História Comparada problematizadora’ – também os gêneros de História Comparada
foram surgindo no decorrer de seus desenvolvimento como campo intradisciplinar,
criando ou reeditando domínios históricos como a Biografia Comparada, a
Historiografia Comparada, a Crítica Comparada da Literatura histórica. Todos ou
alguns destes sub-gêneros, enfim, conforme o que se tenha em vista seja um
estudo da cultura, do poder, da população, da economia, terminam por se
inscrever em conexões diversificadas da História Comparada com outras
modalidades historiográficas – uma articulação intradisciplinar que não permite
que este ou aquele trabalho historiográfico se situe senão em um campo de
forças no qual a História Comparada deposita a sua energia e a sua
especificidade.
Eis
aqui, enfim, um campo historiográfico complexo, à disposição dos historiadores. Resta lembrar que, depois da História Comparada, surgiram outras modalidades historiográficas "relacionais" - isto é, envolvendo um trabalho que relaciona dois ou mais campos de observação. 'A História Cruzada', as 'Histórias Interconectadas', a 'História Transnacional' e a 'História Global' são alguns destes novos campos - surgidos após a década de 1950 - que se juntaram à História Comparada no empenho historiográfico de confrontar a História Regional no que concerne à sua quase exclusividade dos recortes nacionais ou regionais-administrativos. Estas modalidades de 'histórias relacionais' mais modernas, contudo, merecem um novo artigo futuramente.
Leia este artigo em sua versão completa em História Comparada - das contribuições de Marc Bloch à constituição de um moderno campo historiográfico (BARROS, José D'Assunção. Revista História Social, vol 13, p.7-21, 2007),
Para aprofundar a compreensão não apenas da História Comparada, mas também de outras modalidades historiográficas relacionais mais recentes - tais como a História Cruzada, as Histórias Interconectadas, História Global, História Transnacional, entre outras - leia o livro História Comparada (BARROS, José D'Assunção. História Comparada. Petrópolis: Editora Vozes, 2014).
NOTAS:
[1]
Conforme já vimos em outros momentos, considera-se, aqui, que algumas das modalidades históricas em que hoje se
organiza o campo da História relacionam-se, mais especificamente, às dimensões trazidas a primeiro plano (a
História Política, a Histórica Cultural, a História Econômica, e assim por
diante), aos inúmeros domínios temáticos
(a História da Mulher, a História Rural, a História Urbana, a História do
Direito, e tantos outros), e às abordagens,
que são concernentes aos modos de fazer a História e a questões metodológicas.
A História Comparada relaciona-se francamente a este último critério, e a
partir de suas práticas estabelece suas conexões com outros campos históricos.
[2] Referindo-se a um outro âmbito de questões, também
Kula ressalta a idéia de que nenhum trabalho científico, por limitado e
monográfico que seja, pode dispensar totalmente o método comparativo, o que
inclui a História (KULA, 1973: 571).
[3] Um exemplo de História Comparada elaborada nestas
bases está na pesquisa de Robert Darnton sobre a Censura, que o historiador
americano examina em três espaço-tempos bem diversificados: A França do Antigo
Regime, a Índia britânica do século XIX, e a Alemanha Oriental do século XX.
cf. “Entrevista com Robert Darnton” (PALLARES-BURKE, 2000).
[4] De maneira inversa, várias etnias que se deslocam a
uma mesma sociedade receptora se iluminam em suas especificidades.
[5] O exemplo dado por Haupt
é a Histoire économique et sociale du
monde, de Pierre LEÓN (19777). Poderíamos
citar ainda outros exemplos, como a História
Econômica Mundial de Fréderic Mauro (1973).
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