Introdução: as fontes textuais como subcategorias das 'fontes de conteúdo'
Em sequência ao último texto postado neste blog, vamos discutir a seguir a singularidade das chamadas 'fontes textuais' - as fontes verbais realizadas sob a forma escrita - e também abordar introdutoriamente a imensa variedade deste grande conjunto de fontes que se multidiversifica nos mais diversos gêneros textuais.
Na taxonomia que propusemos no livro Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos, as 'fontes textuais', constituem uma das várias categorias das 'fontes de conteúdo', ao lado de outras modalidades como as 'fontes sonoras', as 'fontes iconográficas', ou mesmo as fontes orais - que são fontes também verbais, mas já encaminhadas apenas através da fala, e não da escrita. Conforme vimos no último texto, as 'fontes de conteúdo' são aquelas que importam principalmente pela mensagem ou conteúdo que transmitem, embora frequentemente elas venham associadas a um suporte material (o papel onde um texto está escrito, o quadro onde uma pintura foi realizada, o cd que traz o registro de uma música, ou o dvd que tra o registro de um filme).
De fato, quando lemos um livro, e particularmente quando o abordamos como fonte histórica, não importa tanto se ele está em uma moderna edição impressa, em uma versão digitalizada que obtivemos da Internet, ou no manuscrito antigo no qual o autor registrou pela primeira vez o seu conteúdo. Pensem em uma tese de História que tomasse como sua principal fonte histórica o livro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. O que estaria em análise, neste caso, seria o texto que foi escrito por este autor espanhol. Dificilmente uma tese será sobre o manuscrito original, na sua materialidade física, com o qual Miguel de Cervantes apresentou o seu texto para o seu primeiro editor, ou para o rei da Espanha autorizar a sua prensagem, pois isto era exigido na época. Embora não seja impossível que alguém tenha escrito uma tese de história sobre o primeiro Manuscrito do Dom Quixote de La Mancha (e é até possível que alguém já tenha escrito esta tese), a maior parte das milhares de teses que existem sobre o livro Dom Quixote de La Mancha versa sobre o seu conteúdo (sobre o seu texto).
É essa importância central do conteúdo, e sua maior importância do que o suporte que o veicula, o que faz de um livro, ou de qualquer outra fonte textual, uma dos vários tipos de 'fontes de conteúdo'. O que dissemos para a fonte textual 'livro', aliás, vale para qualquer outro tipo de fonte de conteúdo. Assim, se analisamos como fonte histórica uma música, podemos dizer o mesmo: o que estará em análise é a música propriamente dita (o conteúdo) e não a materialidade do cd que a veicula. Essa situação, obviamente, faz as 'fontes de conteúdo' contrastarem com as 'fontes materiais', que interessam à análise historiográfica precisamente pela sua materialidade (se estivermos analisando uma peça de roupa como fonte histórica, o que interessa é precisamente essa peça de roupa em toda a sua realização material - e, pode-se mesmo dizer, neste caso (como no de todas as fontes materiais), a materialidade e o conteúdo são a mesma coisa.
Se há vários tipos de 'fontes de conteúdo', a subcategoria das 'fontes textuais' é particularmente numerosa, como veremos na sequência deste texto. Um texto pode ser escrito sob a forma de versos (poesia), sob a forma de uma carta, de uma notícia jornalística, de uma lei ou de uma certidão de nascimento - apenas para dar quatro exemplos aleatórios, pois poderíamos continuar indefinidamente mostrando a enorme variedade de diferentes tipos de textos. Vamos chamar a estes diferentes tipos de textos de 'gêneros textuais', e oportunamente refletiremos sobre eles.
As fontes textuais no quadro da
diversidade documental
A ‘fonte textual’ tem dominado
amplamente o universo historiográfico, ainda que tenha crescido muito o
trabalho dos historiadores com fontes iconográficas e fontes sonoras (isto é, com
aquelas que atrás categorizamos como ‘fontes de conteúdo’ não-verbais), e que
haja também muito trabalho significativo sobre as fontes da cultura material
(as ‘fontes materiais’ propriamente ditas)[1]. De igual maneira, a Etno-História tem trabalhado amplamente
com as ‘fontes imateriais’ ao estudar os rituais, formas de sociabilidade,
patrimônios imateriais, tradições, e assim por diante. Por fim, lembraremos
também que, além da fonte textual, há também outro tipo de ‘fonte verbal’ que
tem crescido bastante no que se refere à sua utilização historiográfica: a ‘fonte
oral’. Esta, como já se disse, é constituída por depoimentos provocados pelo
próprio historiador ao entrevistar, com as técnicas apropriadas, sujeitos
históricos que vivenciaram determinados processos históricos.
Isto posto, ainda que reconhecendo a vasta
ampliação documental para todas estas direções possíveis – imagens,
sonoridades, fontes audiovisuais, patrimônio imaterial e história oral – a verdade
é que a fonte textual tem ocupado um lugar proeminente em nossa historiografia.
Vamos então avançar por dentro de algumas subcategorias e critérios que nos
permitirão compreendê-las melhor as chamadas ‘fontes textuais’ começando por esboçar um conceito mais preciso que esclareça em que se constitui este tipo de fonte histórica.
Fontes textuais são as fontes verbais produzidas através da escrita (pois, como já foi dito, também podemos considerar as fontes verbais produzidas através da oralidade). A transformação da mensagem ou conteúdo verbal em texto escrito pode dar, primariamente, através de duas modalidades ou formas principais de registro: o manuscrito e o impresso. Desta maneira, pode ser igualmente útil pensar as fontes textuais em termos de seus desdobramentos como “fontes manuscritas” e “fontes impressas”, especialmente porque cada uma destas formas de registro traz suas especificidades, problemas e desafios a serem considerados.
Atualmente, um novo modelo de registro se juntou ao manuscrito e ao impresso quando pensamos nas fontes textuais. Refiro-me ao registro digital, e à sua contrapartida virtual. Nos dias de hoje, um texto não precisa ser manuscrito ou impresso em uma folha de papel, tal como ocorria amplamente antes das últimas décadas do século XX. Um texto pode ser simplesmente digitalizado e disponibilizado na rede mundial de computadores, da mesma forma que também pode ser gravado em mídias como os pen-drives, CDs, DVDs, HD externos e outras formas de armazenamento da informação. De todo modo, é fácil passar ou retornar destes registros digitais ao documento impresso, bastando para tal imprimir o documento digitalizado, se isto for mais adequado. Além disto, é possível registrar através de recursos digitais (CDs, DVDs e outras mídias) ou de recursos virtuais (Internet), as fontes verbais oralizadas que foram vertidas em gravações. Por ora, contudo, vamos nos concentrar nas fontes manuscritas e nas fontes impressas propriamente ditas.
Lidar com fontes manuscritas ou fontes
impressas implica ou demanda habilidades e conhecimentos distintos do
historiador que se vale de um ou outro destes tipos de documentação. As fontes
manuscritas, por exemplo, escritas a mão com tipos de letras diversificados
para as várias sociedades e épocas – sem mencionar a própria singularidade grafológica
de cada indivíduo que escreve um texto à mão – implicam frequentemente a necessidade
de algum conhecimento de paleografia daqueles que delas se aproximam para fins
historiográficos. É também preciso que o historiador que trabalha com
documentação manuscrita adquira uma habilidade maior de ler o manuscrito com
rapidez e eficiência, o que se adquire apenas com a prática e o hábito.
Para aquém do limiar histórico da
invenção da imprensa[2], penetramos no laborioso mundo dos originais
manuscritos que, quando convinha ou interessava, podiam ser recopiados à mão. Na
Idade Média cristã, o papel dos scriptoria
dos mosteiros medievais para a produção de cópias manuscritas foi inestimável,
e não apenas visando obras religiosas e teológicas, mas também genealogias,
crônicas régias, obras filosóficas e mesmo literatura profana. Além disso, a
documentação pública também podia ser objeto de copiagem ou reprodução
manuscrita, mesmo para além do limiar inicial da invenção da imprensa. Por
exemplo, as ‘chancelarias régias’ portuguesas – designação que se refere tanto
à repartição medieval encarregada da redação e expedição dos atos lavrados pelo
poder régio, como à própria documentação por ela produzida – mereceram
recopiagem dos documentos mais importantes para novos livros entre 1460 e 1480.
Os copistas e escrivães eram preparados para copiar fidedignamente os
documentos de origem, mas erros involuntários poderiam ocorrer, e seleções
voluntárias do que copiar podiam também se dar. Os historiadores que se acercam
da documentação manuscrita, neste sentido, precisam ter uma exata noção acerca
da posição da fonte em relação à matriz original[3].
Trânsitos
entre o manuscrito e o impresso
Temos
que considerar também as possibilidades de trânsito entre o manuscrito e o
impresso, e vice-versa. É oportuno lembrar que a ‘fonte impressa’, em diversas
ocasiões, pode corresponder a uma ‘fonte manuscrita’ – localizada em algum
arquivo ou biblioteca sob a forma de um documento único – para a qual se fez
uma versão impressa, não raro se procedendo a uma edição da mesma com vistas a
colocá-la em um mercado livreiro ou a possibilitar o seu acesso não apenas a
historiadores e pesquisadores de arquivo, mas a todo o tipo de interessados.
A
fonte impressa, portanto, oculta muitas vezes uma matriz manuscrita ou uma
primeira matriz também impressa. Isto significa que a sua reprodução, fazendo-a
passar para um novo “suporte”, atravessa todo um processo gráfico intermediário
que muitas vezes tem de ser compreendido por análises paleográficas (para o
caso de documentação de períodos mais remotos) e por eventuais traduções e
tratamentos especializados ao nível dos saberes linguísticos. Ou seja, entre o
historiador e seu documento primitivo interpõe-se, neste caso, uma série de
eventos intermediários para os quais deve estar atento. Posto isso, não há
qualquer empecilho em se realizar uma pesquisa histórica a partir de fontes
impressas referentes a manuscritos ou versões textuais impressas anteriores,
contanto que nos asseguremos da idoneidade de sua produção no sentido de evitar
distorções em relação ao original.
Além
disso, o historiador sempre precisa conservar uma compreensão muito clara sobre
o que pertence ao “documento primitivo” e o que pertence já ao novo “suporte”.
Um texto traz por vezes, imbricadas ao documento impresso, certas estratégias
ou práticas editoriais – como prefácios, advertências, glosas, notas – que
rigorosamente são interpolações a serem filtradas pelo olhar do historiador.
Conforme observa Roger Chartier:
“é necessário recordar vigorosamente que não existe nenhum
texto fora do suporte que o dá a ler, que não há compreensão de um escrito,
qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele chega
ao seu leitor. Daí a necessária separação de dois tipos de dispositivos: os que
decorrem do estabelecimento do texto, das estratégias de escrita, das intenções
do “autor”; e os dispositivos que resultam da passagem a livro ou a impresso,
produzidos pela decisão editorial ou pelo trabalho da oficina.”[4]
Pode se dar ainda o caso de que, apesar de ser
manuscrito, o documento seja uma cópia de um primeiro original (manuscrito ou
mesmo impresso). Nos tempos anteriores à invenção da Imprensa, era muito comum
a prática da cópia manuscrita de um original. O texto original – um objeto
único – podia ser copiado em um mundo cultural no qual era muito importante o
trabalho dos escrivães. Também podia ocorrer o caso de reelaboração modificada,
em uma nova versão, de um primeiro texto. Mas mesmo quando a intenção fosse
copiar o texto original literalmente, nada assegura que isto ocorresse sem
erros.
Nestes
casos, teríamos o que se convencionou chamar de documento manuscrito derivado.
Este tipo de classificação é importante para o historiador no sentido de colocá-lo
em estado de prevenção quanto à possibilidade de ocorrência de erros diversos
(trocas de letras, supressão de palavras e de linhas inteiras, bem como outros
tipos de erros que podem ter sido cometidos pelos copistas que reproduziram o
texto original). Em vista disto, pode ser particularmente útil para os
historiadores distinguir entre fontes manuscritas originais e fontes manuscritas derivadas. Categorizar e distinguir,
como temos dito neste livro, não é mera operação de erudição ou de obsessão
classificatória, mas uma oportunidade para refletir sobre problemas e alertas
importantes.
Os âmbitos
‘Público’ e ‘Privado’
No
universo das fontes textuais, é possível evocar ainda as categorizações que se
referem ao âmbito em que foi produzido o documento – e que na verdade já
antecipam algumas das considerações sobre o “lugar de produção” em que se
inscreve a obra ou a fonte histórica em referência[5]. Por ora, vamos considerar que um documento ou texto
pode ser público – produzido
oficialmente pelo Estado, mas também por instituições diversas, por associações
diversificadas, pela Igreja, etc. – ou privado
(isto é, produzido por um particular, por um indivíduo específico cercado de
sua privacidade).
Cada
um destes tipos ainda pode ser avaliado com respeito ao âmbito de sua
circulação. Por exemplo, um ‘documento privado’ pode ter sido projetado para
conservar-se no âmbito particular – uma carta endereçada a outro indivíduo, por
exemplo – ou para se tornar público (um livro, uma peça de teatro, uma confissão
pública, o texto de um blog nos tempos modernos). Por outro lado, o ‘documento
público’ pode ter finalidades de transmitir uma informação à coletividade: um
decreto real, uma carta constitucional. Ou pode ter sido produzido para comunicar
algo a um particular (uma notificação judicial, um aviso que só diz respeito ao
indivíduo em questão, etc).
Pode,
ainda, dar-se o caso de que o documento privado não tenha sido originalmente projetado
para circular em qualquer destes âmbitos, tal como no caso do diário ou das anotações
pessoais, mas apenas para servir de diálogo interno ou de suporte para
atividades práticas. No entanto, é peculiar o caso dos diários pessoais que
depois se tonam públicos por iniciativa do próprio autor, migrando do ambiente
privado-pessoal para o ambiente público-editorial – por vezes impondo, nesta
passagem, alterações menos ou mais substanciais em partes do seu conteúdo[6]. Temos também os casos em que diários ou anotações
pessoais de um indivíduo muito conhecido terminam por ser postos a circular
publicamente em algum momento posterior à sua morte, ou mesmo ainda em vida[7].
Autenticidade
e Veracidade
Antes
de prosseguirmos, será oportuno abordar dois problemas que precisam ser
considerados quando adentra no cenário historiográfico qualquer tipo de
documentação verbal escrita, seja em forma manuscrita, impressa ou
digitalizada. São dois aspectos independentes do outro, mas que se tornaram
importantes para as chamadas ‘crítica externa’ e ‘crítica interna’ do documento
histórico, respectivamente. Referimo-nos às possibilidades de que documentos
escritos não sejam autênticos, de um lado, e de que não sejam comprometidos com
a veracidade, de outro lado. Em duas palavras, temos aqui as questões
relacionadas à ‘inautenticidade’ e à ‘inveracidade’. Para melhor compreender
isto, vamos comparar os textos escritos com os objetos materiais comuns, que
também podem ser fontes históricas.
Um
objeto – seja uma antiguidade ou um objeto de uso cotidiano – é o que é. Como
os objetos não falam (no sentido estrito da palavra), e considerando os casos
em que não apresentem inscrições (textos escritos a eles aderentes), eles não
podem negar a si mesmos – ou mentir sobre si mesmos, por assim dizer. Uma
tesoura é uma tesoura (para além de cortar papel ou pano, que é a sua
finalidade principal, pode ser usada também como uma arma, mas isto é outra
questão). Ainda assim, uma tesoura é uma tesoura, do mesmo modo que uma cadeira
é uma cadeira, um colar de brilhantes é um colar de brilhantes e uma bijuteria
é uma bijuteria. Um cachimbo é um cachimbo.
É
claro que os objetos podem ser falsificados, ou melhor, apresentados com
inautenticidade. Por exemplo, a bijuteria pode ser exposta a um comprador
incauto como um valioso colar de brilhantes, e uma cadeira construída há dois
anos poderia, talvez, ser apresentada como um móvel muito antigo, com vistas a alcançar
uma maior valorização de preço entre colecionadores. Há artistas que se
especializaram em falsificar estilos de pintores famosos, e por isso também
surgiram especialistas capazes de detectar estas falsificações. Em todos estes
casos, entretanto, a inautenticidade não está propriamente nos objetos, mas sim
nos textos ou nos discursos externos que agregamos a eles. São os vendedores
inescrupulosos que, na sua fala desonesta – ou, talvez, empunhando falsos
certificados escritos – que podem dizer que a bijuteria é um colar de
brilhante, ou que a cadeira é um objeto de antiguidade. Não são os próprios
objetos que dizem isso, mas os discursos que os cercaram. Os objetos de cultura
material, rigorosamente, são o que são. A inautenticidade, nestes casos, não é
produzida pelos objetos; mas, sim, por aquilo que é dito sobre os objetos
(“isto não é um cachimbo”)[8].
Com
os textos e discursos (escritos ou falados) novos problemas adentram o campo da
reflexão historiográfica. Ao contrário de um objeto, um texto pode falar de si
mesmo, e inclusive pode dizer coisas falsas sobre si mesmo. Com isto, não estou
sustentando que um objeto não fale habitualmente certas coisas aos
historiadores, arqueólogos e outros tipos de analistas. É claro que, tal como
já foi comentado, uma cadeira com o tampo para escrever situado ao lado
esquerdo tem o efeito de nos esclarecer sobre a presença de uma minoria de
canhotos em uma sociedade, e sobre o respeito que nela se faz presente em
relação a esta condição ou a esta minoria, uma vez que uma a cada doze cadeiras
escolares devem apresentar legalmente o tampo à esquerda para facilitar a
escrita daqueles que não pertencem à maioria destra. E é claro que a mesma
cadeira fala-nos de uma civilização industrial, capaz de produzir cadeiras em
série, ao mesmo tempo em que nos indica a presença de certos materiais e
tecnologias disponíveis para a produção deste tipo de objeto. Para o bom
analista, a cadeira também fala sobre a altura média dos indivíduos presentes
em uma sociedade, ou sobre seu peso (pois dependendo deste fator, os pés devem
ser reforçados ou não). Uma cadeira, enfim, diz-nos muitas coisas. Mas não nos
diz que não é uma cadeira, ou que é uma cadeira de uma outra época que não
aquela em que foi de fato construída. A cadeira, em si mesma, não é
inautêntica. Somos nós que podemos criar inautenticidade ao falar sobre ela, em
um discurso paralelo que pode falsificar a sua data de fabricação, origem,
procedência de fábrica, qualidade de material ou outros aspectos. Enquanto
isso, já um texto escrito pode literalmente dizer muitas coisas sobre si mesmo.
Além
de desenrolar o seu discurso sobre o que quer que seja, um texto pode utilizar
suas próprias palavras para se apresentar de maneira inautêntica. Um autor pode,
por exemplo, datar o seu texto incorretamente, seja por descuido, por má-fé ou
por qualquer outra razão. A autoria também pode ser falsificada: neste caso, diz-se
que o texto foi escrito por determinado indivíduo, imputando-lhe a
responsabilidade pelo que foi escrito. Pode-se falsificar ainda a chancela de
uma instituição que pretensamente teria produzido ou publicado o documento, e
assim por diante. Pode haver mesmo a falsificação de documentos pretensamente antigos,
e a história está, de fato, repleta de exemplos neste sentido. Todos estes
aspectos se referem ao problema da ‘inautenticidade’. É claro que, se o
historiador está tomando seriamente certos textos como fontes históricas,
precisa em algum momento fazer a crítica da sua autenticidade. Deve se assegurar
de que a data de produção do texto é realmente aquela que lhe foi aposta; de
que a autoria do texto é aquela mesma que foi indicada; de que o documento é
realmente autêntico, e assim por diante.
Quando
está diante de textos já bem conhecidos, ou de documentos que já foram
analisados criteriosamente pelas instituições de guarda que os acolhem (os
Arquivos, Bibliotecas e Museus), o cuidado em proceder a uma rigorosa crítica
de autenticidade pode se deslocar para um segundo plano. Mas diante de um novo
documento, descoberto inesperadamente, tal procedimento mostra-se fundamental.
É claro que um documento falso – ou melhor, a não-percepção de que um documento
é falso – levaria o historiador a extrair conclusões inaceitáveis sobre a fonte
que tem diante de si. Em tempo: o fato de um documento ser falso não o torna inútil
para os historiadores; apenas redefine os problemas que podem ser repensados a
partir de tal documento.
Podemos
evocar o célebre caso da Carta de Doação
de Constantino – um dos mais famosos documentos falsos provenientes da
Idade Média, mas cuja inautenticidade só foi demonstrada no início da
modernidade. Elaborado por um monge na segunda metade do século VIII, este
documento apresenta, desde a sua seção de abertura, inautenticidades relacionadas
à sua datação e à autoria declaradas. O texto afirma ser um edito imperial
assinado no século IV pelo imperador romano Constantino[9]. Entre outros conteúdos inverídicos – como a menção a
uma miraculosa cura de lepra que teria sido realizada pelo Papa Silvestre em
favor do Imperador – o principal aspecto do documento (na verdade, a própria razão
de ser da falsificação) é a menção à doação de terras imperiais à Igreja
Católica, que deveriam ser pretensamente administradas pelos sucessores do Papa[10]. Alguns séculos após o seu surgimento, o documento já
começaria a ser contestado na própria Idade Média, mas a sua inautenticidade só
seria definitivamente demonstrada, no início do período moderno, pelo humanista
italiano Lorenzo Valla (1407-1457), que para tal se apoiou em diversas análises
críticas[11].
O
fato de ter sido percebido mais tarde como inautêntico não impede que a Carta de Doação de Constantino prossiga
sendo uma excelente fonte histórica. Não é uma fonte, certamente, para
compreender o período final do Império Romano, pois ela não constitui de modo
algum um texto desta época. Em compensação, trata-se de uma excelente fonte
para se compreender aspectos como a relação entre Igreja e Império na Alta
Idade Média, as necessidades da Igreja em se salvaguardar diante de poderes
temporais vários, as ambições expansionistas da Igreja Romana em relação a outros
patriarcados da Igreja cristã[12], as singularidades do imaginário religioso naquele
momento, e o próprio impacto da lepra no mesmo período, entre tantas outras
questões que podem se amparar na análise do documento. Além disso, o texto é
útil para compreender os modelos e fórmulas habituais para este tipo de
documento, e também reafirma a posição ortodoxa da Igreja em relação a certas
questões dogmáticas, pois as menciona de passagem com vistas a criticar certas
opiniões que seriam consideradas heréticas[13].
Existem,
de fato, muitas questões medievais importantes envolvidas no novelo textual e
intertextual que se entretece em torno da Carta
de Doação de Constantino. Graças a este documento falso, podemos
compreender vários aspectos sociais, políticos, culturais e religiosos
pertinentes à sociedade que o viu ser produzido. O documento falso, enfim, é
ainda assim uma fonte, e a primeira questão que podemos a ele contrapor
refere-se às motivações que levaram à sua falsificação. A inautenticidade
eventual de certos documentos escritos, desta maneira, surge como um desafio instigante
a ser enfrentado pelos historiadores, principalmente com relação a certos
períodos e contextos. A Idade Média do período acima considerado, particularmente
entre os séculos VIII e XII, apresenta inúmeras falsificações de diplomas,
capitulares e decretos pontificais, o que fez Marc Bloch situar este período
entre as “épocas mitômanas”, nas quais as falsificações aparecem em maior
quantidade[14].
Hoje
em dia, os meios disponíveis para surpreender as inautenticidades já estão
amplamente dominados por historiadores, filólogos, arquivistas e especialistas
de diversos tipos. A ocorrência ou recorrência de uma expressão ou vocábulo que
não poderia estar presente em um texto de certa época, o padrão de escrita
manuscrita que faz o documento destoar do estilo caligráfico que dele se esperava,
a menção a rituais ou práticas que só teriam surgido anos depois, a fórmula
textual ainda não usual que denuncia a intrusão de uma época sobre outra, a
presença de papel como suporte para o texto, em lugar do papiro ou do
pergaminho que seria o esperado para a época em questão – tudo pode amparar a
crítica de autenticidade destinada a verificar se o documento realmente condiz
com o espaço-tempo por ele declarado. Conferir a autenticidade, quando
necessário, faz parte do conjunto de procedimentos relacionados ao que se
costumava chamar de “crítica externa” do documento.
Por
outro lado, estaria mais relacionada a uma “crítica interna” a verificação da
veracidade. Se a autenticidade, em diversos aspectos, refere-se ao documento
propriamente dito, a veracidade se refere habitualmente ao seu conteúdo.
Voltemos aos objetos materiais, com vistas a um termo de comparação. Um objeto
não pode mentir – a não ser através de inscrições ou de imagens bem definidas
que recubram a sua superfície. Via de regra, um objeto material é ao mesmo
tempo a sua forma e a sua funcionalidade. O objeto pode ser ineficaz no que se
refere ao ajuste entre a sua forma e a sua funcionalidade; mas não faz muito
sentido dizer que tal ou qual objeto é verdadeiro (já vimos que a declaração
falsa sobre a autenticidade de certo objeto é que pode se afastar da verdade).
Já
os textos, estes sim são os territórios da verdade relativa ou da mentira
absoluta. Quando se referem a certos acontecimentos, os autores de textos estão
certamente apresentando pontos de vista, e podem acreditar naquilo que dizem.
Mas nada impede que também explorem a possibilidade de mentir, de falsear
aquilo que percebem, de omitir dados ou aspectos que seriam fundamentais para o
cenário a descrever. Há possibilidade de o autor de um texto afirmar ter
presenciado ou participado de certos acontecimentos, sem que isto seja
verdadeiro. O autor de um texto, por fim, pode mentir conscientemente, com
vistas a produzir algum efeito sobre os seus leitores, ou pode mentir
involuntariamente. De fato, um autor pode repassar adiante aquilo que leu em
outro, ou que ouviu dizer, e talvez jamais venha a desconfiar de que seu texto
foi o veículo de uma inverdade. Um pouco por isso, ao considerar a complexidade
de aspectos que envolvem o que pode ser dito em um texto, o historiador francês
Jacques Le Goff (1924-2014) chega a afirmar: “No limite, não existe
documento-verdade. Todo documento é mentira”[15].
Ao
lado disso, temos de considerar que, se um texto pode testemunhar informações
objetivamente verdadeiras ou distorcidas com relação a este ou àquele aspecto, sob
outra perspectiva todo texto é também um discurso, e como tal precisa ser
analisado. Todo discurso, em última instância, está associado a um ponto de
vista e lugar de fala, bem como a um conjunto de complexidades que chamaremos
de ‘lugar de produção’. Mas a isso voltaremos oportunamente.
O
vocabulário e suas variações
Outro
problema que surge com as fontes verbais – e agora tanto no que se refere às ‘fontes
textuais’ (verbais escritas) como às fontes verbais orais (depoimentos falados)
– é o da variação vocabular. O elemento básico das fontes verbais é, obviamente,
a palavra – no caso das fontes textuais, mais especificamente a palavra escrita
– e isso já traz de si implicações imediatas que não existem em outros tipos de
fontes, tais como as ‘fontes materiais’ (objetos de todas as espécies), ou como
as fontes de conteúdo não verbal (imagens, sons, etc). As palavras – componentes
elementares da língua viva e dos sistemas verbais de comunicação – possuem uma
história, variam no decurso do tempo naquilo que se refere aos sentidos por
elas abarcados, ressignificam-se, são reapropriadas pelos sucessivos contextos
e adaptam-se a novos usos.
Os
historiadores, como não pode deixar de ser, precisam lidar com a sua própria
língua, na qual escrevem suas análises e obras historiográficas, mas também com
a língua das fontes que analisam. Mesmo que trabalhem com a mesma língua
aparente (um historiador brasileiro de hoje analisando fontes de outra época
escritas em português), os historiadores precisam lidar com dois universos
vocabulares distintos. Suspensas entre eles, as palavras podem ser enganosas. Se
já em um mesmo momento elas podem comportar diversos sentidos, em momentos
distintos estas possibilidades se multiplicam.
Boa
parte dos chamados problemas de anacronismos funda-se neste instigante contraste
entre o universo linguístico do historiador que escreve e o universo
linguístico das fontes que são analisadas. A história conceitual – em
particular a partir da contribuição teórica e historiográfica de Reinhart
Koselleck (1923-2006)[16] – tem se esmerado em rastrear e analisar os
diferentes usos das palavras comuns e dos conceitos ao longo da história, mas a
percepção dos problemas decorrentes da necessidade de lidar com a linguagem das
fontes é já bem antiga, e a eles já se referia Marc Bloch na sua Apologia da História (1944)[17]. Ao historiador, é preciso cuidado tanto no momento
de escolher ou constituir os conceitos de hoje que empregará para dar a compreender
as sociedades e processos históricos de ontem, como no momento de trazer e dar
significado às palavras de ontem, extraídas das próprias fontes, para compor a
narrativa historiográfica de hoje[18].
Há
uma pequena polêmica, na história da historiografia brasileira, que já se
tornou clássica para exemplificar esta questão, sendo oportuno trazê-la mais
uma vez para ilustrar a necessidade incontornável de que o historiador se ponha
em estado de permanente alerta diante das palavras trazidas pelas suas fontes
textuais[19]. Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em um artigo
simultaneamente mordaz e saboroso intitulado “Sobre uma Doença Infantil da
Historiografia” (1973)[20], cita o caso de um anacronismo produzido pela
ressignificação indevida de uma palavra trazida do universo das fontes para o
âmbito de uma análise histórica. Determinado historiador, que Sérgio Buarque de
Holanda prefere não nomear[21], deparou-se em suas pesquisas com certa descrição
contida nas fontes, na qual se diz que “a cidade de Salvador era, das colônias
do Brasil [no inicio do século XIX] a mais frequentada de gente policiada”.
Segue o comentário de Sérgio Buarque de Holanda sobre o deslize cometido por
seu colega de ofício:
“Acontece que, ao ler ‘gente policiada’, o comentador
[o historiador criticado por Sérgio Buarque de Holanda] não teve dúvidas:
Vilhena [personagem histórico, autor da fonte analisada] queria falar em
polícia, portanto em gente armada, portanto em militar. O estranho é que não
lhe passou pela cabeça [do historiador] que a palavra ‘policiada’ pudesse ter,
e no caso tinha, com certeza, o sentido de ‘cultivada’, ‘refinada’, e, em suma,
‘civilizada’, ou seja, quase o oposto daquilo que a palavra ‘polícia’ costuma
evocar atualmente. O que o cegou, provavelmente, foi a convicção inabalável de
que uma só e mesma palavra só pode ter um só e mesmo significado”[22].
O caso refere-se não propriamente ao uso equivocado de
um conceito trazido do passado para a época do historiador, mas mais
propriamente à atribuição anacrônica de um falso sentido a uma palavra simples,
presente tanto na linguagem da época como nos dias de hoje. Problemas como este
ocorrem frequentemente quando avaliamos inadvertidamente a linguagem do mundo
das fontes e a relemos com os sentidos literais que teriam hoje algumas das
suas palavras.
Para
a questão que discutimos neste momento, é interessante notar que este é um
problema típico das fontes verbais, sejam escritas ou orais. Se o historiador
tivesse diante de si uma fotografia mostrando uma cena urbana repleta de
policiais truculentos em atitude de vigilância, ou, ao invés disso, uma cena
mostrando hábitos refinados pertinentes à sociabilidade burguesa, não poderia
confundir um ambiente social e outro. No entanto, neste caso, o que o historiador
tem diante de si é uma fonte verbal escrita que busca retratar com suas
próprias palavras uma determinada sociedade, ou certo cenário. As palavras,
neste caso, são mediadores que o historiador precisa considerar. Elas
atravessam os tempos, pois continuam fazendo parte da mesma língua viva. Seus
sentidos, no entanto, podem se alterar na passagem do mundo das fontes para o
mundo dos historiadores. É uma função importante destes últimos a de devolverem
aos seus leitores o sentido adequado das palavras; ou, então, esclarecer-lhes
as oscilações de sentido[23].
Compreender
as variações de sentidos portados pelas palavras trazidas pelas fontes, para
além disso, também implica nos conscientizarmos sobre a diversidade interna de
uma língua nacional aparentemente unificada. O historiador que analisa suas
fontes também precisar adentrar o universo dos dialetos sociais, dos jargões
profissionais, das comunidades linguísticas, dos modos de expressão
geracionais. Grupos sociais diversificados podem fazer diferentes usos da
língua, encontrar sentidos distintos para a mesma palavra, inventar novas
palavras e expressões e desenvolver um modo de falar e de se comunicar específico.
Gangues urbanas, jovens de uma idade aproximada pertencentes à mesma classe
social, praticantes de certa atividade desportista ou cultural, especialistas
ou profissionais ligados a determinada área de estudos ou de trabalho – estas e
outras comunidades linguísticas também podem se expressar nas fontes através de
seus dialetos sociais. Os advogados e economistas, entre os círculos
profissionais, dão-nos exemplos de ambientes profissionais que desenvolvem
formas próprias de expressão.
Certos
tipos de textos – gêneros distintos de fontes textuais, conforme veremos mais
adiante – também terminam por desenvolver os seus próprios padrões. Há uma
linguagem dos inventários, fórmulas específicas para cada tipo de documentação
jurídica, estilos relacionados a diferentes tipos de jornalismo. Há um
vocabulário próprio a ser aprendido nas páginas policiais de um periódico, ou
nas colunas de moda, certas convenções que orientam a correspondência
epistolar. A língua também se diversifica por dentro, dentro de uma mesma
época, e não é apenas o seu desenvolvimento no decorrer do tempo histórico o
que lhe multiplica os sentidos e entonações diversas de que podem ser
portadoras as suas palavras.
Gêneros textuais
Por
tudo isso, será preciso considerar como instância de máxima importância para a
análise historiográfica a natureza do
texto, ou o que convencionaremos chamar gênero
do discurso. As fontes textuais de que se pode valer um historiador abarcam
um grande conjunto de possibilidades: crônicas, narrativas, poemas, literatura
de ficção, prosa moralística, obras historiográficas, ensaios, tratados
técnicos – somente para citar algumas dentre as que habitualmente se prestam
mais à análise qualitativa do que à serialização – bem um grande número de outros
tipos de fontes que podem ser encontradas nos arquivos, tais como textos legislativos,
registros cartoriais ou paroquiais, testamentos, inventários, processos
judiciais, documentos comerciais. Enfim, tem-se aqui toda uma rica diversidade
de tipos de documentos que, apesar de tão diferentes uns dos outros, têm em
comum a utilização da linguagem escrita (e não a falada, a pictórica, etc ...).
Posto
isto, é preciso considerar que – apesar deste ponto em comum que é o suporte
fundado no discurso transmitido através da escrita – cada tipo de fonte textual
apresenta um sistema de comunicação que lhe é próprio, e que não pode ser
imprudentemente confundido com os demais. A linguagem poética, por exemplo, é
radicalmente distinta da linguagem legislativa. Além disto, um e outro destes
gêneros textuais podem atender a objetivos bem específicos: enquanto o objetivo
da poesia é entreter ou comover (e outras coisas mais) – a partir de um código
muito especial que é o do discurso poético, e através de uma forma baseada em
estrofes e versos – já o objetivo de um documento legislativo é regulamentar a
vida jurídica, para o que se requer um discurso com um certo tipo de precisão e
objetividade. Do mesmo modo, a prosa de ficção irá se distinguir de uma crônica
com pretensões historiográficas, ou mais ainda de um registro da administração
pública.
É em
vistas disto que se pode dizer que cada gênero de discurso requer uma abordagem
singular, que não necessariamente é válida para os demais. Por isto enfatiza-se
a necessidade de classificar o documento quanto ao gênero – com o que já
estaremos imediatamente refletindo sobre a singularidade de sua linguagem. Para
introduzir a questão da diversidade de gêneros de discursos e de modalidades
textuais que se oferecem aos historiadores como fontes históricas, destacaremos
esquematicamente alguns tipos (Quadro 3).
.
O 'Quadro 3' foi elaborado de modo a expor a grande variedade de diferentes tipos de fontes textuais que costumam ser analisadas pelos historiadores - e mesmo assim, apesar da grande variedade de tipos que nele procuramos a incluir, é preciso reconhecer que muitos gêneros de fontes textuais ainda ficaram de fora, e poderiam ser acrescentados em uma exposição mais complexa dos diferentes tipos de^fontes textuais. Além de expor uma grande variedade de gêneros textuais, o quadro procurou expor também uma dimensão histórica - a passagem do tempo - pois ele se empenha em mostrar através da sequência de números (ao redor do círculo central) quais foram os primeiros gêneros que foram sendo assimilados pelas várias análises historiográficas desde o século XIX - marco escolhido por ser também aquele em que a História passa a se propor ser uma disciplina científica, multiplicando as novas metodologias historiográficas para análise de diferentes tipos de fontes. O contorno dos retângulos - de acordo com suas cores - indica o período da história da historiografia em que o tipo de fonte que está no interior de cada retângulo foi sendo assimilado pela historiografia como um tipo de fonte histórica interessante a ser considerado pelos historiadores. Deste modo, o leitor pode conferir a cor de cada retângulo na tabela à esquerda e localizar o momento em que aquele tipo de fonte adentra o cenário historiográfico. O cinturão de números ao redor do círculo central também ajuda a compreensão da assimilação progressiva da diversidade de tipos de fontes históricas como um processo que vai trazendo cada vez mais e mais tipos de fontes históricas textuais à palheta dos historiadores.
Também organizamos o quadro por fatias de similaridade. Se tomarmos qualquer das fatias que se alternam neste grande esquema circular, teremos um padrão mais amplo que agrega vários tipos de fontes, mas que se pode compreender perfeitamente que a fatia indica fontes que tem algo em comum, particularmente no tipo de metodologia que poderá ser aplicado a elas. Apenas como exemplo, se olharmos no quadrante superior esquerdo a fatia das 'Fontes Cartoriais', logo veremos que ali estão localizadas as certidões (de nascimento, casamento, óbito), os testamentos e inventários, as escrituras de compra e venda. Cada um destes tipos de documento (além de serem tipicamente isso: documentos) são localizados em cartórios, e nos arquivos que derivaram de cartórios. Também são fontes que se permitem a um trabalho de metodologia serial (fontes trabalhadas preferencialmente em série, e não isoladamente). São também fontes que passaram a atrair a atenção dos historiadores a partir da década de 1930 - como pode ser visto pela cor verde dos retângulos que enquadram estas fontes. Com este exemplo, fora de ordem, quis apenas mostrar que, no esquema proposto, cada fatia agrega alguns gêneros textuais que têm muito em comum, e que podem ser pensados como uma subcategoria (no caso, 'fontes cartoriais'). Pode ser interessante, entretanto, ler o esquema circularmente, fatia por fatia, de modo a perceber as proximidades ee contrastes entre os diversos subgrupos e a sua posição de entrada na história da historiografia.
Começaremos pela base do
quadrante superior direito, na fatia documental que denominamos ‘Fontes
Literárias e artísticas’. As fontes literárias são essencialmente “autorais”. Há um autor
que por sobre elas se anuncia, e estas fontes também podem ser partilhadas por
inúmeros gêneros que estão indicados entre os retângulos no interior da fatia relativa
às ‘fontes literárias’. A distinção entre os diversos gêneros textuais
pertinentes às ‘fontes literárias’ é bastante radical, como é facilmente
evidente. Um “ensaio”, uma “poesia”, um “texto teatral” ou uma “literatura em
prosa” são na forma e no conteúdo gêneros literários radicalmente distintos uns
dos outros. Apenas para simplificar, registramos a “literatura em prosa”, mas
mesmo este gênero poderia ser partilhado em subdivisões ainda menores, como o
romance, o romance policial, a ficção científica, o conto, e assim por diante. O romance Dom Quixote de La Mancha, que mencionamos atrás, é uma fonte textual literária pertencente ao gênero textual 'romance'. Tem um autor, como todas as fontes textuais (alguém escreveu autoralmente este texto literário romanesco, e no caso foi o escritor espanhol Miguel de Cervantes). Os vários tipos de fontes que agrupamos sobre a rubrica das ‘fontes
literárias’, só mais recentemente começaram a ser explorados pelos
historiadores como fontes históricas. Começamos por eles apenas para
contrastá-los com o setor que está situado imediatamente abaixo, o que
denominamos ‘fontes realistas’ (sobre as quais discorreremos no próximo parágrafo). Por ora, quero lembrar que, além de serem fontes autorais (o que não é atributo exclusivo das fontes literárias, conforme veremos adiante), a maior parte dos diferentes gêneros de fontes literárias são muito marcados por constituírem textos 'criativos', nos quais os seus autores possuem efetivamente uma certa liberdade de criação. O 'ensaio' é um modelo mais rigoroso, um pouco marcado pela busca de cientificidade, mas a maior parte das fontes literárias que mostramos no esquema tende ao modelo artístico de criatividade, como a poesia, o romance, e assim por diante.
O que distingue das ‘fontes
literárias’ as fontes ‘realistas’ – uma designação na qual devemos encaixar
a própria ‘historiografia’ – é o fato de que estes textos pretendem se referir
de alguma maneira à realidade, não se tratando de pura ficção ou criação livre.
O que há em comum entre os “documentos jornalísticos”, os “relatos de viagens”,
as “biografias”, as “hagiografias”, as “crônicas” propriamente ditas e, finalmente,
a “historiografia”, é o seu vínculo em maior ou menor medida com a realidade
efetiva. Quem escreve um “relato de viagem” pretende narrar os acontecimentos
de uma viagem que de fato ocorreu; quem escreve uma “biografia”, pretende
retratar narrativamente a história de vida de uma pessoa real; e mesmo as mais
fantasiosas “hagiografias” – que são biografias de santos – colocam-se para os
seus leitores como relatos de algo que efetivamente teria acontecido. Este
gênero existe, precisamente porque há leitores que acreditam nos milagres e em
uma margem sobrenatural da própria realidade. A “historiografia” é também um
relato ou um texto que se coloca em relação direta com a realidade, e que
pretende se referir a sociedades de uma certa época a partir de uma base
documental que os historiadores julgam ser autêntica (e que constituí na
verdade de textos que podem pertencer a todos os tipos de fontes verbais e
não-verbais, para além da própria historiografia de épocas anteriores). Pode-se observar que, no quadro, indicamos o número (1) para esta fatia de fontes, pois elas estão entre as fontes mais antigas que vinham sendo utilizadas pelos historiadores, mesmo antes do século XIX (o século de instituição da historiografia científica).
À parte a documentação
jornalística, que só começou a ser explorada depois – mesmo porque os jornais só
passaram a existir a partir de certa época – pode-se dizer, de fato, que toda a
historiografia que se fez até o século XVIII tomou por base documental este
tipo de fontes que designamos pelo título ambivalente de “fontes realistas”.
Tratam-se também de gêneros autorais, isto é, textos que possuem um autor que
responde por cada um deles, mas que, distintamente das ‘fontes literárias’, são
textos construídos por sobre a ideia de veracidade, de que expressam algo
verdadeiro, e não algo que é uma livre criação dos seus autores. Durante
séculos os vários gêneros historiográficos se basearam essencialmente nestes
tipos de fontes. Um historiador ou cronista medieval procurava amparar-se para
a construção de seu próprio texto em obras elaboradas por outros cronistas e
biógrafos. A partir da Idade Moderna isto não mudaria. Mesmo depois do século
XIX, estas fontes continuaram a ser bem frequentadas pelos historiadores.
O que assinala isto que
tomaremos a liberdade de chamar de ‘revolução documental historicista’ foi o
surgimento, no horizonte de expectativas documentais dos historiadores, de um
novo tipo de texto de apoio: o documento de arquivo – deste arquivo que, na
verdade, teria nos próprios historiadores oitocentistas os seus principais
agentes de implantação (veja-se as fatias logo à seguir às 'fontes realistas', no sentido horário). Em um mundo político posterior ao período napoleônico,
no qual as diversas nações europeias queriam se afirmar como estados-nações,
diversos historiadores foram contratados pelos governos dos vários países para
colaborar com a consolidação da memória nacional através da montagem de grandes
arquivos. Os mesmos historiadores também eram conclamados a introduzirem a
História no universo das disciplinas universitárias, e este um ponto de
inflexão que irá separar os novos historiadores da História Erudita que antes
se fazia, muitas vezes por filósofos e pensadores que escreviam sobre diversas
coisas, e não apenas sobre história. Os historicistas queriam se afirmar como
um novo tipo de historiadores: especializados no seu ofício, trabalhando com
uma postura metodológica que permitisse incluir a História entre as demais
ciências, detentores de cadeiras universitárias relacionadas à nova disciplina
que acabara de ser aceita no circuito acadêmico. Para estes historiadores de
novo tipo, o “documento histórico” passou a desempenhar um papel primordial, e
também a busca de técnicas adequadas para o seu tratamento.
Uma vez que a historiografia do
século XIX priorizaria francamente a História da Política, das Guerras, da
Diplomacia, da formação das grandes nações, dos grandes líderes políticos, e
também em alguma medida a história das instituições importantes para a vida
nacional como a Igreja, o universo de fontes proposto pelos historiadores
passou a incluir, e a valorizar prioritariamente, os setores documentais aos
quais nos referimos como documentação política, documentação diplomática,
documentação governamental, e documentação administrativo-institucional. No
setor da documentação política, o que era valorizado eram os textos gerados nas
instituições da Grande Política (não era o caso ainda da utilização de
programas de partidos políticos ou da análise de discursos políticos, que só
seria abordada com a nova história política do século XX, a não ser em casos
mais específicos como as “falas presidenciais” e as “falas do trono”). A
documentação que passa a ser valorizada no novo momento historicista é a que
está indicada pelos retângulos de borda azul: declarações de guerra, tratados
de paz, leis, documentação diplomática, decretos governamentais, chancelarias,
relatórios governamentais (como os relatórios de presidentes de província, para
o caso brasileiro). Lateralmente, continuava-se abordando também a
‘documentação autoral de realidade’ (fatia das 'fontes realistas') - ou seja, as crônicas, biografias, historiografias,
mas sempre dirigidas ao estudo das grandes figuras políticas. Apesar da
novidade do uso de fontes de arquivo, a historiografia oitocentista continuou a
ser, tendencialmente, uma historiografia na qual se podia assistir a uma
história conduzida pelos grandes indivíduos, e que buscava a particularização,
frequentemente o acontecimental. Em um texto de 1968 intitulado “O que os
historiadores devem a Karl Marx”, Eric Hobsbawm manifesta a idéia de que – á
parte os inegáveis avanços nas técnicas de pesquisa – houve mesmo um certo
recuo para o factual em relação a uma historiografia que, embora não tão bem
aparelhada, ao menos ainda tentava “compreender a transformação das sociedades
humanas” (HOBSBAWM, 1968, p.197). Mas de todo modo esta é uma questão que pode
ser polemizada. O que é de fato inegável é que, com o historicismo, ocorreu de
fato uma primeira expansão documental importante. Com a prática historicista, o
hemisfério inferior do nosso universo de fontes em expansão já está quase todo
tomado, à exceção da ‘documentação comercial’, que já constituiria uma
conquista da historiografia do século XX.
A segunda grande revolução
documental da história da historiografia ocidental deu-se na confluência de
novas práticas historiográficas, para as quais tiveram um papel fundamental a
historiografia francesa da Escola dos Annales, a cliometria americana, e os
novos historiadores marxistas que, no século XX, empenharam-se em estudar a
dimensão econômico-social do mundo humano, de acordo com os princípios que
desde meados do século XIX já havia sido firmados pelo Materialismo Histórico.
No âmbito dos Annales, surgiram novas modalidades, bastante importantes para o
novo paradigma historiográfico, tais como a História Serial e a História
Quantitativa. As fatias que se referem a este ponto da expansão documental são aquelas que começam com o numero '5', e daí em diante.
A ideia que norteava os
annalistas era a de rejeitar aquilo que consideravam uma historiografia
particularizante, indidualizadora, factual, narrativa ou descritiva em
detrimento da análise, redutoramente política em detrimento das demais
dimensões da vida humana. Empreendendo uma crítica aos setores mais
conservadores do Historicismo, os Annales propõem uma história-problema,
econômico-social, valorizadora dos movimentos coletivos em detrimento das ações
individuais. Um aspecto sintomático deste discurso de rompimento em relação à
historiografia anterior foi a rejeição, ao menos nos primeiros momentos, de
todo o tipo de documentação de arquivo que vinha sendo utilizado pela História
da Política que se desenvolvera no século anterior. Em detrimento da
documentação diplomática, estatal, política, e também das fontes autorais
realistas, os historiadores dos Annales acenaram com um novo tipo de
documentação de arquivo: os documentos comerciais, paroquiais, cartoriais, as
listas de preços e de salários, os contratos, os registros contábeis, a
documentação do censo, valorizava-se aqui toda uma nova documentação de arquivo
a ser explorada que permitiria não apenas a exploração da História
econômico-Social, como também o surgimento da História Demográfica, da História
Local.
É oportuno lembrar que o
programa dos Annales também incluía a proposta de exploração de outros tipos de
fontes, como as fontes iconográficas e as fontes da cultura material, e nos
anos sessenta estas fontes seriam utilizadas por novas modalidades como a História
das Mentalidades. Mas o fato é que a documentação que se tornou dominante entre
as décadas de 1930 e meados da década de 1970 foi a documentação que se
prestava a uma análise serial e quantitativa por oposição às análises qualitativas
que individualizavam cada fonte histórica ao invés de inseri-la em uma série
mais ampla.
Os anos 70, nos quais começa a
haver uma certa crise do fetichismo quantitativo, ocorre uma nova expansão
documental. Entre outras modalidades históricas que começam a surgir neste novo
período, a Micro-História – interessada em captar a vida humana através de uma
análise intensiva das fontes, do diálogo de vários pontos de vista e da
valorização dos detalhes reveladores – descobre a importância de um novo setor
de possibilidades documentais: a documentação judicial, de investigação e de
inquérito. Os documentos Jurídicos e Policiais (fatia n°9), e também a documentação da
inquisição para períodos anteriores, passam a chamar atenção dos historiadores.
A intensificação dos estudos de História Cultural – de uma Nova História
Cultural – avança em seguida para a valorização daquelas fontes das quais
partíramos neste relato: as ‘Fontes Literárias’ não realistas. A idéia de que a
historiografia poderia tirar proveito da análise de discursos, como lugares
privilegiados para a expressão ou ocultamento do poder, começa a atrair os
historiadores também para este tipo de fontes.
Por outro lado, no âmbito das
fontes que havíamos antes categorizado como ‘Fontes Realistas, os periódicos
estavam até então um pouco à parte das predileções documentais dos
historiadores. Como nos diz Tânia Regina de Luca, que se especializou neste
tipo de fontes, por muito tempo as fontes jornalísticas eram evitadas por
parecerem inadequados aos historiadores, já que “continham registros
fragmentários do presente, realizados sob o influxo de interesses, compromissos
e paixões; em vez de permitirem captar o ocorrido, dele forneciam imagens
parciais, distorcidas e subjetivas” (DE LUCA, 2005, p.112). Nos anos 1980, essas fontes passam a ser
bem valorizadas.
O retorno do político – de uma
Nova História Política – também avança sobre fontes que ainda haviam sido pouco
tocadas no setor da documentação política: os programas de partidos políticos e
os discursos, entre outras. A valorização de uma História Vista de Baixo também
faz despertar nas últimas décadas do século XX o interesse pela documentação
privada: as correspondências e diários, por exemplo. Por fim, surge o interesse
por um novo tipo de fonte que situamos já fora do círculo, pois é ainda
fonte-verbal, mas não mais ‘fonte textual’. Referimo-nos ao interesse crescente
pela História Oral.
O balanço que aqui empreendemos
referiu-se apenas às chamadas ‘fontes verbais’, e em particular às 'fontes textuais' (fontes verbais escritas), de modo a dar uma ideia de sua
variedade e de como os historiadores foram se apropriando progressivamente dos
vários tios de documentação que se fundamenta na palavra – primeiro escrita, e
depois falada. Mas um movimento análogo foi se apropriando também das fontes da
cultura material, das fontes iconográficas, das fontes musicais, de fontes
complexas como o teatro e o Cinema – já que estas incluem tanto um nível de
verbalização como instâncias relacionadas à Imagem e ao Som. Este seria
certamente um assunto de razoável complexidade para ser desenvolvido em outro
momento.
José D'Assunção Barros
O texto aqui apresentado corresponde a partes dos capítulo iniciais do livro Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos (BARROS, José D'Assunção. Petrópolis: Editora Vozes, 2020).
A continuação deste livro também já foi publicada, com o título A Fonte Histórica e seu Lugar de Produção(BARROS, José D'Assunção. Petrópolis: Editora Vozes, 2020).
O quadro A Expansão Documental, utilizado neste artigo, também está disponível na Internet
NOTAS:
[1]
O trabalho de historiadores com as fontes da cultura material permite que a
História se encontre com a Arqueologia, examinando os objetos por esta trazidos
de períodos anteriores, a partir de escavações. Além disso, sem necessitar dos
recursos mais específicos da Arqueologia, os historiadores também podem
analisar diretamente os objetos materiais que ainda participam do Presente,
pois neste caso os objetos da cultura material apresentam a propriedade tanto
de estarem presentes e integrados ao momento atual, como de trazerem as marcas
do tempo em que foram criados (e dos tempos que atravessaram através do seu
uso). Basta considerar, por exemplo, o mobiliário de uma fazenda antiga, as
ruas de uma cidade, ou um objeto antigo ainda em uso ou que esteja sendo
utilizado para finalidades decorativas.
[2]
A primeira máquina de impressão com tipos móveis foi criada por Johannes
Gutenberg em 1439, mas a sua difusão generalizada dá-se a partir do século XVI.
[3]
Na situação exemplificada, sabe-se que, em 1459 o monarca português Afonso V
ordenou ao Guarda-Mor da Torre do Tombo – Gomes Eanes de Zurara – que copiasse
em novos livros os documentos mais importantes, e que fosse elaborado um resumo
dos outros, mas omitindo aqueles que considerasse inúteis. Sobre isto, ver
COSTA, 1996, p.71-101 e MARCONI, 2018, p.22.
[4]
CHARTIER, 1990, p.127.
[5]
Este tema – A Fonte Histórica e seu lugar
de produção – foi desenvolvido de maneira aprofundada no segundo volume
da série sobre Fontes Históricas (2020).
[6]
Há o caso emblemático do Diário de Anne
Frank (1942-1944), surgido como diálogo íntimo e espontâneo em um primeiro
momento, mas vislumbrado depois pela autora na possibilidade de vir a ser
publicado, até, finalmente, após a morte da autora em um campo de concentração,
ser publicado pelo seu pai e se tornar um best-seller. O texto cumpre, assim, a
travessia do ambiente pessoal-privado ao ambiente público de circulação.
[7]
Apenas para dar um exemplo, entre tantos possíveis, esse foi o caso das Anotações de Napoleão Bonaparte sobre o
livro O Príncipe, de Maquiavel. Este
clássico do pensamento político, escrito por Maquiavel em 1513, era o livro de
cabeceira de Napoleão, e ele costumava anotar seus próprios comentários e
observações em seu exemplar, à maneira de notas laterais. Mais tarde, em 1816,
uma versão de O Príncipe, com
comentários de Napoleão, seria publicada em Paris. Nos dias de hoje podemos
tê-la traduzida para diversos idiomas, inclusive o Português. Ver MAQUIAVEL,
2000.
[8]
“Isto não é um cachimbo” é o título de um quadro de René Magritte (1929),
pertencente à série A Traição das Imagens
(1928-1929). A obra explora o aparente nonsense
ao colocar o expectador diante de uma imagem que dificilmente não lhe pareceria
um cachimbo, ainda que acompanhada de uma legenda que afirma o contrário: “isto
não é um cachimbo”. A complexidade da proposição está em que a afirmação não
expressa na verdade um contrassenso, mas sim uma obviedade. A imagem não é de
fato um cachimbo, mas apenas um conjunto de traços e cores dispostos em uma
tela que, a muitos, parecerá constituir a representação de um cachimbo.
[9]
Imperador romano entre 306 e 337 e.C.
[10]
A motivação para a falsificação deste texto refere-se ao cumprimento, em 756
e.C, de uma promessa de feita pelo rei carolíngio Pepino ao papa Estevão II.
Este último havia solicitado ao rei que ele combatesse os lombardos para
recuperar terras que haviam sido por eles tomadas à Igreja Católica. Contudo, a
Igreja Romana precisava afirmar, em nome de sua futura independência em relação
à monarquia franca, que as terras conquistadas já lhe pertenciam de direito.
Daí surge a demanda por uma falsificação que sustentasse que a doação das
terras em questão já havia sido há muito promulgada pelo Imperador Constantino,
no século IV e.C. Consequentemente, a doação de Pepino configuraria apenas uma
restituição, à Igreja, de terras que já lhe haviam sido doadas antes.
[11]
Sobre a demonstração de Lorenzo Valla, ver GINZBURG, 2002, p.64-79.
[12]
No caso, havia disputas territoriais entre a Igreja Romana e as Igrejas da Antióquia,
Alexandria, Jerusalém e Constantinopla; no documento, estas disputas são
denunciadas pelo fato de que as terras cedidas ficam exatamente nestas regiões.
[13]
A menção a uma posição de Constantino em favor da crença na Trindade – uma
proposta que somente se afirmaria no cenário católico ortodoxo a partir de 381
e.C – foi inclusive um dos indícios evocados por Lorenzo Valla para demonstrar
a inautenticidade do documento.
[14]
BLOCH, 2001, p.99. O período de transição do século XVIII ao XIX é outra das
“épocas mitômanas” citadas por Marc Bloch em Apologia da História (1942-1944), sendo o fenômeno por ele referido
nos termos de uma “vasta sinfonia de fraudes” que recobre a Europa. O caso de
maior destaque são os poemas pseudoceltas atribuídos a Ossian. Bloch também
discorre sobre a divertida cadeia de documentos inautênticos produzidos, em
1857, pelo falsário romântico Varin-Lucas (BLOCH, 2001, p.100).
[15]
LE GOFF, 1990, p.497. O historiador francês prossegue, em certo trecho do seu
artigo Documento-Monumento: “Qualquer
documento é, ao mesmo tempo, verdadeiro – incluindo, e talvez sobretudo, os
falsos – e falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma
aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por desmontar, demolir
esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de
produção dos documentos-monumentos” (LE GOFF, 1990, p.99).
[16]
A obra mais emblemática é a já célebre coletânea de ensaios intitulada Futuro Passado – contribuição à semântica
dos tempos históricos (KOSELLECK, 2006) [original: 1979]. Ver ainda
KOSELLECK, 1992, p.134-146.
[17]
BLOCH, 2001, p.138.
[18]
Examinamos amplamente estes problemas em uma obra recente intitulada Os Conceitos – seus usos nas ciências
humanas (BARROS, 2016, p.137-191).
[19]
A polêmica a seguir foi também evocada em BARROS, 2016, p.177-178.
[20]
Artigo publicado em O Estado de São Paulo,
17.06.1973.
[21] O artigo gerou depois polêmicas, incluindo
réplicas do próprio historiador criticado.
[22]
HOLANDA, 2011, p.425.
[23]
As imagens, por seu turno, também oferecem inúmeros outros problemas de
mediação que devem ser considerados pelos historiadores, inclusive as fotos,
que envolvem pontos de vista, escolhas de quem as produziu, escolhas daqueles
que as preservaram, objetivos aos quais se destinavam quando foram produzidas,
objetivos aos quais se destinavam quando foram preservadas, possíveis
simbolismos (principalmente no caso de pinturas). As imagens que hoje nos
chegam como fontes históricas podem ter sido percebidas de maneiras distintas
por aqueles que as contemplaram em sua época. Estes problemas, e outros,
pertencem à ordem das fontes imagéticas. Não obstante, o problema da variação
de sentidos típico da palavra pertence, só e mais especificamente, às fontes
verbais.
BIBLIOGRAFIA
BARROS, José D'Assunção. Os Conceitos - seus usos nas ciências humanas. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.
BARROS, José D'Assunção. Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2019.
BARROS, José D'Assunção. A Fonte Histórica e seu Lugar de Produção. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.
BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001 [original publicado: 1949, póstumo] [original de produção do texto:
CHARTIER, Roger. “Textos, impressos, leituras” em A História Cultural - entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.
COSTA, Avelino de Jesus da. (1996). A Chancelaria Real Portuguesa e seus registros, de 1217 a 1438. Revista da Faculdade de Letras – História (Porto). 2ª Série, vol.n°13, p.71-101.
GINZBURG, Carlo. (2002). Relações de Força. São Paulo: Companhia das Letras [original: 2000].
HOLANDA, Sérgio Buarque. (2011). “Sobre uma doença infantil da historiografia” In: Escritos Coligidos – livro II, 1950-1979. São Paulo: UNESP, p.419-434 [original: 1973].
KOSELLECK, Reinhart (2006). Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto [original: 1979].
KOSELLECK. Reinhart. (1992). Uma História dos Conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos, vol.5, n°10, p.134-146.
LE GOFF, Jacques. (1990). História e Memória. Campinas: Unicamp. p.535-549 [original: 1984].
MAQUIAVEL, Nicolau. (2000). O Príncipe (com comentários de Napoleão Bonaparte). Curitiba: Hemus [original: 1513].
MARCONI, Bruno. (2018). Os Mestres de Ofício da Lisboa Medieval – uma análise comparada de sua atividade política entre os séculos XIII e XIV. Rio de Janeiro, UFRJ [Tese de Doutorado].
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