Introdução
Na
atualidade, deparamo-nos com a emergência de uma série de discursos que
permaneceram durante muitas décadas nos subterrâneos da memória e no
“inframundo” do debate público e da política. Apesar de se apresentarem como novidade
ao defenderem um repertório de ideias ultraliberais no âmbito econômico como o
livre mercado, o Estado mínimo que se exime de regulações à vida privada, os conservadores
de ultradireita – que se intitulam como a “nova direita” - criminalizam a
política e as instituições democráticas, propalam seus discursos no espaço
público graças à internet e às redes sociais.
À
bem da verdade, a direita já tinha mostrado seu vigor na virada do novo século,
após jornalistas e alguns cientistas políticos terem declarado a indistinção
entre esquerda e direita e proclamado o fim das ideologias, em decorrência da
queda do socialismo real em 1991, do apogeu do neoliberalismo, das promessas
trazidas pelo tão celebrado fenômeno da Globalização[1] que, no entanto,
transformou a nação em mera província do capitalismo mundial e transnacional[2]. Contribuíram para isto
acontecimentos que marcaram aquela geração como a queda do muro de Berlim, a
dissolução da União Soviética, o atentado às Torres Gêmeas, a crise do Estado
nacional e a emergência de entidades supranacionais como a União Europeia,
gerando, por outro lado, uma reação nacionalista de alguns segmentos. Como
constata Paulo Vizentini, ainda nos anos 1980 todo o espectro político começou
a se deslocar à direita, assistindo-se, em geral, ao afastamento dos governos
social democratas e a sua assimilação da agenda e da visão de direita para que
pudessem restaurar-se no poder. [3]
Assim,
ao longo da primeira década deste século, direita e esquerda precisaram
redefinir seus conteúdos, encontrar sua identidade, fazendo uso de novas e
antigas bandeiras e símbolos. Alguns países europeus enfrentavam desafios por
alguns anos devido à desigualdade no interior do bloco europeu, ou mesmo dentro
de cada país, como na Alemanha após a reunificação; outros sofriam com guerras
civis ou grupos separatistas terroristas que precisavam ser detidos. Estados
europeus, como a França, em meados de 2000, já tomavam medidas de cunho
xenofóbico, reivindicadas pela direita e pela extrema direita, discriminando
ciganos e estigmatizando os adeptos do islamismo, sob pretexto de garantir a
primazia dos valores franceses de igualdade entre os sexos e a laicidade.[4]
Na
última década, o fator preponderante, mencionado por analistas políticos, está
relacionado à crise econômica de 2008 que atingiu o sistema bancário e que não
foi resolvida de imediato, produzindo uma crise política em que, nem a direita,
defensora da austeridade, nem a esquerda, portadora da esperança de
desenvolvimento, geração de empregos e renda, foram exitosas em contornar.
Foram efeitos desta crise na Europa, refluxos de investimentos, altos índices
de desemprego, endividamento dos Estados com o Fundo Monetário Internacional, a
política de austeridade imposta pela Banco central europeu, capitaneado pelo
governo alemão, penalizando serviços públicos, salários e seguridade social. De
modo a justificar os cortes dos gastos sociais, sobretudo a direita, embora a
esquerda tenha assumido pautas anti imigratórias[5], culpabilizou os
imigrantes e a imigração descontrolada pela superlotação e precarização dos
serviços públicos e o endividamento do Estado. A emigração do norte da África
(especialmente Sudão, Congo e Nigéria), o deslocamento de refugiados do Iraque,
do Afganistão e da Guerra na Síria, a migração interna dentro da União
Europeia, os conflitos na Colômbia e Venezuela e o narcotráfico no México,
forçam populações a atravessar as fronteiras, e acabaram sendo responsabilizados
pela saturação do Estado do bem estar social e pela ineficácia ao atender os
cidadãos nativos dos países no qual este existe. Para as classes médias e
trabalhadores assalariados empobrecidos, repercutia o discurso de que seus
impostos pagavam pela proteção e cuidados aos estrangeiros não pagantes.
Pretendia-se estabelecer nova exclusão àqueles a quem foi negada a cidadania, benefícios
da rede de seguridade, afim de economizar milhões de euros aos cofres públicos.
Panorama da extrema direita nos últimos anos
A xenofobia, o racismo e vários tipos de ressentimentos, agravados pelo medo do terrorismo, são verbalizados quando o sistema democrático tolera o intolerante e as mídias naturalizam discursos e personagens que representam tais sentimentos e que passam a atuar politicamente. A face social e ideológica da crise econômica é precisamente este recente ciclo de crise das democracias liberais que eclode em toda a parte.
Nos
anos 1980, os grupos de extrema direita renasceram, porém ainda eram pouco
numerosos, mas bastante ativos[6]. A extrema direita que antes
apenas orbitava os espaços institucionais, participando em um ou outro partido,
liderando uma ou outra associação semi-clandestina e clube de veteranos, sem
tanta expressão numérica, adquire organização e financiadores dispostos a
investir em uma via radical e avessa à conciliação, para alijar partidos de
centro esquerda ou social democratas do poder. No seu discurso e imaginário
acabam estereotipando a política e os partidos, recusando inclusive os partidos
de direita e centro direita tradicionais, impondo a sua agenda ao chamado mainstream da política.
A
partir de 2009 recomeça a ofensiva estado unidense na América latina. O golpe parlamentar em Honduras[7], no Paraguai[8] e no Brasil[9], a tentativa de articular
uma tomada de poder pela oposição na Venezuela e a contestação eleitoral com
episódios de violência na Bolívia abrem o caminho para movimentos de direita
financiados e treinados pela CIA e FBI. A extrema direita, ligada a um setor do
partido republicano, segue a estratégia de comunicação traçada pelo executivo
Steve Bannon, que interferiu nas redes sociais no plebiscito do Brexit na Grã-Bretanha,
e nas eleições de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, variações da guerra híbrida
que compreende Lawfare[10] e golpe brando,
utilizados para alijar lideranças e pautas progressistas. Bannon tornou-se
inspirador dos movimentos de direita no mundo e fundador do The Mouvement, sediado em Bruxelas, financiado
por alguns bilionários, cuja finalidade é reunir e formar líderes de partidos[11] de extrema direita como
Matteo Salvini (Liga) e Giorgia Meloni (Fratelli D’Italia) contra o globalismo
e a esquerda[12].
Estes, por outro lado, são oriundos de partidos conservadores ou de extrema
direita de vários países, mas recusam o rótulo de extrema direita, reivindicam
a nomenclatura de centro direita.
Neste
momento, a direita tradicional neoliberal encontrava-se desacreditada pela incapacidade
de obter taxas de crescimento significativas, assim como não se empenhava em
resolver problemas sociais como a desigualdade de renda e geração de empregos.
Na Áustria, país em que a extrema direita já tinha chegado ao poder em 1999 - o
que colocou o país em uma “quarentena” perante a União Europeia com perspectiva
de expulsão - o ultradireitista Jörg Haider[13] conseguiu apenas 10% dos votos
em 2008, porém o Partido da Liberdade, ainda mais à direita, obteve mais de 17%[14]. Em 2018 e 2019 o partido
de extrema direita formou uma coalização com a centro direita e assumiu a vice
liderança do governo, exemplificando uma certa naturalização do fascismo no
cenário europeu e mundial que foi antecipado pela radicalização da direita
tradicional e busca por uma nova base de apoio eleitoral.[15]
Na
Grécia, o Aurora Dourada, que surgiu na década de 1980 em meio a queda dos
partidos tradicionais, sobretudo do Partido Socialista, é um partido nazista,
militar, masculino, cujos militantes cometeram crimes contra comunistas, além daqueles
contra imigrantes. Seu líder Nikólaos Michaloliákos é descrito como produto da
ditadura de extrema-direita (1967-1974) e seus símbolos foram comparados com a
suástica devido à semelhança. Em 2009 o Aurora Dourada obteve 0,29%
dos votos e em 2012, elegeu 18 deputados para o parlamento grego, com 7% dos
votos, enquanto os partidos tradicionais - os sociais democratas Pasok e a Nova
Democracia (direita clássica) - tinham 77% dos eleitores, em 2012 tinham
somente 32%[16].
Em 2013 já era a terceira força política em meio à ascensão da coligação de
esquerda Syriza[17],
promovendo manifestações com milhares de pessoas. A popularidade do Aurora
Dourada quase duplicou, e diferentes pesquisas mostram um apoio entre 11% e 12%.
O crescimento se deu frente ao ressentimento com as duras medidas impostas pelo
FMI e pelo Banco central europeu, o desemprego de 27% e a completa falta de
debate público sobre o radicalismo do ideário da organização[18] que culpabilizam os
refugiados pela crise. Em 2013, membros da Aurora Dourada assassinaram Pavlos
Fyssas, um rapper antifascista, detonando uma onda de manifestações
antifascistas que colaboraram para o declínio eleitoral ulterior do movimento,
apesar da absolvição do partido no julgamento em 2019.[19]
Na
Itália, Silvio Berlusconi, um bilionário do setor midiático, chegou ao poder
pela primeira vez em 1994 em uma coalizão. Por diversas vezes ocupou o cargo de
Primeiro Ministro por diferentes partidos.[20] Berlusconi situa-se na
centro direita, mas se aliou sempre à extrema direita - à Liga e à Aliança
Nacional (AN), herdeira política do fascista Movimento Social Italiano (MSI), fundado
por ex-membros do regime fascista de Mussolini. Em 2009, a AN foi assimilada
pela sigla do empresário italiano, mas seus símbolos terminaram por ser incorporados
pelo partido de extrema direita Irmãos da Itália (FDI), presidido por Giorgia
Meloni. Também neste ano é fundado o Movimento 5 Estrelas pelo comediante Beppe
Grillo, que surgiu na internet com a proposta de conduzir discussões abertas e
democráticas com a participação de muitos jovens e uma mensagem populista
anti-Europa, anti-globalização e anti-sistema. O Movimento 5 Estrelas arrematou
109 cadeiras parlamentares em 2013, obtendo vitórias regionais e chegando ao
poder em 2019.[21]
Na
Hungria, movimentos de extrema direita sobreviveram durante quarenta anos no underground e ressurgiram com força
política no país.[22] Por muito tempo a
extrema-direita foi representada pelo Partido Jobbik, que surgiu em 2002 como
uma associação juvenil de direita e em 2003 tornou-se partido sob a liderança
de Gabor Vona[23],
com um ideário antissemita, anti globalista, nacionalista e xenófobo. Porém,
após 2014, redefiniu sua linha, tornando-se conservador, mas não mais
antissemita, anti-integração europeia, tornando-se
o segundo maior partido em 2018. Por outro lado, enquanto o Jobbik deslocou-se
ao centro, o Fidesz do ultra conservador Viktor Órban, deixou de ser liberal e
se tornou conservador, nacionalista e populista. Órban formou maioria em 2010,
constituindo, na análise de Agnes Heller[24], uma sorte de tirania em
que partidos de oposição existem, mas não podem chegar ao poder. Órban, que já
tinha sido escolhido Primeiro Ministro entre 1998 a 2002, volta-se para o
repertório de pautas da extrema direita como euro ceticismo, condenação da
imigração, nacionalismo, cristianismo, uma gestão da economia “não liberal”, por
vezes, adotando um discurso antissemita. Heller considera que Órban não é
antissemita e não tem nenhuma convicção firme, mas por oportunismo emprega o
discurso antissemita, de identidade, anti imigração[25], assim como aponta a
oposição como traidora da Hungria, enquanto faz reformas trabalhistas prejudiciais
aos trabalhadores e trava uma batalha cultural nas universidades e escolas.[26] Recentemente, quando a
discípula de Lukács já tinha falecido, em meio a pandemia do Corona vírus,
Órban conseguiu aprovar uma lei que lhe dá poderes extraordinários para
governar por decreto.[27]
A
filósofa húngara aproxima o modelo de seu conterrâneo daquele de Recep Tayyp
Erdogán (AKP), político ultra conservador e nacionalista do Partido da Justiça
e Desenvolvimento, atual presidente da Turquia, que subiu ao cargo em 2014 e
enfrentou uma tentativa malfadada de golpe militar contra si em 2016.[28] O político, que já exercia
o poder desde 2002, alcançando taxas de crescimento expressivas, e em 2013
procurou manter-se no poder, reprimindo protestos, como os do parque Gezi em
Istambul, cerceando a liberdade de expressão, e, através da expulsão de dezenas
de policiais e procuradores, milhares de juízes e promotores, de modo a encobrir
a corrupção de sua administração e por parte de sua família.[29] Seu eleitorado era
composto por conservadores turcos, religiosos praticantes, que por décadas
foram subjugados pela elite secular ligada aos militares. O golpe militar em
2016 contou com apoio de civis e evocava a preservação das tradições turcas que
teriam sido corroídas por Erdogan. Em reação, este fechou o regime, perseguiu
intelectuais, professores, jornalistas, estudantes, milhares de militares foram
presos, proibiu centenas de veículos de comunicação e pediu extradição de
expatriados.[30]
Ele conseguiu ampliar seus poderes como presidente e se reeleger em 24 de junho
de 2018.[31]
Recentemente, Erdogan em um gesto em prol do islamismo conservador, anunciou a
conversão do museu de Santa Sofia, originalmente uma igreja bizantina, em mesquita,
suscitando uma polêmica internacional.[32]
Embora
não se possa associar Erdogan com o neonazismo, as suas estratégias são típicas
da ultradireita, de líderes como Trump e Bolsonaro, ao criar um inimigo interno
e fechar o regime sob alegação do combate ao terrorismo. Outro caso ocorreu em
2014, na Ucrânia, onde, para “mudar o regime” e substituí-lo por um governo
títere da OTAN, foi fomentada uma “revolução colorida”, inicialmente “pacífica”,
tendo como palco a praça Maidan, em Kiev. Logo transformou-se num “putsh”[33] nazista que logrou
derrubar o presidente eleito, Victor Yanukovitch, próximo à Rússia.[34] O parlamento ucraniano formou
um novo governo interino, após destituir o presidente e a primeira ministra Yulia
Timoshenko. Grupos neonazistas infiltrados nos protestos
possibilitaram o golpe de Estado. Possivelmente os manifestantes tenham sido
mobilizados por parlamentares, ou ainda, pelo próprio governo norte americano. Vários
destes subterfúgios de tomada de poder, como a mobilização de jovens pelas
redes sociais e convocação para atos, foram experimentados na Primavera Árabe, em
2011 e 2012 no Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Líbano, entre outros, assim como
nas manifestações de junho de 2013, no Brasil. Sob o clamor nacionalista e anti-russo,
o golpe de Estado foi apoiado por grupos paramilitares neonazistas e
supremacistas, que ajudaram as forças do novo regime a travar uma guerra contra
as cidades do leste, falantes da língua russa e que resistiram ao golpe, assim
como, a assassinar antifascistas, comunistas e judeus.[35] Ao lado disto, como
denuncia o Partido Comunista ucraniano, banido das eleições desde o golpe, os
símbolos comunistas foram declarados ilegais, centenas de monumentos da era
soviética derrubados, incluindo aqueles que homenageavam soldados do Exército
Vermelho mortos em combate contra a ocupação nazista. Como o partido Svoboda deriva
sua ideologia da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, que matou centenas
de milhares de judeus e poloneses no Holocausto, este reabilitou colaboradores
nazistas, como Stepan Bandera[36] considerando-os heróis
defensores da independência ucraniana.[37]
Todos
estes episódios demonstram como a democracia liberal chegou a seu ocaso e a um impasse,
ao passo que uma nova crise financeira se aproxima. Nas eleições de 2019,
Narendra Modi ascendeu como primeiro ministro da India com uma agenda
nacionalista hindu que se precipitou sobre a Kashmira de maioria muçulmana,
cerceando sua autonomia, implementando uma política de censura, repressão e
encarceramentos.[38]
Assim, também Rodrigo Tuterte das Filipinas, eleito com 39% dos votos em 2016,
destaca-se pela violação dos direitos humanos, pela intenção de criar uma
milícia do tipo Esquadrão da Morte e pelas declarações agressivas que se
assemelham às do líder brasileiro Jair Bolsonaro, de extrema direita, eleito no
pleito de 2018[39].
Os
grupos de extrema direita também têm se multiplicado no Brasil e foram
identificadas 334 células com cerca de 5 mil integrantes, sobretudo no sul e
sudeste. Segundo levantamento realizado pela Safernet, organização
não-governamental que promove os direitos humanos na rede e monitora sites radicais,
em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazistas (diante
de 42 em maio em 2019 e 28 em maio de 2018), cada vez mais desinibidos,
insuflados pelo discurso permissivo do presidente Jair Bolsonaro.
Na Polônia, em outubro de 2019, o partido
nacional-conservador Lei e Justiça (PiS) venceu as eleições parlamentares com
43,8% dos votos, o que lhe garantiu a renovação do mandato no comando do país[40]. O PiS pretende alterar a
constituição, tornando a Polônia em um Estado enraizado no catolicismo e
conservadorismo, rejeitando o aborto e direitos LGBT - piores que o comunismo,
em sua visão - defendendo a antiglobalização e o nacionalismo exacerbado e
tende a aproximar-se da extrema direita, atraindo o apoio da legenda
Confederação.[41]
O partido, que tem o apoio do presidente Andrzej Duda, aliado de Trump, já havia
realizado reformas no ensino de história[42], na mídia e na Justiça. Naquele
mesmo ano de 2019, ultranacionalistas marcharam em Varsóvia contra indenizações
pretendidas por organizações judaicas para indenizar cidadãos americanos
sobreviventes do Holocausto e seus descendentes[43].
Mesmo
naqueles locais em que a extrema direita não tomou o poder, como a Suécia e a
França, ela cresceu significativamente, ocupando o segundo lugar em número de
votos nas últimas eleições. Na Suécia, ainda que a imigração não seja um
problema majoritário, o sentimento de abandono diante da aplicação de políticas
neoliberais, segundo Noam Chomsky, garantiu a extrema direita xenófoba 17,5% em
2018.[44] Em 2017 a candidata do
Front National, Marine Le Pen chegou ao segundo turno com 21,3%, perdendo para
Emmanuel Macron com 33,9% do eleitorado. O crescimento do partido, que elegeu
22 deputados ao parlamento europeu, se apoiava no ressentimento frente às populações
de imigrantes, no nacionalismo e no rechaço à integração com a União Europeia,
aos atentados terroristas.
Na
Grã Bretanha, grupos considerados terroristas como National Action (criado em
2013), neonazista e supremacista, ou o White Jihad, com ideias inspirados no
radicalismo islâmico, têm sido proibidos, mas produziam publicidade
profissional até 2016 e assistência social somente aos brancos; suas ideias vão
ganhando espaço no mainstream
político. Sem conseguir ser eleito para o parlamento britânico em 2015[45], Nigel Farage ex-líder do
Partido da Independência do Reino Unido construiu sua carreira política fazendo
a campanha pelo Brexit em 2016, obtendo vitória e estabelecendo uma base de fãs
em torno desta bandeira.
Na
Alemanha do pós-guerra, ex-militantes nazistas continuaram a ocupar altos
postos nos governos democráticos. Em 2018, o grupo Revolution Chemnitz incitava
"guerra civil" em Berlim, em função do assassinato de um alemão de
origem cubana supostamente por um grupo de estrangeiros em Chemnitz. Em seu
manifesto neonazistas pediam ação violenta contra "esquerdistas" e a
"mídia". Em março de 2020, oito neonazistas e skinheads foram presos
e a organização considerada terrorista.[46] Nesta mesma data,
operações policiais em dez estados alemães desbarataram o movimento o grupo
Geeinte deutsche Völker und Stämme (Povos e tribos alemães unidos) e o
Reichsbürger (cidadãos do Reich) –composto por pequenos grupos não unificados que
rejeitam a legitimidade da atual República e da Constituição.[47]
Ao
lado disto, o Partido Nacional Democrático, surgido em 1964, é
um partido nacionalista alemão, principal aglutinador de neonazistas e considerado
o sucessor do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) de
Adolf Hitler. Ao longo dos anos as autoridades tentaram bani-lo, mas a suprema
corte considerou que consistiam de ameaça insignificante à democracia,
alcançando nas últimas décadas cifras inexpressivas, só conseguindo cargos em
assembleias regionais. Em 2014, conseguiu eleger um deputado para o Parlamento
Europeu, apesar das expectativas contrárias[48]: Udo Voigt, um cientista
político, presidente do partido, que foi condenado em 2004 por chamar Hitler de
“grande estadista”.[49] Nos últimos tempos seu
número de militantes caiu pela metade, em meio a brigas, assassinatos e
protestos de extrema direita, os quais culpabilizavam os imigrantes pela
criminalidade urbana e por atos de terrorismo[50]. Muitos votos do NDP
migraram para o Alternative für Deutschland, o maior partido de extrema direita
da história recente, criado em 2013, que é islamofóbico e tem como pauta o
controle dos refugiados. Nas eleições de 2017, o AfD entrou pela primeira vez
no Parlamento alemão, ganhando 94 assentos e conquistando 12,6% do eleitorado
devido a disputas internas e a perda de eficácia de sua estratégia.[51] Nas eleições de 2019, o
Alternative ficou apenas com 1 representante, um resultado pior do que esperado.
Entretanto, os crimes de ódio cometidos por neonazistas cresceram em 2019,
chegando a 22.337 mil.[52]
A
direita alemã fundou mesmo uma biblioteca do conservadorismo (BdK) em 2012, que
foi financiada pelo milionário Folkard Edler e destinava–se a ser um ponto de
encontro para a Nova Direita em Berlim e para expoentes da AfD, mas também é
descrito como um think tank em que
oferece leituras, seminários, conferências.[53] Desde a última eleição para o Parlamento
Europeu, os 9 partidos de extrema direita – que inclui a alemã AfD, os partidos
de Le Pen e Salvini - com 73 eurodeputados formaram um Grupo eurocético de
oposição designado Identidade e Democracia, a quinta maior bancada do
Legislativo da União Europeia. Nas eleições parlamentares a Hungria, Áustria,
Suíça, Dinamarca e Bélgica são aqueles em que o desempenho dos partidos de
extrema direita são mais eficazes em termos de votos. Ainda assim, a Liga de
Matteo Salvini, na Itália, e o Vox, na Espanha, fundado apenas em 2014,
conseguem votações cada vez mais expressivas, obrigando partidos de direita a
compor com estas forças. O Vox, que surgiu de uma ala do Partido Popular
(conservador), faz manifestações públicas abertamente em comícios e redes
sociais e tem mobilizado eleitores frustrados com a esquerda e com a direita,
mas sua estratégia de comunicação é baseada na imagem de seu líder de 43 anos,
ex-membro do Parlamento Basco do PP. Um vídeo projetado nos comícios, mostra-o
cruzando campos e florestas, em uma atitude viril, até os cumes de algumas
montanhas.[54]
A extrema direita e a revisão
do passado
Os símbolos, imagens, ritos, performance e gestual, paramentos, manifestações cênicas, personagens e tradições evocadas são comuns na extrema direita, assim como a recuperação, no passado, do culto dos heróis que representam o ideário autoritário e fascista. Assim, não é incomum a estes partidos e suas lideranças expressarem descontentamento com a escrita do passado, e reivindicarem uma outra memória alternativa àquela tornada oficial como se fosse história.
Na
Espanha, procedeu-se a remoção de símbolos e estátuas, em curso desde a lei
memorial de 2007, que também proibiu as manifestações de homenagens que sempre
se realizavam no dia 20 de novembro (dia da morte de Franco), junto ao
gigantesco mausoléu que o imortalizaria em Valle de los Caídos. Este mausoléu
estava sadicamente localizado ao lado do túmulo de milhares de vítimas desconhecidas
da Guerra Civil e do franquismo, cujos restos mortais eram reivindicados pelos
familiares. Ainda que o governo socialista que efetivou a exumação tenha assumido
todas as despesas[55], seguindo recomendações
das Nações Unidas, a família do ditador resistia contra a remoção, apelando ao Supremo
Tribunal.[56]
Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita Vox chamou de
"profanação" a exumação do corpo de Franco em 2019 e afirmou que o
verdadeiro objetivo do presidente do governo, o socialista Pedro Sánchez, é
"derrubar" o rei Felipe VI. Em Santander, o dirigente regional do
Vox, Ricardo Garrudo, concluiu seu discurso apelando a uma "Espanha livre,
(...) unida e grande outra vez", recordando o lema franquista de
"Uma, grande e livre"[57].
Os
Estados Unidos da América têm sido palco de disputas pela memória que repercutiram
ao redor do mundo e se dão no âmago de conflitos raciais. Em 13 de agosto de
2017, em Charlottesville, na Virgínia, a Unite the Right organizou um comício
em que confrontava as autoridades locais contra a retirada da estátua de Robert
E. Lee de uma praça. Lee foi o general que conduziu suas forças militares dos
Estados Confederados à guerra civil contra o Norte, que já havia abolido a
escravatura, assim sua estátua era o símbolo dos valores sulistas. Os
supremacistas brancos armados, carregando a bandeira dos Estados Confederados,
acenderam tochas em alusão à Ku Klux Kan; outros assumidamente nazistas, foram
confrontados por manifestantes antifascistas.[58]
Três
anos depois, o assassinato de um homem negro, Georg Floyd, por um policial
branco em Mineápolis detonou uma série de protestos contra a violência policial
e o racismo. Em seguida, estátuas de Cristóvão Colombo foram derrubadas,
incendiadas, decapitadas ou jogadas no lago ou rio na Virgínia, em Baltimore,
em Boston, em Miami, assim como o monumento ao líder confederado o general
Williams Carter Wickham e ao traficante de escravos Edward Colston do século
XVII em Briston e Churchill em Londres, por serem consideradas símbolos
racistas. Em decorrência desta voga antirracista, o prefeito de Londres, o
jurista e trabalhista Sadiq Khan, ordenou uma revisão das estátuas e nomes das
ruas, afirmando em seu twitter: “Triste verdade que muito da nossa riqueza foi
derivada do comércio de escravos – mas não tem que ser
celebrada em nossos espaços públicos”.[59]
Os
lugares de comemoração são suportes de uma memória coletiva que possuem um
poder de coesão identitária que mobiliza e faz predominar uma narrativa sobre o
passado e sobre o presente compartilhada pela comunidade.[60] Como observa Michel Pollack,
a memória e a identidade são valores negociados ou disputados em conflitos
sociais que opõem grupos políticos visando mudar ou “rearrumar” a memória.[61]
A
frequência de citação histórica pelos movimentos de extrema direita não é
exclusiva desta vertente ideológica, haja visto que a história fornece todo um
repertório de representações com uma força simbólica muito grande para os
contemporâneos, como reconhecia o filósofo Walter Benjamin em suas teses sobre
a filosofia da História. Na França, o Front Nacional, enquanto ele existiu,
fazia referência a todo momento ao passado do regime de Vichy.[62] Desde sua criação, todo
dia 1º de maio, o Front Nacional liderava uma parada para homenagear Joana
d’Arc na frente da estátua na Place des
Pirâmides. A santa católica é apropriada pelo partido como símbolo da
genuína identidade da França branca[63]. Seu fundador honorário,
Jean Marie Le Pen, criou os comités Jeanne, depois de ser expulso do partido em
2015, por reafirmar (como em 1987) que o Holocausto não passou de um detalhe na
história da Segunda Guerra Mundial[64].
Se
o Rassamblement Nationale de Marine Le Pen[65] (novo nome do Front
National desde 2019) ou o Svoboda, da Ucrânia, negam qualquer pecha de extrema
direita ou referência ao nazismo e à herança hitlerista, outros partidos e
organizações criam associações propositalmente, como os expoentes do governo de
Jair Bolsonaro em alusões ao nazismo[66] e aos supremacistas
brancos estado-unidenses[67]. O ex-militar mimetiza o
presidente norte-americano Donald Trump, que compartilha publicações de supremacistas
nas redes sociais[68]. No Brasil, recentemente,
emergiram toda a sorte de negacionismos e, sobretudo, a reabilitação da
ditadura civil militar, ao mesmo tempo em que se contesta ou minimiza as mortes,
a tortura e a apologia à tortura.
Negacionismo histórico
As tendências atuais devem muito aos movimentos que ocorrem no centro do poder mundial, nos Estados Unidos, como os movimentos anti vacinação, grupos que defendem a terra plana e negam descobertas científicas. São notórios os julgamentos que foram protagonizados desde os anos 1920 nos estados norte-americanos em consequência de leis estaduais que criminalizaram o ensino da teoria da evolução das espécies. Desde o final dos anos 1970 e com bastante vigor após 2001, surgiram iniciativas de aprovar uma legislação anti evolução em vários estados, que teve êxito apenas em Louisiana.[69] Esta tensão entre ciência e religião se prolongou com associações criacionistas que, inclusive no Brasil, pretendem obrigar o ensino do criacionismo nas escolas como uma teoria com a mesma validade heurística que o darwinismo. Na atualidade vigora na academia a proposta do “Design Inteligente” que dá ao criacionismo contornos “científicos” ao considerar verdadeira a existência de um Deus[70], concepção defendida inclusive pelo presidente da Capes escolhido pelo governo Bolsonaro.
Ainda
no século XIX, surgiram ligas em muitos estados norte-americanos que não se
restringiam a um partido apenas. Estas ligas levaram a causa da anti vacinação
aos tribunais e contribuíram para reduzir drasticamente índices de vacinação
nos Estados Unidos. Os grupos anti vacina atribuem mortes e doenças às imunizações,
querem garantias de que o indivíduo poderá escolher se quer ou não ser inoculado,
e, assim, recorrem contra leis estaduais. Com a epidemia de corona vírus estes
grupos fazem coro contra a arbitrariedade dos decretos de quarentena e exigem
garantias de que crianças não serão obrigadas a serem imunizadas.
O
negacionismo climático também ganhou novos contornos com a epidemia do
Covid-19. Nos Estados Unidos e no Brasil, grupos anti ciência que já atacavam os
modelos climáticos, fazem o mesmo com as medidas sanitárias e de isolamento
social. Levando o questionamento ao congresso americano, distorcem dados para
desqualificar pesquisas sobre a pandemia.[71] Quanto ao negacionismo
climático, apesar do quase consenso da comunidade científica de que a mudança
climática é causada por uma ação humana prejudicial, uma minoria conseguiu
desorientar a opinião pública desde 1989, patrocinada por associações de
capitalistas nos Estados Unidos, cujos interesses econômicos poderiam ser
prejudicados, o que se agravou na gestão de George W. Bush, a partir de 2000.[72] Ainda que minoritários,
os negacionistas assumem uma posição dogmática e gozam de grande projeção
midiática, apoiando-se em uma retórica que destaca a falta de certeza
científica[73],
desacreditando cientistas, políticos, ativistas, como fazendo parte de uma frente pela mudança
climática.
O negacionismo histórico, assim como as
outras modalidades de negacionismo, contestam interpretações consensuais ou
predominantes no meio acadêmico, a partir do ceticismo. Este se beneficia do
relativismo pós-moderno, do fundamentalismo religioso do neoconservadorismo e da
popularização daquilo que se designou como pós verdade, instituída como arma
política, quando as opiniões pessoais e percepções subjetivas podem adquirir
peso equivalente aos fatos.[74] Lançando dúvidas sobre os
testemunhos contemporâneos, sobre a ausência de fontes aceitas e estabelecidas,
desconstruindo conceitos - o que retira a força dos fenômenos descritos– pretende-se
verter uma reinterpretação sobre o passado pelo prisma revisionista, o que
geralmente atende a interesses de grupos econômicos.
O
revisionismo em si não é alienígena ao trabalho do acadêmico, do cientista, do
filósofo, ou do historiador. Através da revisitação de convicções dos antigos
gregos e da aplicação do método experimental, a ciência moderna se afirmou,
rompendo com o senso comum.[75] Na física moderna,
concorrência e crítica operaram de forma mais frequente do que a cooperação,
assim como a contribuição individual reside em demonstrar matematicamente uma
teoria ou propor a solução para as limitações de um dado modelo teórico. Ao
ponto de que, por vezes, um mesmo cientista, como Steve Hawking, refute
proposições formuladas em uma fase anterior da sua carreira.[76] Na
biologia, Charles Darwin não apenas superou o Chevalier de Lamarck, naturalista
francês, mas provocou uma profunda revisão em concepções filosóficas e
religiosas com a publicação de A Origem
das Espécies em 1859.[77] Karl Marx, por exemplo,
utilizava a crítica como forma de desmontar argumentos de filósofos influentes e
teorias contemporâneas como os neo hegelianos e os economistas políticos
liberais. Mesmo na literatura e nas artes, ressalta-se o papel da crítica na
especialização do campo e na constituição do cânone.
Para
o historiador, a crítica erudita dos documentos foi fundamental para a
profissionalização da disciplina no século XIX. Ao lado disto, à nível da
produção de conhecimento, a história é continuamente reescrita, nas palavras de
Adam Schaff, as atitudes e as opiniões dos historiadores variam porque são
função das condições e das necessidades atuais da vida social. Uma mudança
nestas condições e nestas necessidades é inevitavelmente seguida de uma mudança
nas atitudes e nas opiniões dos historiadores, e, portanto, na produção das
suas atividades científicas.[78] Neste sentido, Enzo
Traverso, que questiona os usos do termo revisionismo e suas implicações, constata
que as revisões podem estar ligadas a novas fontes antes ignoradas ou
inacessíveis, por implicar em uma mudança de enfoque, de objeto e do
estabelecimento de novos fatos, mas remetem de forma mais profunda à mudança de
paradigma interpretativo e de perspectiva histórica.
Enzo
Traverso salienta que a “história se escreve sempre no presente e o
questionamento que orienta nossa investigação do passado se modifica segundo as
épocas, as gerações, as transformações da sociedade e as lembranças da memória
coletiva”.[79]
A imagem do passado não é petrificada, imutável[80], é, portanto, natural que
as próximas gerações a perceberão em termos diferentes de nós, sobretudo em
função da distância temporal (perspectiva) e emocional dos objetos, a partir de
novos olhares produzidos por novos acontecimentos.
Deborah
Lipstadt faz uma distinção entre revisionismo histórico e negação, destacando
que o legítimo revisionismo implica um refinamento do conhecimento sobre um
evento histórico através do exame de dados empíricos novos e irrefutáveis e a
reinterpretação destes dados.
A
revisão, assim, é inerente ao processo de interpretação e de investigação, mas
é, igualmente, resultado do amadurecimento dos debates dentro de uma comunidade
científica. Geralmente, não é produto de decisão individual, mas de um acúmulo
de descobertas e de pesquisas que preenchem os critérios do campo, ao serem submetidas
à avaliação dos pares. O negacionismo, por outro lado, acaba por recusar os
fatos em si que busca reinterpretar.
Revisar
as interpretações sobre a Primeira Guerra Mundial, Revolução Francesa, a
revolução Russa, Guerra Fria, o Tráfico Negreiro, ou a Ditadura civil militar brasileira,
é um exercício legítimo e necessário. Na historiografia inglesa, os
historiadores marxistas ligados ao partido comunista da Grã-Bretanha como
Edward Thompson, Christopher Hill, Eric Hobsbawm, esforçaram-se em elaborar
individualmente e coletivamente uma história popular da Inglaterra a partir de
uma perspectiva de baixo para cima e relacional, divergindo da orientação
predominante de uma história das elites e do progresso. Ao lado disto, os
historiadores marxistas, a maioria divergente da linha de orientação do Partido
Comunista da Grã-Bretanha, reavaliaram o conceito de classe a partir da noção
de experiência, rompendo com o marxismo mecanicista, ao defenderem a
determinação recíproca da superestrutura (ideológica, cultural, religiosa,
política) sobre a base econômica.
Por
volta dos anos de 1950, enquanto alguns historiadores ingleses reviam a
participação da gentry na revolução,
historiadores ingleses e franceses da Revolução Francesa, tal qual Albert
Cobban, que escreveu em 1955 The myth of
the French Revolution, François Furet ex-comunista que publicou com Denis Richet
La Révolution Française (1965) e
também dois livros importantes do revisionismo Pensar a Revolução Francesa (1978), Dicionário Crítico da Revolução Francesa (1988)[81], efetuaram crítica
idêntica, contrapondo-se à historiografia marxista (Albert Soboul, etc.), refutando
que teria se tratado de uma revolução burguesa[82] uma vez que, segundo esta
interpretação, a França já não era feudal, mas sim despótica[83]. Esta corrente interpretativa,
cujo ápice foi o bicentenário da Revolução, não adquiriu sua notabilidade pela
pesquisa extensiva com fontes primárias e gerou uma vigorosa reação
pós-revisionista crítica nos anos seguintes.[84] A respeito do anti
revisionismo, o historiador Enzo Traverso alerta para que este não se torne militante,
no sentido, por exemplo, do anti fascismo institucionalizado, pois não será um
antídoto eficaz contra o revisionismo e, tampouco seria útil se se transformasse
em um “religião civil”, como no caso da Shoah[85].
O
revisionismo pode ocorrer com vistas a disputar determinada orientação política
ou visão de mundo, fazendo prevalecer uma interpretação sobre o passado como
verdadeira, coadunando com um projeto de poder. O termo revisionismo, por
exemplo, começou a ser empregado no início do século XX para designar um desvio
nas interpretações ortodoxas do marxismo do Partido Social Democrata Alemão que
derivavam da obra de Marx e Engels. Incumbido de dotar o partido de uma
doutrina reformulada para atender aos propósitos práticos e demandas imediatas,
Eduard Bernstein, secretário de Friedrich Engels, teorizou o socialismo
evolucionário que propunha uma revisão crítica de Marx, sobretudo da dialética
hegeliana contida em seu pensamento e da filosofia da história marxiana.[86] Contestava o caráter
inevitável da revolução proletária[87] e acaba por romper com a
perspectiva revolucionária, adotando o reformismo, confiando no potencial
emancipador da democracia burguesa e na tomada de poder por vias legais.[88] Foi essa revisão da
caracterização do capitalismo por Marx que foi criticada por Lenin, Kaustky e
Rosa Luxemburgo e foi rejeitada formalmente pelo SPD em 1903, mas que acabou
por inspirar as políticas mais moderadas do partido na Alemanha de Weimar na
década de 1920, removendo os obstáculos para a aliança parlamentar com a classe
média liberal e com o campesinato, do ponto de vista de Bernstein, cruciais
para a transformação pacífica e gradativa do capitalismo.[89]
Da
mesma forma, o revisionismo desencadeado pela denúncia dos crimes de Stálin por
Nikita Kruschiov em 1956 faz parte de um projeto de substituição de um grupo
por outro - o grupo de Kruschiov, que foi também do círculo de Stálin. Josep
Stálin, secretário geral do Comitern, faleceu em 1953 e foi homenageado pela
população, inclusive por opositores e por estadistas ocidentais.[90] No entanto, a partir do
vazamento do relatório Kruschiov para a imprensa ocidental- que inicialmente
foi lido no salão do Kremilin em 14 de fevereiro de 1956 no XX Congresso do
partido Comunista da URSS para mil e quinhentos delegados – deflagrou-se
movimentos contra a ocupação na Hungria, Polônia e em todo o bloco socialista.[91] Daria início à chamada
“desestalinização” da União Soviética que resultaria na libertação de 81 mil
presos de campos de trabalhos forçados, de outros milhares de presos políticos
e no resgate da memória dos líderes e militantes executados nos “processos de
Moscou”.[92]
Em decorrência, uma onda de críticas se seguiu, partindo dos próprios militantes
dos partidos comunistas ao redor do mundo[93], assim como dissenções e uma
safra de uma literatura anti soviética. A memória coletiva foi então recriada,
prisioneiros políticos sob o governo de Stálin foram reabilitados, vilas e
cidades batizadas (como Stalingrado) com nome do ex-secretário rebatizadas e os
restos mortais do líder soviético foram removidos do Mausoléu, ao lado de onde
repousava o corpo de Lenin, na Praça Vermelha, em 1961.[94]
Assim
como, ao se falar de revisionismo no âmbito do marxismo, se atribui um sentido
negativo, também ele é problemático em outros campos. Interessante é que,
geralmente, a iniciativa de fazer a revisão tem origem fora do meio
historiográfico profissional e tem restrita adesão destes especialistas. O
desafio parte de movimentos políticos ou sociais, de cineastas (Lars Von Trier,
David Cole), de escritores (Renaud Camus, Jack Donovan, Peter Handke, o
dramaturgo Botho Strauss, o romancista Walter Walser, o filósofo Peter
Sloterdijk[95]),
jornalistas (Otávio Frias Filho, Ali Kamel, Judi Rever, Diego Mainardi, Augusto
Nunes, Alexandre Garcia), políticos (Le Pen, Dogu Perincek, Milorad Dodik), governantes
(como Armadinejad, Erdogan, Shimon Peres, Trump, Bolsonaro).[96] Motivações não faltaram: como
promoção de partidos políticos, mudanças de regime, projeção midiática e
mercado editorial e visualizações nas redes sociais. A iniciativa pode
mobilizar alguns atores não especializados ou vinculados a outras áreas que
passam a proclamar as falsificações históricas como legítimas convicções sobre
a história e interpretações em disputa, quando na verdade elas não estão em
disputa no campo científico. A mudança de correlação de forças políticas, ocasionalmente
favorece a emergência das demandas de grupos que, por décadas, permaneceram
sublimadas, propiciada pelo ambiente democrático que permite que estes
ressentimentos assumam o estatuto de opiniões.
Como
explica o sociólogo francês Pierre Ansart, um dos objetivos e resultados da democracia seria de
substituir as violências pela tolerância, o enfrentamento em razão de ódios,
pelo confronto de opiniões. A democracia visa construir espaços de diálogos e
de reflexão tendo como efeito,
moderar os ódios sociais, através da liberdade de expressão das
hostilidades e sua transformação em reivindicações racionalizadas e da
legalização das oposições.[97] O que ele chama de “gestão
democrática dos ressentimentos” se baseia na pluralidade dos partidos que
concorrem e no encontro conflituoso das frustrações e hostilidades, cada
partido é levado a insurgir-se contra o que considera injustiça ou a limitação
dos seus direitos.[98] Assim, a democracia, na
visão do autor, constituiu-se de um manancial para líderes políticos evocarem estes ressentimentos
e mobilizarem eleitores a seu favor. Estes também reconhecem estas ideias como ameaça
simbólica aos representantes que permanecerem indiferentes a sua pressão.
Eventualmente,
grupos ou partidos ultraconservadores, ou mesmo, de extrema direita organizados,
incorporaram os ressentimentos de segmentos alijados do poder e conseguiram
canalizá-los para vitórias eleitorais. Como por exemplo, na década de 1990 o
governo do Primeiro Ministro/presidente José Maria Aznar (1996-2004) do Partido
do Povo, de centro direita, chegou ao poder na Espanha em meio à guerra contra
o ETA, com uma agenda revisionista do franquismo. A partir de então uma reforma
curricular foi tentada, mas rejeitada, e propôs-se o que os opositores chamaram
de “revisionismo”. Anos mais tarde, Aznar endossou a tese do escritor revisionista
Pío Moa ao defender que a Guerra Civil deslanchou em 1934 - ao invés de 18 de
julho de 1936, quando do levante dirigido pelo ditador Francisco Franco.
Pío
Moa, dizia não pertencer a partidos políticos, também não era historiador de
formação[99],
porém se considerava como tal. Publicou em 1999 o livro Los mitos de la Guerra Civil[100] que vendeu 300.000
exemplares, número 1 em vendas durante seis meses consecutivos e 1934: Comienza la Guerra civil. el psoe y
esquerra emprenden contienda lançado em 2004, em que, pesquisou no arquivo
de Largo Caballero. Moa alegou que os documentos foram pouco pesquisados ou
inteiramente negligenciados por historiadores com tendências ideológicas. Na
sua versão, ambos os lados foram responsáveis pela Guerra Civil: a esquerda
que, apesar de não haver perigo fascista, partiu para a guerra acreditando que
poderia ganhar e seria subversora da democracia entre 1933 e 1936 para impor
uma ditadura do proletariado de tipo soviético. Os livros revisionistas, a
maioria deles não escritos por historiadores, tornaram-se best sellers, os que mais no final, partiram de historiadores de
formação, propriamente revisionistas, venderam menos.
A
obra de Moa dialoga diretamente com o presente ao afirmar que o Partido
Socialista Espanhol (PSOE) se recusa a reconhecer sua participação no início da
guerra porque faz dela uma arma que a legitima perante a opinião pública, ao inferir
que a direita de hoje é “filha de assassinos”. Também acusa os historiadores e
os membros do partido socialista que o detratam de negarem os “fatos históricos”
e recuperarem intencionalmente ódios e rancores do passado.[101] Na década seguinte a
interpretação de Moa ganhou adeptos do interior do campo historiográfico,
dentre historiadores que tinham como objeto de estudo a direita e suas
organizações, como o respeitado especialista Stanley G. Payne e Pedro Carlos González Cuevas, professor
titular de História das Ideias Políticas e de História do Pensamento Espanhol
na UNED. Anunciavam que sua
intenção era desconstruir mitos propalados por um segmento ideologicamente
motivado da historiografia e comprometido politicamente, que, além disto,
negligenciava as fontes e dedicava-se de toda a forma a defender uma visão
heroica da democracia republicana.
Os
historiadores reagiram imediatamente. Em 1999 escreveram livros como a
coletânea En el combate por la historia,
editado por Angel Viñas e com a contribuição de alguns especialistas em
franquismo que bateram duramente no
revisionismo. Segundo eles, os revisionistas amadores, Moa, Vidal, Martín
Rubio, entre outros, não abordam assuntos históricos através de um aporte
científico. Entre 2005-2006, três livros foram escritos por historiadores
profissionais editados por Alberto Reig Tapia e Francisco Espinosa Maestre
realizando a crítica ao revisionismo. Mas neste momento a divergência não era
mais entre amadores e profissionais, porque a interpretação dominante sobre
Guerra civil havia sido desafiada por tendências dentro do campo historiográfico
que concordavam com o revisionismo e dirigem-se a um público de iniciados, tais
como Álvarez Tardío, Villa García, del Rey Reguillo entre outros. Depois,
Stanley G. Payne, que recusava a pecha de revisionista, publicou a biografia do
general Franco com edição de Jesús Palacios Tapias, ferrenho detrator dos anti revisionistas.
Porém, apesar da respeitabilidade de Payne, o revisionismo continua pouco
credível entre historiadores.
A
adoção da Lei da Memória Histórica em 2007, aprovada por um Conselho de
ministros e instituída sob o governo de Zapatero que reconhecia a injustiça,
perseguição e violência representada pelo exílio de muitos espanhóis durante a
Guerra Civil e a ditadura, ao conceder cidadania aos netos de espanhóis que
vivessem fora do país. Entretanto, sua tentativa de reformulação posterior por
este grupo revisionista parece que colocou “lenha na fogueira” do debate
público. Assim, apesar da Anistia e da oposição do Partido Popular (PP) de
direita, a lei de 2007 foi aprovada e reconhecia as vítimas do franquismo, mas
desagradou grupos que trabalhavam pelo reconhecimento dos restos mortais de
desaparecidos do regime nas valas, como a Associação para a Recuperação da
Memória e o Foro por la Memoria, que gostariam que a
lei tivesse reconhecido a responsabilidade do Estado e os crimes cometidos por
este contra a humanidade. Desde pelo menos 2004, órgãos governamentais e da
sociedade civil tem exigido a remoção de símbolos e monumentos do franquismo
sob o protesto de revisionistas como César Vidal. Em 2011, com o PP no poder,
desapareceram do orçamento os recursos para a busca de desaparecidos e restituição
dos direitos das vítimas; a partir de 2013 a reparação tornou-se letra morta,
com desativação da Oficina de Vítimas. Assim, o Psoe denuncia o descumprimento
da lei pelos governos do PP e se colocam em favor da justiça e reparação, ao tentar
reformar a lei em 2017. Sustentavam a proposta de declarar a nulidade das
decisões dos tribunais franquistas, de desenterrar o corpo do general Franco
do Vale dos Caidos, de remover honras e criar uma Comissão da Verdade, e, com
apoio de comunidades de acadêmicos, construir um relato que abandone a
equidistância e a responsabilidade compartilhada da Guerra Civil, defendida
pelos revisionistas. No entanto, 200 personalidades subscreveram um Manifesto
pela história e liberdade (Manifiesto
por la historia y la libertad), encabeçado por Stanley Payne e
Juan Velarde, contra a proposição da lei, acusando-a de ser um “historicidio”,
de “reabrir velhas feridas”, de ser “de tipo soviético", totalitário ao buscar
impor um pensamento único:
Não se pode impor por uma lei um único relato da história, já que nenhuma lei deve ou pode variar os feitos históricos. Não se deve apagar por meio de uma lei a cultura, o sentimento nem a memória de um povo, e menos ainda por razões ideológicas. (...) Legislar sobre a história ou contra a história é, simplesmente, um signo de totalitarismo. E é antidemocrático e liberticida. (...) Com a implantação de uma "Comissão da Verdade", ameaça com penas de cárcere, desqualificação para a docência e elevadas multas a quem mantenha opiniões divergentes da 'verdade única', a destruição e queima de obras ou estudos declarados não 'gratos', e a expropriação, destruição ou transformação de uma parte do patrimônio histórico-artístico da etapa mais recente de Espanha.[102] [tradução nossa]
Em
princípio, o teor do manifesto coincide com a preocupação exposta em outros
abaixo assinados do mesmo teor de historiadores franceses contra as leis
memoriais e brasileiros a favor das biografias. O documento afirma ainda que a
investigação histórica tem que se dar em plena liberdade e “principalmente
porque nenhum parlamento democrático pode ou deve legislar sobre a História,
pois ao fazê-lo, criminalizaria a História, estabelecendo um pensamento único,
ao impor-se pela força e pela violência do Estado”.[103] Tal argumento é convincente,
a ponto de que qualquer praticante da ciência histórica concordaria, omite tão
somente que, diferentemente das vítimas do Holocausto, os mortos, desaparecidos
e torturados pelo regime de Franco nunca viram punição e nunca obtiveram compensação
e reconhecimento estatal. A Comissão da Verdade, longe de ser manifestação do
totalitarismo, poderia garantir o direito à memória às vítimas, como se deu na
Argentina.
Os
regimes de ultradireita, alguns referenciados acima, preferem um liberalismo
total no campo da história, uma vez que ao desacreditar historiadores,
sociólogos e antropólogos perante a opinião pública, estão liberados para
propagar as mais distorcidas versões. Jair Bolsonaro, ao ser eleito presidente
em 2018, nomeou indivíduos para seu ministério conservadores que externaram em
várias ocasiões seu desprezo pela ciência e pelo meio acadêmico e
universitário. Ele vetou, por exemplo, o projeto de lei que regulamenta a
profissão do historiador que já tramitava desde 1968 no Congresso, alegando que
restringe “o livre exercício profissional” e fere o princípio constitucional
que determina ser livre “a expressão da atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.[104] Não existe lógica aparente
no veto, haja visto que profissões de geólogo e músico já são regulamentadas há
muitas décadas, a não ser que a não regulamentação da profissão do historiador
permite que qualquer um, sem formação específica e sem uma carreira reconhecida,
opine e emita julgamentos sobre a história, a despeito de critério e
fundamentação, como a de que “o nazismo é de esquerda”, de que não houve
ditadura no Brasil ou de que na ditadura não havia corrupção, violência ou
censura.
As
declarações do presidente, de seu vice e do conjunto do seu governo corroboram,
frequentemente, com o revisionismo histórico. Afirmações como de que a
escravização dos africanos para o Brasil foi realizada pelos próprios e que os
portugueses nunca pisaram na África, ainda durante a campanha de 2018[105], a suavização da
violência da colonização, da escravidão indígena ao exaltar a harmonia entre as
raças, o “empreenderismo” do colonizador português, propalando estereótipos
raciais da década de 1920.[106] Sérgio Camargo, secretário
da cultura, além de insultar o movimento negro e o ícone Zumbi dos Palmares, alegou
que a escravidão foi benéfica para seus descendentes.[107]
Em
várias ocasiões públicas o chanceler Ernesto Araújo negou ou minimizou a
ditadura civil militar de 1964, enquanto Bolsonaro chegou a declarar que não teria
existido ditadura (por isto teria sido retirada das questões do Enem). Estas
declarações expressam uma memória sublimada da caserna que reapareceu, evocando
a versão do livro Verdade Sufocada do
torturador coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra chefe do Doi Codi do II Exército
– que Bolsonaro ostenta em suas lives no you
tube. Este ressentimento parece ter contagiado, inclusive, gerações de
militares que não vivenciaram a ditadura a ponto de apresentarem resistência às
atividades da Comissão da Verdade da Justiça e da Memória cujos trabalhos foram
encerrados em 2014.
O
presidente assinou o decreto 9.759/2019 em abril de 2019, referente ao
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que "extingue e
estabelece diretrizes, regras e limitações" em conselhos, grupos e
comissões da administração pública federal direta, autarquias e fundações. Na
prática ele suspende os trabalhos de identificação de ossadas do Grupo de
Trabalhos de Perus (GTP), ligado à Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos, que realizam a análise dos corpos encontrados na Vala
do Perus, Zona Norte de São Paulo.[108] Ao lado disto, o governo
desqualificou o documento final da Comissão da Verdade e realizou a troca da
maioria dos representantes da Comissão de modo a obstaculizar investigações, indeferindo
a reparação a perseguidos políticos.[109] Bolsonaro fez vários
movimentos de reabilitação das ditaduras e da repressão: elogiou Alfredo
Stroessner, ditador paraguaio e Augusto Pinochet, ditador chileno, ambos
sanguinários e criminosos; recebeu a viúva de Ustra no Palácio do Planalto e o
chamou de “herói nacional” por ter derrotado o comunismo, além de ter recebido
o torturador Curió.[110]
O
movimento Brasil livre produziu uma série de documentários do Brasil Paralelo,
empresa de ciber ativismo fundada em 2016 por Lucas Ferrugem, Henrique Viana,
Filipe Valerim - três jovens que cursavam Administração na Escola superior de
Propaganda e Marketing em Porto Alegre. Foram 4 documentários, uma trilogia Pátria
Educadora que foi exibida na TV Escola, sob o governo Bolsonaro. A intenção era
combater o comunismo, a esquerda e, através da difusão cultural, impedi-la de
voltar ao poder. Para realizar os seis documentários eles entrevistaram
exclusivamente personagens associados, ou assumidamente de direita, e não
especialistas nos temas, como Janaina Paschoal, Olavo de Carvalho, Miguel
Nagib, Fernando Holiday e o próprio presidente Bolsonaro, para abordar vários
temas como o Golpe de 64. O filme “1964: O Brasil entre armas e livros” estreou
dia 31 de março, em alusão ao dia da quartelada e justifica o movimento de
derrubada de João Goulart como reação à ameaça de golpe comunista. Recomendada
pelos filhos do presidente e saudada nos círculos de direita, teve pré-estreia
em vários cinemas de grande circuito e 6 milhões de acessos on line na
plataforma da Amazon Prime. Apesar dos proprietários negarem quaisquer relações
com o governo, a empresa de áudio visual se aproximou da secretaria de cultura,
propôs um projeto junto à Funarte de exibição de seus documentários em teatros
federais, além de o filho do presidente ter retuitado e recomendado um pedido
de contribuição para um crowdfounding
para produzir um novo documentário do Brasil Paralelo.[111]
Há revisionismos que giram em torno de
argumentos científicos dentro dos marcos da comunidade de especialistas, como o
que envolveu o historiador Ernst Nolte e o filósofo Jürgen Habermas no final
dos anos 1980, chamada de Historikerstreit
(de 1986-1987). Justamente porque o “Passado não quer passar” (título do artigo
de Nolte para o jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung
(FAZ) em 1986) e nem pode, é que os alemães precisaram lidar com determinados
fatos, de que milhões aderiram ao nacional socialismo, inclusive os industriais
alemães que haviam se beneficiado com o emprego da mão de obra escrava sob o
regime nazista. Muitos dos que haviam participado da perseguição racial
continuavam colaborando com os governos de Adenauer e mais tarde o de Helmut Kohl.
No âmbito da historiografia alemã se desenvolveu uma tendência de culpabilizar
Hitler e um pequeno número dos principais dirigentes nazistas. Ernst Nolte,
Andreas Hillgruber e Joachim Fest assumiram uma estratégia de comparação do
Nazismo com outras ações genocidas ou racistas, especialmente da União
Soviética stalinista (também dos EUA e dos sionistas). Eles saiam na defesa da
posição alemã na Segunda Guerra como se tivesse se tratado de uma guerra
defensiva contra a oposição de judeus e comunistas. Jürgen Habermas atacou o
caráter político de tal posição, porém apenas em 1996, com a publicação de um
livro de Daniel Goldhagen, transferia-se a culpa pelo genocídio à totalidade do
povo alemão. A controvérsia intensificava-se contra historiadores profissionais que
aceitaram, em troca de altas remunerações, redigir histórias das empresas
alemãs em que os empresários apoiadores de Hitler eram inocentados. A escola historiográfica
de Bielefeld (Hans-Ulrich Wehler, Jürgen Kocka) revisitou a história alemã do
período, especialmente no caso do extermínio frio e programado dos judeus, mas
também o dos eslavos nas regiões ocupadas.[112]
Negacionismo e Holocausto
O mais frequente uso do termo revisionismo se refere ao contexto específico da história alemã da Segunda Guerra Mundial. Para o historiador da antiguidade Pierre Vidal-Naquet no livro Assassinos da memória (1995), o revisionismo é um conceito circunscrito ao Holocausto. Conforme define Maio, o revisionismo é a releitura do passado, onde o nazismo perderia a sua maligna singularidade, servindo de fonte fundamental para a construção de novas identidades políticas. Mas o limite entre questionamentos legítimos e as tentativas de desqualificar assassinatos em massa premeditados contra a etnia é tênue, a realidade que reexaminam traumática, complexa, muitas vezes pouco documentada pela violência envolvida e ainda atual, no sentido que repercute nos contemporâneos e suscita paixões.
O
negacionismo, portanto, nunca é admitido por aqueles que o professam, que
reivindicam, ao invés disto, o revisionismo como uma forma mais aceitável e
dissimuladora de demolir verdades históricas consolidadas. Conforma Deborah
Lipstadt observa:
Porque o movimento [negacionista] disseminou estes mitos não é nem acadêmico nem historiografia, eu escolhi me distanciar do termo revisionismo sempre que possível e ao contrário usar o termo negação para descrevê-lo. A escolha pelos negacionistas do nome revisionista para descrever-se é indicativo de sua estratégia básica de enganação e distorção e de sua tentativa de retratar-se como historiadores legítimos historiadores comprometidos na tradicional prática de elucidar o passado. Para os historiadores, de fato, o nome revisionismo tem uma ressonância que é perfeitamente legítimo – isto faz lembrar uma escola de controvérsia histórica conhecida como Primeira Guerra Mundial "revisionistas," que argumentava que os alemães foram injustamente culpabilizados pela guerra e que consequentemente o tratado de Versailles era um documento politicamente mal orientado baseado em premissas falsas. Então os negacionistas ligam-se a uma tradição historiográfica específica de reavaliação do passado. Declarar-se sob a égide dos revisionistas da Primeira Guerra Mundial e negar que tivessem qualquer objetivo além de disseminação da verdade constitui a tentativa tática para adquirir uma credibilidade intelectual a qual lhes faltaria outro modo.[113] [tradução nossa]
A primeira polêmica sobre o Holocausto que derivou para o negacionismo foi aquele que, na França, mobilizou o professor Robert Faurisson, o especialista em Grécia antiga Pierre Vidal-Naquet e outras dezenas de historiadores. Pierre Vidal-Naquet, que na adolescência lutou na resistência francesa e teve os pais enviados a Auschwitz e assassinados. Mais tarde tornou-se um militante contra o negacionismo, embora admitisse algumas críticas, como a formulada por Paul Rassinier. Robert Faurisson, falecido em 2018, não era historiador, era professor de literatura francesa na Universidade de Paris III e de 1973 a 1990, quando ocorreu a polêmica na Universidade de Lyon. Era conhecedor da obra de Rimbaud e publicou o livro A-t-on LU Rimbaud? Em 29 de dezembro de 1978 Faurisson, publicou um artigo no jornal diário Le Monde, intitulado "Le Problème des chambres à gaz, ou la rumeur d'Auschwitz"(O problema das câmaras de gás, ou o rumor de Auschwitz), em que negava a existência das câmaras de gás. Este gerou uma reação da mídia e de historiadores. Em fevereiro de 1979, Vidal Naquet e Léon Poliakov assumiram a iniciativa de redigir uma declaração endossada por 34 historiadores em Le Monde em que desconstruíam a retórica negacionista de Faurisson.
Essa
declaração é seguida de uma refutação do historiador Georges Wellers,
intitulada "Abondance of Evidence" (Abundância de evidências) e, no
dia seguinte, de um artigo da historiadora Olga Wormser, sobre a história da
Shoah e, ainda, um segundo artigo, escrito por Maurice Bernadet, presidente da
Universidade Lyon II, condenando os comentários do professor, mas admitindo que
sem uma comprovação formal de má conduta profissional, a instituição nada
poderia fazer contra ele. Por outro lado, ele seria alvo de inquéritos
administrativos e, devido a ameaças sofridas, foi transferido para o ensino à
distância até se aposentar em 1995.
Antes
de Faurisson, Paul Rassinier, ex-comunista e socialista, pacifista, anarquista
ex-membro da resistência, torturado severamente pelos nazistas e ex prisioneiro
do campo de concentração de Buchenwald -
que inclusive relatou suas experiências depois da libertação- passou a
publicar artigos, livros em associações de extrema direita nos anos 1950 e 60,
negando o Holocausto. Rassinier foi então, condenado em um processo a 4 anos de
prisão. Teve muita influência sobre Faurisson que o considerava um pai espiritual,
especialmente em seu livro Mensonge de
Ulysses, porém foi igualmente impactado pelo literato de extrema direita,
Maurice Bardèche[114] que publica dois artigos
seus na revista neo fascista Défense de l'Occident.[115]
Faurisson
defendia em suas publicações[116] a inexistência da Solução
Final, que se tratava apenas, para ele, de um plano para emigração dos judeus
para o leste. Assim, ele nega que o líder alemão tenha matado qualquer judeu,
que tivesse sido antissemita, que tenha feito uso de câmaras de gás, explicando
que os fornos crematórios estavam lá por causa de doenças contagiosas. Ele
recusava a ideia de que os campos de concentração tenham sido de extermínio e
afirmava que a invenção do Holocausto teve intenções político financeiras para
os judeus.
Ainda
assim, o escritor preferia ser chamado de revisionista e não de negacionista. Foi
condenado várias vezes pela justiça francesa, notadamente por "incitação
ao ódio racial" e por "contestação de crime contra a humanidade"
- nesse último caso, em virtude da lei Gayssot, de 13 de julho de 1990. Faurisson
foi a primeira pessoa a ser condenada com base na Lei Gayssot (1990) que
proibiu a contestação dos crimes contra a Humanidade definidos pelo Tribunal de
Nuremberg em 1946. Nos anos 2000 se transformou em um representante do anti
sionismo no Ocidente e no mundo árabe muçulmano.
Entretanto,
a lei Gayssot foi contestada, tanto por juristas, quanto por historiadores,
alegando o direito à liberdade de expressão. Além de políticos, personalidades
como o advogado socialista e ex-ministro Robert Badinter, o escritor Michel
Tournier, o ficcionista Michel Houellebecq, o cineasta Alain Robbe-Grillet, o
jurista de direita Philippe Bilger, o filósofo Paul Ricœur criticaram, e ainda,
o filósofo linguista Noam Chomsky, que mantinha contato com Robert Faurisson
desde 1979, assinaram a petição em favor da “ liberdade de palavra e de
expressão” de Faurisson, iniciada pelo negacionista Mark Weber. Seus “comentários
elementares sobre o direito à liberdade de expressão”, serviram de prefácio a Mémoire en défense contre ceux qui
m'accusent de falsifier l'histoire (1980) de Robert Faurisson. Historiadores
também tomaram partido contra a lei Gayssot: Pierre Vidal-Naquet, Pierre Nora,
François Furet, François Bédarida, Madeleine Rebérioux. Jean-Pierre Azéma, para
defender que a lei era dispensável, estimou que “existia, antes da lei Gayssot,
algumas disposições legais repreendendo a difamação racial, a injúria racial, a
provocação ao ódio racial e a apologia do ódio racial, disposições em virtude
daqueles que foram condenados: Paul Rassinier, Maurice Bardèche e Robert
Faurisson…”[117].
Vidal-Naquet,
por outro lado, foi condenado judicialmente em 2001 por afirmar que o também
professor de literatura, Henri Roques, não escrevera realmente uma tese
negacionista em alemão, sugerindo que o autor se tratava de Robert Faurisson.[118] Outro episódio em que historiadores
estiveram no banco dos réus é o julgamento de Deborah Lipstadt, professora
universitária judia americana na universidade de Atlanta[119], juntamente com sua
editora Penguin. Em 1996, David Irving (residente em Londres), historiador
militar, da política da Segunda Guerra mundial e da Alemanha Nazista, processou
Lipstadt em função de uma citação a ele como negacionista no livro Denying the Holocaust: the growing assault
on truth and memory (1993). A autora examinava as distorções e intenções
política dos negacionistas e seus principais expoentes, dentre os quais incluía
Irving, considerado um “perigoso porta voz” desta vertente. Irving pretendia
dar ao caso projeção midiática apoiado por vários grupos extremistas.
David
Irving, a princípio, não era propriamente um negacionista. Nascido em 1938,
parte de suas lembranças de infância foram de bombardeios e sirenes, mas apesar
da opinião pública contrária, Irving já nutria admiração pelo ditador nazista. Começou
a cursar física, depois ciência política, mas teve que interromper o curso por
falta de dinheiro. Ainda na faculdade, publicou um suplemento de um jornal que
elogiava Hitler como uma força centralizadora da Europa desde Carlos Magno.
Mudou-se
para a Alemanha para trabalhar como metalúrgico em Ruhr. Lá começou a pesquisar
sobre o bombardeio em Dresden e escreveu o livro The destruction of Dresden (em 1963), que trazia dados
superdimensionados, baseados em um registro falsificado por Goebbles, outro
atribuído a um ex-funcionário nazista, Hans Voigt e sem verificação de
autenticidade, a autoridades
burocráticas de Dresden (que calculavam em mais de 100 mil a 250 mil mortos),
assim como a um relato de um médico urologista que alegava ser o encarregado da
secretaria de Saúde e não apresentava fonte para os cálculos. Richard Evans,
que testemunhou como expert no julgamento de Lipstadt, chamou a atenção para
estes números inflados e sem comprovação ou com documentação adulterada.
Posteriormente Irving precisou corrigir seus números frente a novas e mais
embasadas pesquisas, rebaixou para 20 mil mortos, o que significava maximizar
as perdas alemães frente às perdas de vidas aliadas. Em conferências, ele equivalia
as baixas nos bombardeios aos judeus assassinados no Holocausto[120].
Escreveu,
em seguida, outras obras[121] depois que entrou em
contato com muitos ex-oficiais do círculo de Hitler que lhe entregaram seus
diários. Irving se notabilizou pelo grande afã em colecionar documentos
históricos raros, assim como em desvelar falsificações. Por exemplo, no início
dos anos 80, desmascarou os diários de Hitler, vendidos para uma revista como
autênticos, atestados por Trevor Hoper, um historiador que já havia criticado Irving.
Depois de ter humilhado seu adversário, pouco depois, os admitiu como
autênticos, pois não continham evidência de que Hitler sabia do Holocausto. No
fundo Irving valorizava os documentos como se fossem portadores da verdade
incontestável, adquiri-los era seu trunfo pessoal, porém falhava ao não
realizar adequadamente a crítica das fontes.[122] Com isto, apesar de ser
respeitado como historiador militar, sua dedicação ao grande público e altas
vendagens dos seus livros o incentivaram a mirar no que atrai este público,
muito mais do que na pesquisa rigorosa e acadêmica.
Um
marco na sua carreira de escritor Hitler's
War de 1977 (A Guerra de Hitler) que seria a primeira parte de uma
biografia do Führer cuja intenção era superar “anos de sujeira e descolorização
da fachada de uma silencioso e proibitivo monumento” para revelar um “Hitler
real” cuja reputação acreditava que tinha sido difamada pelos historiadores. [123] Entre outras coisas,
Irving defendia que Churchill foi responsável pela escalada de guerra, que a
invasão à URSS em 1941 era uma “guerra preventiva” e que Hitler não sabia do
Holocausto, nem tampouco era antissemita.[124] A chave da alegação do
escritor era de que não haveria registro escrito de que Hitler ordenou o
Holocausto e durante muitos anos ofereceu mil libras para quem produzisse tal
ordem. Historiadores como Charles Sydnor, criticaram severamente o livro, este
especificamente pontuou que várias afirmações não tinham base empírica e que o
escritor desconhecia a história do Terceiro Reich.
Neste
momento ele ainda não negava que o Holocausto se passou, embora lançasse
dúvidas sobre toda a narrativa que responsabilizava a cúpula nazista pelo projeto
da Solução Final, tal qual o Julgamento de Nuremberg tratou de atribuir. Para
ele, sem documentos escritos, todo um sistema de extermínio em massa, erigido a
partir de cima, que apenas com autorização da todo o ministérios e altas
autoridades e o próprio Führer, poderia ser colocado em prática, seria
inexplicável ou obra de abusos individuais e voluntaristas.
Depois
de publicar Churchill's War (1987) Irving
passa a negar o Holocausto enquanto acontecimento histórico, “desmistificar” o
extermínio de judeus em massa nas câmaras de Gás em Auchwitz. Tudo mudou depois
que foi convidado para uma conferência com negadores do Holocausto no Institute
for Historical Review (IHR). Na ocasião ele não aceitou o convite, mas garantiu
junto ao instituto de ultradireita a distribuição de seus livros nos EUA. Sua
recusa de então estava relacionada aos planos para entrar na política, fundando
um partido fascista, Focus, e tornar-se primeiro ministro da Grã-Bretanha. Devido
a problemas fiscais, desistiu em 1983 e a partir daí passou a dar conferências
na IHR, dividindo a mesa com o negacionista francês Robert Faurisson e com o juiz
Wilhelm Stäglich e com Friedrich Berg, cujo depoimento o impressionou, ao
afirmar que os assassinatos em massa usando fornos de gás a diesel nos campos
de extermínio na Operação Reinhard seriam impossíveis.[125]
A
partir de então, inicia sua escalada em direção ao negacionismo. Em 1986, quando
fez palestras na Austrália, Irving argumentou que a fotografia de mortos e
sobreviventes nos campos em 1945, tiradas por soldados Aliados, provavam que os
Aliados foram responsáveis pelo Holocausto e que os líderes nazistas não o ordenaram,
mas que este foi obra de pessoas que agiram sozinhos e por impulso, sob a
tensão da guerra. Naquele mesmo ano em Atlanta, afirmou que os historiadores
são cegos em relação ao Holocausto porque sofrem de uma doença Judaica que
causa cegueira. Mais tarde em Toronto, Canadá, se reaproximou do negacionista
Ernst Zündel, que antes rechaçara, para que sua palestra tivesse apelo
midiático. Irving participou do julgamento de Zündel ao lado da defesa,
processado por negar o Holocausto, ao lado de Robert Faurisson. Convenceu-se então de que o Holocausto era um
mito e que o depoimento de Fred Leuchter, um expert em execução por gás, o comprovaria.[126] O Relatório Leuchter foi
publicado por Zündel como prova definitiva de que os fornos não foram usados
para incinerar pessoas. Este depoimento seria usado também no julgamento contra
Deborah Lipstadt, apesar da moção de repúdio que o parlamento inglês aprovou
pelo prefácio de Irving à publicação do relatório de Leuchter em 1989,
considerando ambos herdeiros de Hitler[127].
Em
1991 ele revisou a edição de Hitler's War,
retirando todas as referências aos campos de extermínio e ao Holocausto. Irving
fez um monumental pronunciamento afirmando que não houve assassinatos em massa
nas câmaras de gás em Auschwitz e passou, nos anos 1990, a frequentar encontros
de neonazistas em vários países, Alemanha, Áustria, etc. desacreditando as
evidências sobre a existência dos campos de concentração. O que lhe conferia
credibilidade era ser ele um britânico, culpando os Aliados pelos crimes
imputados aos alemães.
Em
resumo, dentre as alegações levantadas por David Irving em suas conferências
lista-se:
-Os
campos de extermínio, principal prova material, não mostravam vestígios de
cianureto nos formos, conforme consta do relatório Leuchter.
-
Os sobreviventes de Auschwitz são eles mesmos testemunhos da ausência do
programa de extermínio, do contrário estariam todos mortos.
-Os sobreviventes do Holocausto produziram memórias porque havia dinheiro e
compensação envolvidos.
-Morreram
apenas 30 mil pessoas em Auschwitz, a maioria deles de causas naturais,
enquanto 100 mil pessoas teriam sido bombardeadas pelos aliados. Os campos de
extermínio não passavam de atrações turísticas.
-O
Holocausto é um produto da propaganda de guerra britânica, não passa de um mito.
-Havia
um interesse econômico nas compensações de 3 bilhões que a Alemanha Federal
pagou a Israel entre 1952-66, baseado na ideia de que houve um Holocausto.
Não obstante, as autoridades começaram a tomar medidas contra o negacionista inglês. Após palestra em Munique em julho de 1991, foi condenado por um tribunal a pagar 7 mil marcos que subiu para 10 mil, depois de ter repetido as afirmações perante a corte em 1992. Irving foi banido da Alemanha, assim como da Áustria, depois de cumprir mais de 1 ano de cadeia em 2005 (de uma sentença de 3 anos), assim como foi proibido de entrar na Nova Zelândia e da Polônia em 2010. Na ocasião, algumas vozes apelaram à comunidade historiográfica - à American Historical Association - contra a prisão de Irving na Áustria, em defesa da liberdade de expressão, como o professor emérito de História da City University of New York, Jesse Lemish, que também é crítico do negacionismo.[128]
No
processo movido por Irving contra Lipstadt na Grã Bretanha, o reclamante foi
advogado de si mesmo, o que lhe deu a oportunidade de promover seu pequeno
show. Lipstadt foi defendida por Richard
Rampton, Anthony Julius e James Libson. O julgamento só ocorreu em 2000 e durou
3 meses até a sentença. O juiz concluiu pela absolvição de Lipstadt e da editora
Penguin e foi transformado no livro Negação
de Deborah Lipstadt e no livro Lying
about Hitler:History, Holocaust and the David Irving Trial. Lipstadt relata
que o juiz Gray pronunciou que Irving “por suas próprias razões ideológicas
persistentemente e deliberadamente desvirtuou e manipulou a evidência histórica”
de modo a retratar Hitler “em sob um prisma desnecessariamente favorável” particularmente
no seu tratamento dos judeus. Depois de ponderar sobre a honestidade de Irving
ao interpretar as crenças e opiniões na interpretação histórica, Gray concluiu
que Irving deturpou propositalmente os dados históricos em prol de sua
apresentação ideológica da história e o considerou “um ativo negacionista do
Holocausto; um antissemita e um racista, associado à extrema direita para
promover o neo-Nazism”[129]. Em seu livro Negação Lipstadt afirma que a
integridade da história estava em jogo no julgamento, contra documentos e
dinheiro, e que era importante vencer Irving para ridicularizá-lo.[130] Porém, reconhece que
negacionistas continuariam emitindo suas opiniões, listando dentre eles escritores,
atores e principalmente autoridades palestinas. Parece que a própria Lipstadt
defende com “unhas e dentes” a singularidade do genocídio dos judeus frente a outros
assassinatos em massa e usa a retórica anti negacionista para desqualificar
aqueles que comparem a política de ocupação e assassinatos de palestinos em
Gaza com a política de extermínio nazista.[131]
Os
historiadores igualmente se insurgiram contra David Irving e sua tentativa de
capturar atenção midiática e disputar a opinião pública baseado em afirmações
não verdadeiras ou de pós verdades. Richard Evans, que prestou depoimento no
julgamento de Lipstadt, aponta que ele, deliberadamente, deturpou as evidências
históricas para promover a negação do Holocausto. Para Evans, Irving não estava
interessado em saber e interpretar o que aconteceu no passado, mas em dar um
seletivo e tendencioso ao relato para seu propósito ideológico, por isto não é
um historiador.[132] O Historiador Hugh
Trevor-Roper opinou que não considera Irving um historiador e acredita que lhe
falte senso histórico. Tratar-se-ia muito mais de um propagandista que usa
eficientemente material coletado e arrumado para apoiar a linha
propagandística.[133] Ian Kershaw, por exemplo, mudou a reputação de
Irving desde sua primeira edição do livro The
Nazi Dictatorship (1985) de historiador diletante - trabalhando a margem da
corrente dominante da historiografia - para autor de história, que absolvia
Hitler de qualquer papel na Solução Final, na quarta edição de 2000. Desta
forma, a reputação de Irving como historiador se dissipava à medida que se
vinculava cada vez mais explicitamente à extrema direita e à recusa de fatos
históricos reconhecidamente acorridos e de evidências empíricas que podem ser
contextualizadas e criticadas, mas nunca descartadas inteiramente.
Considerações finais
Nosso intuito neste artigo foi fazer alguns apontamentos a partir dos casos de revisionismo que redundaram em negacionismos. Sugerimos, ainda à título provisório, que os movimentos emergentes de extrema direita, ou ultraconservadores, promovem releituras do passado em detrimento das investigações acadêmicas, à margem ou contra este volume de pesquisas, de modo a acomodar outras versões do passado que sejam mais favoráveis aos grupos que suportam governos e regimes estabelecidos ou em processo de perda de legitimidade, como é o caso do franquismo.
Ressaltamos
alguns aspectos da ofensiva revisionista das últimas décadas e ensaiamos
algumas proposições a respeito do papel do historiador em polêmicas que
envolvem as apropriações e reivindicações do passado:
-Os
revisionistas, não necessariamente, mas muito frequentemente, são outsiders,
amadores ou diletantes que, pela sua própria condição de ostracismo acabam
sendo acolhidos por grupos de extrema direita, insatisfeitos com as versões
oficiais ou acadêmicas. Estes questionam o viés ideológico dos historiadores,
mas nunca o seu próprio. Em sua perspectiva, eles sim são isentos e buscam a
verdade. E a verdade reside totalmente nos documentos originais que conseguiram
colecionar, que na sua opinião definem uma questão. Para eles, os documentos têm
um valor definitivo, absoluto e não é necessário submeter-lhes à crítica,
questionar-se sobre sua produção, sua origem e preservação, sobre a intenção
daquele que o produziu, tornando mais ou menos digno de crédito, ou mesmo
questionando-se sobre o silêncio das fontes. Por outro lado, valoram em demasia
o documento escrito, colocando em descrédito total as fontes orais.
-O
negacionismo é, essencialmente, produto do ressentimento de extrema direita,
mas, eventualmente, buscou a adesão de ex-vítimas ou combatentes.
-Quando
a justiça falha ou é impossível de ser alcançada, o tribunal da história resta
como a única saída para os grupos vitimados ou ressentidos. O tribunal da
história, dentro dos marcos democráticos e capitalistas é uma ilusão. Não é um
trabalho para a história assimilar as derrotas e promover a revanche, mas para
a memória, a qual os historiadores são chamados a opinar eventualmente, mas que
pertence aos grupos étnicos e sociais. Os historiadores requerem um
procedimento crítico e distanciamento, embora seja importante desvelar
contradições da realidade social, com os quais a memória não tem compromisso.
-Os
historiadores criam interpretações em seu campo especializado, incidindo nos
livros didáticos, em entrevistas de jornais e programas de debates, procurando
moldar uma consciência histórica. Porém, o passado é uma “terra de ninguém”,
onde representações são propostas por muitas instâncias não especializadas,
pela mídia, arte e literatura, cinema, escolas de samba, museus, pela oralidade
dos grupos e movimentos sociais, por sindicatos, religiões, juristas, políticos
e seus partidos, assim como todo tipo de associações. Outrossim, a produção da
memória é mediada pela Burocracia estatal, por representantes dos grupos de
poder na sociedade política capazes de mudar as leis, os currículos, promover
determinada identidade em detrimento de outra.
-Quando
a interpretação dos historiadores e de entidades de fora do campo histórico especializado
se confrontam, cria-se uma distorção em que os primeiros acabam perdendo pela
falta de capital político e social, na disputa pela formação da opinião
pública. Eles são despossuídos de tais tipos de capitais, porém, possuem um
capital simbólico advindo da autoridade que lhe foi conferida pelo Estado que
outorga diplomas, titulações e prêmios. Estes são atestados de competências e expertise
aos historiadores de carreira que podem exercer pressão junto à sociedade
política. Contudo, como evidencia Pierre Bourdieu em Sobre a televisão, o campo jornalístico deve sua importância no
mundo social ao fato de que detêm um monopólio real sobre os instrumentos de
produção e difusão em grande escala de informações.[134] Este monopólio permite a
jornalistas e diretores mediar o acesso de produtores culturais a estes
instrumentos, portanto, podem selecionar, censurar ou promover determinados
nomes em função de seus interesses corporativos ou políticos eleitorais. As ideias
que veiculam adquirem legitimidade quando os experts emprestam seu
reconhecimento para os veículos de comunicação, como se fossem porta vozes da
opinião pública no lugar de bancos ou empresas, partidos ou grupos corporativos,
aparecendo para os espectadores como consensuais.
-Tendo
em vista tais dificuldades, historiadores acadêmicos podem influenciar tão
somente os grupos e movimentos sociais organizados, cujos projetos coincidam
com sua agenda política ou pauta de direitos.
-Mesmo
quando se trata do combate ao negacionismo, porque não tem o poder de exercer a
pressão política determinante, os historiadores temem a intromissão em seu
campo de atuação: perder autonomia e a história ser tutelada pela jurisprudência,
ou pelas tendências da política. Daí os historiadores aderirem a manifestos
contra leis que estabelecem interpretações históricas definitivas.
-A
história não é petrificada, é dinâmica, assim como a memória social, é produto
de negociações e das correlações de forças num dado período. Monumentos e
estátuas são cristalizados no tempo e acabam não representando mais os grupos e
anseios sociais. Como mostra Pierre Nora, lugares de memória são anacrônicos,
eles guardam preservam valores de outro tempo. Assim, eles podem não ter mais o
significado que tinham, o significado reside na sua própria existência no
presente. Não cabe aos historiadores como especialistas definirem se uma
estátua ou monumento será tombado ou permanecerá. Esta é uma necessidade das
forças emergentes, das novas gerações e seus valores, as reinterpretações que
vão municiar os movimentos sociais. Atuar junto a eles quando suas
interpretações coincidirem com as agendas dos movimentos sociais faz parte da
perspectiva de pentear a história à contrapelo, preconizada por Walter Benjamin[135]. No entanto, as
interpretações dos historiadores não podem se submeter e se pautar pela agenda
dos movimentos sociais e políticos, pois seu campo tem suas regras e critérios
próprios.
Enfim,
podemos esperar que a paulatina organização profissional dos historiadores em
associações e entidades de classe possa fortalecer seu lugar e reconhecimento
na sociedade, ocupando espaços públicos que diletantes ou ativistas vinculados
à extrema direita ora adentram. Ao trazer para a atualidade os grandes debates
históricos, ao engajar segmentos da sociedade mais próximos da perspectiva crítica,
de inovação e emancipação social, nós historiadores acadêmicos, nos distanciaremos
da imagem do historiador dos tempos de Ranke e estaremos mais próximos de Marc
Bloch.
Débora El-Jaick Andrade
Departamento de História CHT
Universidade Federal Fluminense
[1] SILVA, Francisco
Carlos Teixeira da. Definindo a direita. In SILVA, Francisco Carlos Teixeira,
et al. (org.) Dicionário crítico do
pensamento da Direita ideias, instituições e personagens. Tempo, Mauad,
Faperj, 2000. Pp.11-12. Interessa
lembrar que é nos anos 1990 que nasce o projeto bem sucedido de construir um
consenso sob a égide da Terceira via, alternativa ao socialismo, e ao
liberalismo conservador, com Tony Blair na Inglaterra, Bill Clinton nos Estados
Unidos e FHC no Brasil, teorizado pelo sociólogo Anthony Giddens. Seriam
governos social democratas, com capitalismo de mercado, mas, na verdade,
conduzem políticas econômicas neoliberais em seus Estados.
[2] IANNI, Otávio.
Globalização e crise do Estado-Nação. Revista
estudos de Sociologia. São Paulo, Unesp, v. 4, n. 6,1999. p.2https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/753/618.
Acesso em 24/07/2020.
[3] VIZENTINI, Paulo
Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão
histórica e internacional. Neonazismo,
negacionismo e extremismo político. Porto Alegre, UFRGS/CORAG, 2000. p.28.
[4] SPIRE, Alexis.
Xenofobia em nome do Estado do bem estar social. Le Monde Diplomatique, Edição 77, 2 de dezembro de 2013.Disponível
em https://diplomatique.org.br/xenofobia-em-nome-do-estado-de-bem-estar-social/
. Acesso em 24/07/2020.
[5] Não apenas a
social democracia assumiu o discurso anti-imigratório da extrema direita, mas em
2018 foi lançada na Alemanha o Aufstehen, um movimento de esquerda
suprapartidário com figuras como Sahra Wegen Knecht e Oskar Lafontaine, que
defende a pauta anti-imigratória pela esquerda para atrair eleitores de extrema
direita apoiadores do Alternative para a Alemanha (AfD). Movimento de esquerda
e anti-imigração é lançado na Alemanha. RFI, Berlim, Folha de São Paulo, 4/09/2018. Disponível em
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/09/movimento-de-esquerda-e-anti-imigracao-e-lancado-na-alemanha.shtml.
Acesso em 24/07/2020.
[6] VIZENTINI, P. Op.
Cit. p.28.
[7] Em 2009, o
presidente eleito em Honduras, Manoel Zelaya foi deposto pelo exército e
exilado na Costa Rica a mando das altas cortes judiciais, alegando-se que
violou a constituição. Em verdade, Zelaya que era candidato do Partido Liberal
de centro direita, adotou um programa de esquerda e desagradou interesses
econômicos ligados aos Estados Unidos. Mesmo após muitos protestos contra a
deposição de Zelaya, organizadas pela Frente Nacional de Resistência,
controvertidas eleições presidenciais legitimaram Pepe Lobo no poder.
[8] Dois anos depois da
deposição de Zelaya foi a vez do presidente Fernando Lugo, do Paraguai,
responsabilizado em um processo aberto pelo partido Colorado pelo confronto que
deixou mortos em uma violenta ação de remoção de sem terras pelas forças de
segurança, em que ocupavam um terreno supostamente pertencente a um ex-senador
colorado. Em um pouco mais de um dia, Lugo, que perdeu apoio do partido
liberal, sofreu impeachment na Assembleia Nacional em um processo sem direito à
defesa e com autorização prévia do poder judiciário. No caso do Paraguai, foi
notório que a embaixadora norte-americana, Liliana Ayalde, tenha sido peça
fundamental de articulação, organização e apoio para a deposição de Lugo.
Coincidentemente, Liliana foi nomeada como embaixadora norte-americana no
Brasil em 2013, e três anos depois a presidenta eleita Dilma Rousseff sofreu um
impeachment pelo Congresso Nacional.
[9] O “golpe branco”,
“golpe brando”, “golpe frio” ou “soft Coup”, como é descrito em várias
coletâneas de juristas, escritores sociólogos e historiadores, descrevendo uma
tomada de poder sem violência e com a colaboração das instituições. Ocorreu no
Brasil no episódio do Impeachment da ex presidente Dilma Rousseff em 17 de
abril de 2016, abrindo caminho para um governo de compromissos com reformas
neoliberais.
[10] Para Lenio Streck
Lawfare é “uma espécie de tática conflituosa na qual o Direito é utilizado como
arma contra um inimigo específico”, expressão cunhada por John Carlson e
Neville Yeomans, para quem lawfare representava um novo modelo de duelo no
campo jurídico baseado na inversão de preceitos do Direito. Ver em STRECK,
Lenio, Luiz. Lawfare. In ALVES, Giovanni et
al. (coord.). Enciclopédia do
golpe .Vol. I, Bauru: Canal
6, 2017. p.119. Acesso
em 24/07/2020.
[11] JAPIASSU, Celso.
Steve Bannon uma extrema direita com movimento anti-Europa e ódio a imigrantes.
Mundo. Opera Mundi/Carta Maior. São
Paulo. 27/09/ 2020. Disponível em https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/mundo/63264/steve-bannon-une-extrema-direita-com-movimento-anti-europa-e-odio-a-imigrantes
Acesso em 24/07/2020.
[12] Segundo o jornal
britânico The independent em 2017, Bannon
instalou uma escola de treinamento em um mosteiro italiano para líderes de
extrema direita, cuja grade curricular é dirigida pelo think tank católico Instituto Dignitatis Humanae (DHI) —que reúne
destacados membros da oposição ao Papa Francisco.
[13] Haider era filho
de nacional socialistas, os mesmo que fundaram o Partido da Liberdade em 1956.
Mais tarde ele integrou uma dissidência do FPÖ, a Aliança pelo futuro da
Áustria.
[14] CHOMSKY, Noam. Quem manda no mundo? São Paulo: Planeta,
2017. p.75 Disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4918315/mod_resource/content/1/Quem%20Manda%20no%20Mundo_%20-%20Noam%20Chomsky.pdf Acesso em 24/07/2020.
[16] SILVA, Adriana Brito da et al. A extrema-direita na
atualidade. Serviço Social & Sociedade no.119 São
Paulo July/Sept. 2014. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-66282014000300002&script=sci_arttext
Acesso em 24/07/2020.
[17]O Syriza, de Alexis
Tsipras, despontou desde 2012, tornando-se a segunda força política grega a
eleger 52 deputados e, três anos depois, chegou ao governo prometendo o fim da
política de Austeridade, porém acabou renegociando a dívida com o Banco central
europeu.
[18] SMITH, Helena. “A
Grécia Pertence aos gregos”. Carta
Capital. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/mundo/aurora-dourada-a-grecia-pertence-aos-gregos-longa-vida-a-vitoria-4382/
Acesso em 24/07/2020.
[19] O partido de
extrema-direita ficou-se pelos 2,8% nos votos, não ultrapassando o mínimo de 3%
para o Parlamento grego em 2019, perdendo seu eleitorado para outro partido de
extrema direita, o Solução Grega. Ver em Grécia// Aurora Dourada sofre pesada derrota eleitoral. Medium. 2/07/2019. Disponível em https://medium.com/flashback-observat%C3%B3rio-antifascista/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-sofre-pesada-derrota-eleitoral-e-n%C3%A3o-entra-no-parlamento-1a385addd610
Acesso em 24/07/2020.
[20] VIZENTINI, Op.
Cit. p.24.
[21]TECEDERO, Helena.
As revoluções do Syriza, do 5 Estrelas e do Podemos. Diário de Notícias.25/06/2017. Disponível em
https://www.dn.pt/mundo/as-revolucoes-do-syriza-do-5-estrelas-e-do-podemos-8588676.html
[22] VIZENTINI, P. Op. Cit.
[24]Agnes Heller foi
vítima e sobrevivente do nazi fascismo na Hungria, quando os fascistas húngaros
do Partido da Cruz Flechada apoiaram na organização da deportação dos judeus de
Budapeste a Auschwitz e depois o assassinato em massa daqueles que não puderam
embarcar nos comboios quando da chegada dos russos.
[25] O discurso anti-imigração
parece, no entanto, descolado da realidade, uma vez que a Hungria não é destino
final das levas de refugiados sírios, chamadas por Órban de “hordas”.
[26] Segunda Heller
espera-se que as escolas produzam indivíduos bons e obedientes, por isto o
conteúdo dos livros didáticos são determinados pela propaganda do Fidesz,
principalmente nas disciplinas de História e Literatura Húngara. Nas
universidades, o Estado nomeia o chamado chanceler, situado acima do reitor
eleito, para que ele se ocupe dos assuntos relacionados ao ensino, retirando a
sua autonomia.
[27] Viktor Orbán
conseguiu por maioria de dois terços no parlamento aprovar o estado de alarme
para que o Executivo utilize poderes extraordinários para governar por decreto
sem limite temporal e sem controle parlamentar. BLANCO, Silvia. Por coronavírus,
Hungria permite que ultradireitista Orbán governe por decreto indefinidamente. El País. 30/03/2020. Disponível https://brasil.elpais.com/internacional/2020-03-30/lei-aprovada-na-hungria-permite-que-orban-amplie-indefinidamente-o-estado-de-alarme-devido-a-pandemia.html
Acesso em 24/07/2020.
[28] HELLER, Agnes. Por
que a Hungria se rendeu ao extremista Orbán e como controlar o ensino é
essencial para seu projeto. El país
Brasil.23/05/2019.Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/actualidad/1555585620_542476.html
Acesso em 24/07/2020.
[29] Em Israel,
Benjamin Netanyahu do Likud, partido de centro direita e sionista, conquistou a
maioria nas eleições legislativas e assumiu um mandato de primeiro ministro
compartilhado com o centrista Benny Gantz, em maio de 2020. Após 3 eleições,
Netanyahu buscava uma fórmula legal de imunidade para se blindar de 3 acusações
de corrupção (de fraude, recebimento de propina e abuso de confiança) em razão
das quais iria à julgamento, adiado para data indefinida. Ele precisou compor
com forças nacionalistas, ultra ortodoxas e de extrema direita para formar uma
coalizão em torno da pauta comum e promessa de campanha de estender a soberania
israelense aos assentamentos na Cisjordânia.
[30] Erdogán é
denominado pela mídia como “novo sultão da Turquia”, pois ao deixar o cargo de
premiê, em 2014, tornou-se presidente e pleiteou a aprovação do
presidencialismo por meio de um referendo popular que lhe garantisse poderes
equivalentes aos de um sultão. A estratégia de Erdogan é criminalizar seus
opositores como terroristas e como inimigos da nação, e persegue, especialmente,
um antigo aliado, o grupo opositor Hizmet e o clérigo Fetullah Gülen, que vive
nos Estados Unidos que foi incluído na lista oficial de terroristas. Ver :Turquia:
entenda a tentativa de golpe e suas repercussões. Carta Capital. 15 de julho de 2016.Disponível em https://www.cartacapital.com.br/mundo/turquia-entenda-o-golpe-e-suas-repercussoes/ Acesso em 24/07/2020.
PEROSA, Teresa. Erdogan, o novo
sultão da Turquia. Época. 1/06/2016.
Disponível em https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/04/erdogan-o-novo-sultao-da-turquia.html
Acesso em 24/07/2020.
[31] O plebiscito de
abril de 2017 tinha como objetivo consultar a população quanto à unificação do
cargo de chefe de Estado e chefe de governo. A consulta que foi feita sobre o estado
de emergência foi contestada por irregularidades pelos partidos de oposição,
mas deu vitória a Erdogan por uma margem estreita de cerca de pouco mais de 1%
de votos.
[32] Após muitos anos
de requisições na justiça, um tribunal administrativo anulou um decreto
presidencial de 1934 que tornou Santa Sofia em museu. Erdogan emitiu então novo
decreto, transferindo sua gestão do Ministério da Cultura para a Presidência
dos Assuntos Religiosos, possibilitando a conversão. Ver. Erdogan ordena a
conversão de Santa Sofia de volta a mesquita. Voz da Turquia. Disponível em http://vozdaturquia.com/sociedade/turismo/2020/07/10/erdogan-ordena-a-conversao-de-santa-sofia-de-volta-a-mesquita/
Acesso em 24/07/2020
[33] A imprensa
ocidental denomina “revolução Maidan” a este processo que removeu Yanukovitch e
culpam os russos e a não assinatura do tratado de integração com a União
Europeia pela derrubada do regime, enquanto Putin e a oposição comunista, os
judeus democratas, denunciam um golpe do qual participaram grupos neonazistas,
implementando uma política de limpeza étnica.
[34] Defendiam a
integração com a União Europeia, em favor da “democracia” e “liberdade”,
atacando russos e ucranianos de língua materna russa, e de religião ortodoxa
russa. Apesar de acusarem Viktor Yanukovych de corrupção, os neonazistas também
a praticaram e constituem lumpens armados, bandidos, terroristas. São milhares
de gangs que infestam a capital e várias cidades da Ucrânia, entrando em
confronto em regiões onde predominam os russos, com exceção da Criméia, que
estava sob o controle das tropas da Federação Russa e depois foi anexada. Ver :
A crise da Ucrânia, seu significado
e desdobramentos; Entrevista com Moniz Bandeira. Em 1 de abril de 2014.
Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529796-a-crise-da-ucrania-seu-significado-e-desdobramentos.
Acesso em 24/07/2020.
[35] Um prédio de um
sindicato da era soviética em Odessa foi incendiado por ativistas neonazistas
pró Ucrânia como o Setor Pravyi (Setor Direita) com mais de trinta pessoas
dentro. Há vários grupos neonazistas proeminentes como o Svoboda (Liberdade),
um partido cujos membros têm cinco cargos de alto escalão no novo governo da
Ucrânia, incluindo o cargo de vice-primeiro ministro, o Setor Pravyi (Setor
Direita), cujo líder Dmytro Yarosh e que tornou-se vice-secretário de Segurança
Nacional do país. Ativistas do Setor Direita, usando máscaras de esqui pretas,
coletes à prova de balas e uniformes militares, ainda mantiveram vários edifícios
ocupados perto da Praça da Independência de Kiev. Ver: Na Ucrânia a extrema
direita ganha influência. O Globo. 8
de março de 2014. Disponível em /https://oglobo.globo.com/mundo/na-ucrania-extrema-direita-nacionalista-ganha-influencia-11821726
Acesso 24/07/2020.
O Batalhão de Azov foi criado em
2014, como uma organização paramilitar, durante os protestos da Euromaidan,
recapturou Mariupol dos separatistas pró Rússia. Atualmente ligado ao
Ministério do Interior da Ucrânia, foi incorporado à Guarda Nacional Ucraniana.
Embora negue ser neonazista e neofascista, se apropria de símbolos e tem um
ideário racista e antissemita e é acusado de enforcamentos, estupros,
desaparecimentos, tortura, limpeza étnica, perseguição à minorias e terrorismo
e constituiu um partido ultranacionalista que elegeu um vereador, saques,
limpeza étnica e perseguição de minorias como homossexuais, Judeus e Russos.
Para mais informações consulta KASAMIRO, André. Revista Opera. 13 de novembro de 2018. Disponível em https://revistaopera.com.br/2018/11/13/fbi-milicia-neonazista-treinada-por-militares-norte-americanos-na-ucrania-agora-treina-supremacistas-brancos-nos-eua/ Acesso
24/07/2020.
[36] Na realidade o
presidente deposto tinha reabilitado Bandera em 2011.
[37] CHACKO, Bem. Communist party of Ukraine addresses open letter to Ukrainian and Russian peoples. Morning Star, 4/10/2019.Disponível em https://morningstaronline.co.uk/article/w/communist-party-ukraine-addresses-open-letter-ukrainian-and-russian-peoples. Acesso 24/07/2020. Segundo documento da CIA, Bandera perpetrou uma série de crimes de Guerra no território ucraniano durante a ocupação nazista, em apenas cinco semanas, foram assassinados 5.000 ucranianos e 15.000 judeus, entre os semitas, 10.000 foram mortos de uma só vez. TORTOMANO, Caio. Documentos da CIA evidenciam colaboração nazista por trás do legado de Stepan Bandera, o "herói ucraniano". Disponível em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/documentos-da-cia-evidenciam-colaboracao-nazista-por-tras-do-legado-de-stepan-bandera.phtml Acesso 24/07/2020.
[38]
SÁNCHEZ-VALLE, María
Antonia. Índia dá vitória à tradição
e ao nacionalismo hindu nas urnas. El Pais,
24/05/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/23/internacional/1558592881_394460.ht Acesso
24/07/2020.ml
[39] BONIS, Gabriel.
Rodrigo Duterte: quem é o presidente das Filipinas comparado a Bolsonaro no
exterior que quer criar 'esquadrão da morte'. BBC Brasil. 28/11/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45863030.
Acesso 24/07/2020.
[40] Ficando a centro
esquerda em segundo, o partido extremista de direita Confederação, que é
abertamente antissemita e homofóbico, ficou com 6,8%.
[41] Extrema direita se
fortalece na Polônia. Deutsche Welle.14/10/2019.Disponível
em https://www.dw.com/pt-br/extrema-direita-se-fortalece-na-pol%C3%B4nia/a-50825472
Acesso 24/07/2020.
[42] O PiS estimula a
marcha patriótica da independência, efetivou uma reforma da educação que se
trata de uma “contrarrevolução cultural”, ao priorizar no novo currículo
escolar polonês a história nacional, com o estudo de figuras heroicas, como
Józef Pilsudski − considerado o pai da independência polonesa, em 1918 – e do
papa João Paulo II. SAHUQUILLO, María R. A “revolução patriótica” que promove
avalanche de direita na Polônia. El País.
8 de julho de 2018. Disponível https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/07/internacional/1530989514_090493.html
Acesso em 24/07/2020.
[43] EFE. Extrema direita polonesa marcha contra lei dos EUA de restituição a judeus. Exame, 11/05/2019.Disponível em
[44] FERNANDES, Leonardo;
NOGUEIRA, Pedro Ribeiro. Chomsky: “Crescimento da extrema-direita é
consequência do neoliberalismo”. Brasil
de Fato. São Paulo, 14/09/2018. Disponível em https://www.brasildefato.com.br/2018/09/14/chosmky-crescimento-da-extrema-direita-e-consequencia-do-neoliberalismo
Acesso em 24/07/2020.
[45] Farage foi membro
do Parlamento Europeu de 1999 a 2020. Descendente de imigrantes, ele entoa a
bandeira da saída da União Europeia para conter as levas migratórias anuais e
reforçar as ligações com a Commonwealth (grupo de países que incluem
ex-colônias britânicas, excetuando-se os Estados Unidos da América)
[46]Neonazistas são
condenados por formação de "organização terrorista". Deutsche Welle. Disponível em:
[47]Alemanha bane grupo
de extrema direita ligado aos "cidadãos do Reich". Deutsche Welle, 20/03/2020. Disponível https://www.dw.com/pt-br/alemanha-bane-grupo-de-extrema-direita-ligado-aos-cidad%C3%A3os-do-reich/a-52850235
Acesso em 24/07/2020.
[48] EFE, Partido
neonazista é excluído das eleições gerais em Berlim. Exame. 03/08/2017.
Disponível em https://exame.com/mundo/partido-neonazista-e-excluido-das-eleicoes-gerais-em-berlim/
Acesso em 24/07/2020.
[49] Udo Voigt.
Wikipedia. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/National_Democratic_Party_of_Germany
Acesso em 24/07/2020.
[50] Extrema-direita
alemã ameaça criar patrulha para 'vigiar' cidades com refugiados. BBC News, 4/01/2019. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46761089
Acesso em 24/07/2020.
[51] JEREZ, Andreu. “Alemania:
la ruptura del consenso de postguerra”. In. DONNE, Franco Delle, JEREZ, Andreu
(ed) Epidemia Ultra, la ola reaccionaria contagia a Europa. Berlim, Publication independente, 2019.p.15.
[52] German far-right crimes rise. Deutsche
Welle. Disponível
em https://www.dw.com/en/german-far-right-crimes-rise/a-53053279
Acesso em 24/07/2020
[53] RUETHER, Graça
Magalhães. Intelectuais da direita alemã se articulam e aparecem. Globo,
5/08/2018. Disponível em https://oglobo.globo.com/mundo/intelectuais-da-direita-alema-se-articulam-aparecem-22950486
Acesso em 24/07/2020.
[54]AFP. Na Espanha,
extrema-direita do Vox se exibe sem constrangimentos. UOL. 7/11/2019 Disponível em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2019/11/07/na-espanha-extrema-direita-do-vox-se-exibe-sem-constrangimentos.htm
Acesso em 24/07/2020.
[55] Foram restaurados
com erário público o panteão do cemitério de Mingorrubio, no bairro madrilenho
de El Pardo, para o sepultamento de Franco e sua esposa.
[56] JUNQUERA, Natalia.
Exumação de Franco põe fim ao último grande símbolo da ditadura. El País. 24/10/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/23/internacional/1571826925_555416.html
Acesso em 24/07/2020.
[57]AFP.Na Espanha,
extrema-direita do Vox se exibe sem constrangimentos. UOL. 7/11/2019. Disponível em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2019/11/07/na-espanha-extrema-direita-do-vox-se-exibe-sem-constrangimentos.htm
Acesso em 24/07/2020.
[58] Charlottesville:
supremacistas brancos e grupos antirracismo entram em confronto. BBC News
Brasil. 12/08/2017. Disponível em
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40913908
[59] Sadiq Khan. Tweeter.
5:26 PM, 9/06/2020. Disponível em https://twitter.com/sadiqkhan/status/1270452165258207232 Acesso em 24/07/2020. Boris Johnson premiê
conservador se opôs veementemente à derrubada das estátuas, alegando que
Churchill é um herói nacional.
[60] POLLACK, Michel. Memória
e identidade social. Estudos Históricos.
Rio de Janeiro, volume 5, n.10, 1992. p200-212.p.201.
[61] Ibidem. p.207.
[62] VIZENTINI, P. Op. Cit.
p.28.
[63] Esta identidade
excluiria os imigrantes. Ver ELLIOT, Andrew B. R. Medievalism,
Politics and Mass Media: Appropriating the Middle Ages in the Cambridge, D.
S Brewer, 2017. p.2
[64] Por estas
afirmações renitentes Jean-Marie Le Pen, foi condenado em 2016 a pagar uma
multa de 30 000 euros por qualificar as câmaras de gás como um “detalhe” da
Segunda Guerra. O tribunal correcional de Paris o declarou culpado de um crime
contra humanidade e rejeitou a alegação de imunidade parlamentar. Os juízes
ordenaram a publicação de um comunicado judiciário em 3 jornais, a compensar
com 10 mil euros de danos 3 associações da sociedade civil. AFP. Jean-Marie Le Pen condamné pour ses propos sur les chambres à gaz. Le Monde. 6/04/2016.Disponível em https://www.lemonde.fr/politique/article/2016/04/06/jean-marie-le-pen-condamne-pour-ses-propos-sur-les-chambres-a-gaz_4897050_823448.html
Acesso em 24/07/2020.
[65] Por outro lado, em
uma entrevista para grandes jornais ocorrida em 2017, Marine Le Pen foi chamada
de revisionista e gerou protestos ao negar a responsabilidade da França no
maior aprisionamento e transporte de judeus da Segunda Guerra Mundial, 13 mil
judeus no Velódromo de Inverno de Paris (La rafle du Vélodrome d'Hiver) em
1942, que envolvia a participação da polícia e de funcionários públicos
franceses. Le Pen declarou que queria livrar a França do espírito de
arrependimento em função do colaboracionismo passado.
[66] O secretário da
cultura Roberto Alvim foi exonerado do cargo após a pressão de comunidade
judaica, indignada com a denúncia de um pronunciamento em vídeo que reproduzia
a estética dos anos 40 e reproduzia frases atribuídas a Joseph Goebbels, ministro
da Propaganda de Adolf Hitler.
[67] ALESSI, Gil. Sites
neonazistas crescem no Brasil espelhados no discurso de Bolsonaro, aponta ONG. El país. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-10/sites-neonazistas-crescem-no-brasil-espelhados-no-discurso-de-bolsonaro-aponta-ong.html
Acesso em 24/07/2020.
[68] Dia 28/06/2020
Trump retuitou um vídeo em que um adepto seu grita “white power”, uma expressão
considerada racista. Após críticas, apagou a
postagem.
[69]STRAUSS, Valerie. How state anti-evolution laws evolved. Washington Post. 19/04/2012. https://www.washingtonpost.com/blogs/answer-sheet/post/how-state-anti-evolution-laws-evolved/2012/04/19/gIQAJSqTTT_blog.html. Acesso em
24/07/2020.
[70] Philip Johnson e
Michael Behe concebiam que por trás de toda a organização micro
e macro estruturais do Universo estaria um planejador, um
designer inteligente que dispôs tudo com harmonia. PONTES, Felipe Simão. De
opressora a oprimida: a ciência, seus críticos e suas críticas. Revista de Pós-Graduandos em Sociologia
Política , Santa Catarina, UFSC. v. 7, n. 1/ 2, janeiro‐dezembro/2010. p.133.
Disponível em http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/emtese/indexis.
Acesso em 24/07/2020.
[71] Alguns avaliam que
97% das publicações científicas sobre a mudança climática sustentam que ela é
real e causada pela ação humana, apenas 3% discordam.
[72] DI PAOLA, Marcello. The denial of climate change. How
the 3% became the mainstream. Roma, LUISS University Press. April 29,
2017. Disponível em https://open.luiss.it/en/2017/04/29/cambiamento-climatico-e-negazionismo-come-un-3-puo-diventare-mainstream/.
Acesso em 24/07/2020.
[73] A climatologia
como ciência probabilística que se altera de acordo com os fatores envolvidos,
mas não é incerta no sentido que não existem dúvidas sobre a realidade da
mudança climática, mas descrevem como incerto nas ciências o que não é 100%
exato, embora seja um fenômeno real.
[74] O
termo “pós-verdade” aparece em 1992 em um ensaio do dramaturgo sérvio-americano
Steve Tesich para a revista americana The
Nation e viralizou após 2016, no contexto do Brexit e da eleição de Donald
Trump, segundo o artigo “Arte da mentira” em The Economist. Neste contexto é sinônimo de negacionismo (em que se
escolhe propositalmente de negar um fato histórico por motivos políticas).
FINCO, Nina. A pioneira da luta contra a pós-verdade. Época, 14/04/2017.Disponível
em https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/04/pioneira-da-luta-contra-pos-verdade.html.
Acesso em 24/07/2020.
[75] KOIRÉ, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Científico.
2a ed, Rio de Janeiro: Forense, 1991.
[76] Em 2004, Hawking,
que concebeu a teoria do Big Bang, revisitou algumas de suas teorias sobre o
horizonte de eventos, uma espécie de campo de influência dos buracos negros e
escreveu Uma nova história do tempo.
[77] PONTES, Op.cit.
[78] SCHAFF, Adam. “Por
que reescrevemos continuamente a História”. In: História e Verdade. 6a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.P.271.
[79] TRAVERSO, Enzo. El passado, instrucciones de uso. Buenos
Aires. Prometo livros, 2011.p.106.
[80] SCHAFF, Op. Cit. p.276.
[81] FLORENZANO, Modesto. Olhando para os dois lados do canal da mancha:
polêmicas e revisionismo na historiografia da Revolução inglesa. Projeto História, São Paulo, (30), p.
127-136, jun. 2005.p.129.
[82] Demian Bezerra de
Mello afirma que o questionamento revisionista mirou em influentes
interpretações de autores como Georges Lefebvre (1874-1959) e Albert Soboul
(1914-1982) que foram reduzidas a uma simplista e linear leitura
“marxista-leninista” e a partir de um esquema teleológico simplista que Furet
denomina como “catecismo revolucionário”, que olharia 1789 como prenúncio de
1917. Mello constata que o propósito do
revisionismo de Furet era desqualificar o próprio conceito de “revolução”. MELLO,
Demian Bezerra de. Revisão e revisionismo historiográfico: os embates sobre o
passado e as disputas políticas contemporâneas. In: A miséria da historiografia. Uma
crítica ao revisionismo contemporânea. Rio de Janeiro, Consequência,
2014.p.21
[83]WALLERSTEIN, Immanuel. Impensar las ciências sociales. Limites de los paradigmas decimonónicos.Mexico/Argentian.Siglo XXI, 2004 .p.9
[84] CARDOSO, Ciro
Flammarion. "História e poder. Uma nova história política?" In. CARDOSO, Ciro
Flammarion. VAINFAS, Ronaldo. (org.) Novos domínios. Rio de Janeiro, Elsevier,
2012. p.48
[85] TRAVERSO, Enzo. El
passado, instrucciones de uso. Buenos Aires. Prometo livros, 2011.p.109.
[86] ANDRADE, Joana
El-Jaick. O revisionismo de Eduard
Bernstein e a negação da dialética. Dissertação de Mestrado. São Paulo,
Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 2006.
[87] BOTTOMORE, Tom. Dicionário do Pensamento marxista. Rio
de Janeiro, Jorge Zahar,2001.p.509
[88] ANDRADE. Op. Cit.
[89] BOTTOMORE. Op. cit. p.509
[90] LOSURDO, Domenico.
Stálin, História crítica de uma lenda
negra. Rio de Janeiro, Editora Revan, 2011.p.15.
[91] SEGRILLO, Angelo
et al. Hungria 1956: e o muro começou a
cair.1ª ed, São Paulo, Contexto, 2006.
[92]ALTMAN, Max. Hoje
na História: 1956 - Khruschov denuncia 'crimes de Stalin'. Opera Mundi. Disponível em https://operamundi.uol.com.br/literatura/65244/as-pessoas-precisam-estar-prontas-para-machado-diz-tradutora
Acesso em 24/07/2020.
[93] SEGRILLO, Angelo
et al. Op. Cit.
[94] Em 1961 no outro
congresso do partido, Kruschiov voltou a denunciar os crimes e atacar a memória
do líder morto.
[95] Estes autores
criaram em 2018 uma biblioteca nacionalista em Berlim.
[96] O revisionismo ou
a negação incidem sobre acontecimentos traumáticos como genocídios, crimes de
guerra e limpeza étnica (Judaico, Armênio, em Ruanda, na ex-Ioguslávia), ditaduras
sanguinárias ou massacres coloniais. Algumas personalidades apenas negam o status
de genocídio a assassinatos em massa, minimizando sua abrangência e grau de
violência e premeditação dos perpetradores envolvidos.
[97] A democracia
permitiria acabar com o sentimento de impotência e tornar os ressentidos membros
ativos de uma sociedade participativa. ANSART, Pierre (2001), “História e
memória dos ressentimentos”, In: BRESCIANI, Maria Stella; NAXARA, Marcia
(orgs.) Memória (res)sentimento:
indagações sobre uma questão sensível. São Paulo: Editora da Unicamp,pp.
15-36. p.23 Ao mesmo tempo, fragmentar os ressentimentos e, em princípio, o
enfraquecê-los.
[98] ANSART, Pierre
(2001), “História e memória dos ressentimentos”, in Stella Bresciani; Marcia
Naxara (orgs.), Memória (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. São Paulo: Editora da Unicamp,
2004.pp. 15-36. p.27.
[99] Ele era militante
de los GRAPO - Os Grupos de Resistência Antifascista Primeiro de Outubro - é o
braço armado do Partido Comunista da Espanha, um grupo clandestino maoísta
espanhol visando a formação de um estado republicano na Espanha, baseado no
modelo da República Popular da China sob Mao Tse-tung, e responsável pela
propaganda do bando armado até a sua expulsão em 1977.
[100] Este livro foi
traduzido para várias línguas estrangeiras e reeditado em 2004, 2005, 2006,
2014 e 2018.
[101] Pío Moa acusa o
PSOE de começar a Guerra Civil em 1934. Europa Presse.
Elmundodellibro.com. Disponível em https://www.elmundo.es/elmundolibro/2004/10/05/historia/1096993336.html
Acesso em 24/07/2020.
[102] No se puede
imponer por una ley un único relato de la historia, ya que ninguna ley debe o
puede variar los hechos históricos. No se debe borrar por una ley la cultura,
el sentimiento ni la memoria de un pueblo, y menos aún por razones ideológicas.
(...) Legislar sobre la historia o contra la historia es, simplemente, un signo
de totalitarismo. Y es antidemocrático y liberticida. (...) Con la implantación
de una "Comisión de la Verdad", amenaza con penas de cárcel,
inhabilitación para la docencia y elevadas multas a quienes mantengan opiniones
divergentes a la 'verdad única', la destrucción y quema de las obras o estudios
declarados no 'gratos', y la expropiación, destrucción o transformación de una
parte del patrimonio histórico-artístico de la etapa más reciente de España
«Legislar sobre la Historia es un signo de totalitarismo antidemocrático y
liberticida». ABC Espana. 10/03/2018.
Disponível em https://www.abc.es/espana/abci-legislar-sobre-historia-signo-totalitarismo-antidemocratico-y-liberticida-201803101811_noticia.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F
Acesso em 24/07/2020.
[103] Idem. Ibidem.
[104] Planalto veta
regulamentação da profissão de historiador. Agência
Senado. 27/04/2020. Disponível em https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/04/27/planalto-veta-regulamentacao-da-profissao-de-historiador.
Acesso em 24/07/2020.
[105]
Entrevista
com Jair Bolsonaro. Programa Roda Viva. 30/07/2018. TV Cultura. 27:18 minutos.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lDL59dkeTi0.
Acesso em 24/07/2020.
[106]
RAATZ, Luís,
STRAZZER, Filipe. Mourão liga índio à indolência e negro à malandragem. Estado de São Paulo. 6/08/2018.
Disponível em https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,mourao-liga-indio-a-indolencia-e-negro-a-malandragem,70002434689.
Acesso em 24/07/2020.
[107] Leia a íntegra das
declarações em que Sérgio Camargo., da fundação Palmares chama movimento negro
de “escória maldita”. O Globo.
4/06/2020.Disponível em https://oglobo.globo.com/cultura/leia-integra-das-declaracoes-em-que-sergio-camargo-da-fundacao-palmares-chama-movimento-negro-de-escoria-maldita-24462253.
Acesso em 24/07/2020.
[108] NOGUEIRA, André.
Conheça os trabalhos realizados na Vala de Perus - e que estão em risco após
decreto assinado por Bolsonaro. As
aventuras na história. 23/04/2019. Disponível em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/conheca-os-trabalhos-realizados-na-vala-de-perus-e-que-estao-em-risco-apos-decreto-assinado-por-bolsonaro.phtml
Acesso em 24/07/2020.
[109] Comissão da
Anistia indefere 85% dos pedidos de reparação a perseguidos políticos. O Globo. 16/12/2019. Disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/comissao-da-anistia-indefere-85-dos-pedidos-de-reparacao-perseguidos-politicos-em-2019-24141963.
Acesso em 24/07/2020
[110] SAKAMOTO,
Leonardo. Vítimas pedem direito de resposta por governo chamar torturador de
herói. UOL,11/05/2020. Disponível em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/05/11/vitimas-pedem-direito-de-resposta-por-governo-chamar-torturador-de-heroi.htm.
Acesso em 24/07/2020.
[111] ZANINI, Fábio.
Produtora Brasil Paralelo revisa a história em filmes e livros com visão de
direita. Ilustrada,Folha de São Paulo,
São Paulo, 12/08/2019. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/produtora-brasil-paralelo-revisa-a-historia-em-filmes-e-livros-com-visao-de-direita.shtml Acesso em 24/07/2020.
[112] CARDOSO, Ciro
Flammarion. "História e poder. Uma nova história política?" In. CARDOSO, Ciro
Flammarion. VAINFAS, Ronaldo. (org.) Novos
domínios. Rio de Janeiro, Elsevier, 2012. p.50.
[113] “Because the movement to disseminate these myths is
neither scholarship nor historiography, I have chosen to eschew the term
revisionism whenever possible and instead to use the term denial to describe
it. The deniers' selection of the name revisionist to describe themselves is
indicative of their basic strategy of deceit and distortion and of their
attempt to portray themselves as legitimate historians engaged in the
traditional practice of illuminating the past. For historians, in fact, the
name revisionism has a resonance that is perfectly legitimate - it recalls the
controversial historical school known as World War I "revisionists,
"who argued that the Germans were unjustly held responsible for the war
and that consequently the Versailles treaty was a politically misguided
document based on a false premise. Thus the deniers link themselves to a
specific historiographic tradition of reevaluating the past. Claiming the
mantle of the World War I revisionists and denying they have any objective
other than the dissemination of the truth constitute a tactical attempt to
acquire an intellectual credibility that would otherwise elude them”. LIPSTADT, Deborah. Denying
Holocaust. The growing assault on truth and memory. s/l, Plume, 1994. p.25.
[114] O negacionismo de
Robert Faurisson progrediu ao longo de 20 anos: no pós-Guerra Faurisson leu o
livro Nuremberg ou la terre promise (1948)
de Maurice Bardèche, cunhado do escritor fascista Robert Brasillach, que
iniciou o negacionismo na França e fez parte da primeira geração que surgiu no
seio da extrema direita, advinda do fascismo e do colaboracionismo, cujo
objetivo era reabilitar o regime de Vichy.
[115] "Maquis Bernard". Défense de l'Occident,15 juin, 1977 e
"Le problema de la chambre de gaz". Défense de l'Occident, 11 août, 1944,1978.
[116] Ele escreveu "Mémoire en défense contre ceux qui m'accusent de
falsifier l’histoire", La Vieille
Taupe, 1980., "Le journal
d'Anne Frank est-il authentique?", 1980.,
"Réponse à Pierre Vidal-Naquet", La Vieille Taupe, 1982., "Chronique sèche de l'Épuration –
Exécutions sommaires dans quelques communes de Charente limousine", Revue d'Histoire révisionniste, n° 4,
février-avril 1991., "Réponse à Jean-Claude Pressac", Association des anciens amateurs de récits
de guerre et d'holocauste, 1993, "Écrits révisionnistes (1974-1998)",
4 volumes, Édition privée hors commerce, 1999., Prefácio de "The Leuchter
report: the end of a myth an engineering report on the alleged execution gas chambers at Auschwitz,
Birkenau, and Majdanek, Poland" [prepared and written by Fred A. Leuchter]
; foreword by Robert Faurisson. Decatur, Ala. : David Clark, c1988.
[117]AZÉMA, Jean-Pierre Azéma; NOIRIEL,Gérard. L’Express, 2 février, 2006. Disponível
em https://www.lph-asso.fr/indexcb1c.html?option=com_content&view=article&id=19%3Adebat-jean-pierre-azemagerard-noiriel-l-faut-il-abroger-les-lois-memorielles-r&catid=15%3Adebats&Itemid=27&lang=fr
Acesso em 24/07/2020.
[118] Pierre Vidal
Naquet.Wikipedia. Disponível em https://fr.wikipedia.org/wiki/Pierre_Vidal-Naquet#cite_note-36
Acesso em 24/07/2020.
[119] Lipstadt escreveu, além desta obra de 1993, Beyond Belief: The American Press and the Coming of the Holocaust,
1933-1945 (1986) e History on Trial:
My Day in Court with a Holocaust Denier (2005). Ela também foi
nomeada pelo congresso, presidente do memorial do Conselho do Holocausto nos
Estados Unidos para cuidar do Museu Memorial do Holocausto.
[120] Para maiores
referências sobre David Irving ver PELT, Robert Jan van (2002). The Case for
Auschwitz: Evidence from the Irving Trial. Bloomington, Indiana University Press, 2002.
[121] Em 1964 escreveu The Mare's Nest – um relato do programa
da arma V alemã e a contramedidas da inteligência contra isto – foi amplamente
elogiada quando publicada e continua a ser bem vista. Em 1971, Irving traduziu as memórias do General Reinhard Gehlen, e em 1973
publicou The Rise and Fall of the
Luftwaffe, a biography of Field Marshal Milch. No fim dos anos 1970 Irving
dedicou-se a escrever Hitler's War and
The War Path, sua biografia em duas partes de Adolf Hitler; The Trail of the Fox, a biography of Field Marshal Erwin Rommel;
e uma série no Sunday Express descrevendo
a famosa incursão de Dam Busters da Royal Air Force. Nos anos 1980, publicou Churchill's
War (1987) e Goebbels: Mastermind of the
Third Reich (1996).
[122] Irving declarou
que : "Tenho em casa... um gabinete replete de documentos que eu não pauto
de uma vez. Eu os mantenho : eu os pauto aos poucos. Quando eu acho que meu
nome não está nos jornais por várias semanas, bem, eu os chamo e telefono para
eles e digo: 'O que acham deste aqui?'"
[123] David Irving. Wikipedia.
Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Irving.
Acesso em 24/07/2020.
[124] Irving argumentou
que Heinrich Himmler e seu deputado Reinhard Heydrich foram seus idealizadores
e arquitetos.
[125] David Irving. Op.
Cit.
[126] Irving e Faurisson
pegaram um voo até Boston para se encontrar e trazer Leuchter
[127] David Irving.
Op.cit.
[128] Lemish argumentava
que a liberdade de expressão é o principal remédio contra argumentos ruins. Ver LEMISH, Jesse. Why Historians Have a
Responsibility to Condemn the Jailing of David Irving. History News Network. USA, Columbia College of Arts &Sciences,
s/d. Disponível em http://hnn.us/articles/22022.html Acesso 24/07/2020.
[129] LIPSTADT, Deborah. Negação. Uma
história real.
São Paulo, Universo dos Livros, 2017.pp.352-353.
[130] Ibidem.p.380.
[131] Lipstadt chama de
negacionista Yasser Arafat ao coloca em questão a “ligação histórica do povo
judeu e a terra de Israel”. Op. cit.p.382.
[132] EVANS, Richard. Lying
about Hitler; History, trial, and the David Irving Trial. New York, Basic
Books, 2001.p.251.
[133] Idem. p. 261
[135] BENJAMIN, Walter.
Teses sobre a filosofia da História. In: LÖWY, Michael, Walter Benjamín: aviso
de incêndio. Uma leitura das teses 'Sobre o conceito de História', São Paulo,
Boitempo, 2005.p.70.
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