Introdução
As fontes históricas estão situadas no cerne da
metodologia da História. Metaforicamente falando, elas constituem a “máquina do
tempo” dos historiadores – ou o seu “visor do tempo”, se pudermos tomar de
empréstimo estas imagens da ficção científica. Uma vez que o historiador
trabalha com sociedades que já desapareceram ou se transmutaram, ou ainda com
processos que já se extinguiram ou que fluíram através de transformações que terminam
por atravessar os tempos até chegar ao presente produzindo novos efeitos, não
existiria outro modo de perceber estas sociedades ou apreender estes processos
senão a partir das chamadas “fontes históricas” – aqui entendidas como os
diversos resíduos, vestígios, discursos e materiais de todos os tipos que, deixados
pelos seres humanos historicamente situados no passado, chegaram ao tempo
presente através de caminhos diversos.
Se um dia tivermos tecnologias como as “máquinas do
tempo” e os “visores do tempo”, os historiadores terão outras possibilidades de
visitar o passado das diversas sociedades que lhes interessam, ou talvez a oportunidade
de vislumbrar em telas de computador ou de TV imagens pertinentes aos diversos
processos históricos que atravessaram o tempo da vida humana sobre a terra, e
mesmo antes. À semelhança um astrônomo que olha no céu noturno as estrelas, e nesta
operação captura com seus telescópios o brilho de astros que já desapareceram há
milhões de anos, não acho impossível que se desenvolvam no futuro tecnologias
capazes de apreender as luzes do nosso próprio passado planetário e humano.
Basta pensar que, ancorados nessas primeiras décadas do século XXI, quando
olhamos para o céu noturno na direção do Cruzeiro do Sul, estamos enxergando na
verdade luzes emitidas há quinhentos anos atrás, no tempo das grandes
navegações e da chegada dos portugueses a estas terras que depois constituiriam
o Brasil. Literalmente, ao olhar para as estrelas, estamos enxergando o
passado, e mesmo o Sol que podemos vislumbrar a cada instante é o Sol de oito
minutos atrás. Se considerarmos estes aspectos, sonhar com a possibilidade dos
visores do tempo não é propriamente uma quimera. Será que os historiadores
poderão se valer deste recurso, um dia?
Neste momento, no entanto, os historiadores não
possuem outro visor do tempo que não sejam as próprias fontes históricas com as
quais já estão acostumados a lidar desde os primórdios da historiografia. Para
olhar para o passado e apreendê-lo de alguma forma – mas, sobretudo, para
compreendê-lo por dentro, permitindo-nos fazer interpretações adequadas sobre
as relações humanas e sociais – precisamos analisar atentamente os vestígios e
tudo o mais que este passado nos deixou. Estes vestígios, evidências, textos
escritos e objetos materiais – capazes tanto de registrar rupturas do passado
em relação ao presente, como de manifestar continuidades entre as duas
temporalidades sob formas as mais diversas – são as chamadas “fontes históricas”.
Mas o que são, mais propriamente, estas fontes
históricas que são tão essenciais para os historiadores? De que maneiras é
possível trabalhar com elas, e delas extrair não apenas informações, mas também
as mais variadas vozes do passado? Devemos acreditar no que dizem as fontes, ou
delas desconfiar? Como tornar essa desconfiança “científica”? Como, estendendo
nossas ambições para além da própria ciência, poderemos aperfeiçoar a arte de
compreender o passado (e o presente) através das fontes – sejam as deixadas
voluntariamente pelos seres humanos, sejam as que nos chegaram
involuntariamente? Estas são perguntas centrais propostas por este artigo.
Definição de Fonte Histórica
“Fonte Histórica” é tudo
aquilo que, por ter sido produzido pelos seres humanos ou por trazer vestígios
de suas ações e interferência, pode nos proporcionar um acesso significativo à
compreensão do passado humano e de seus desdobramentos no Presente. As fontes
históricas são as marcas da história. Quando um indivíduo escreve um texto, ou
retorce um galho de árvore de modo a que este sirva de sinalização aos
caminhantes em certa trilha; quando um povo constrói seus instrumentos e
utensílios, mas também nos momentos em que modifica a paisagem e o meio
ambiente à sua volta – em todos estes momentos, e em muitos outros, os homens e
mulheres deixam vestígios, resíduos ou registros de suas ações no mundo social
e natural.
Este imenso conjunto de
vestígios – dos mais simples aos mais complexos – constitui o universo de
possibilidades de onde os historiadores irão constituir as suas fontes
históricas. Também é verdade que os grandes processos naturais e planetários,
mesmo sem a interferência originária do homem (mas incidindo sobre este), podem
produzir vestígios que oportunamente poderão conformar fontes históricas. Por ora, todavia, vamos nos ater mais
especificamente às fontes históricas produzidas diretamente pela ação e
existência humanas.
No sentido que indicamos
no parágrafo anterior, são fontes históricas tanto os já tradicionais documentos textuais (crônicas, memórias,
registros cartoriais, processos criminais, cartas legislativas, jornais, obras
de literatura, correspondências públicas e privadas e tantos mais) como também
quaisquer outros registros ou materiais que possam nos fornecer um testemunho
ou um discurso proveniente do passado humano, da realidade que um dia foi vivida
e que se apresenta como relevante para o Presente do historiador. Incluem-se
como possibilidades documentais (ou, mais precisamente, no âmbito do que
chamamos de fontes históricas) desde
os vestígios arqueológicos e outras
fontes de cultura material – a arquitetura
de um prédio, uma igreja, as ruas de uma cidade, monumentos, cerâmicas,
utensílios da vida cotidiana – até representações
pictóricas, entre outras fontes imagéticas, e as chamadas fontes da história oral (testemunhos colhidos ou
provocados pelo historiador). De igual maneira, as investigações sobre o genoma
humano fizeram do corpo e da própria genética uma fonte histórica igualmente
útil e confiável, que inclusive permitiu que os historiadores passassem a ter
acesso aos primórdios da aventura humana sobre a Terra, forçando a que se
problematizasse aquele antigo conceito de “pré-história” que antes sinalizava toda
uma região da realidade um dia vivida que parecia até então interditada ao
ofício dos historiadores.
Podemos lembrar ainda
que, a partir do século XX, quando a Geografia e a História passaram a atuar mais
interdisciplinarmente, mesmo uma paisagem natural passou a ser encarada como
uma possibilidade documental. O mesmo se pode dizer das relações entre a História
e a Linguística, que trouxeram os próprios fatos da língua para o campo das
evidências históricas, e algo análogo ocorre com as perspectivas que se
produziram na confluência entre História e Antropologia, as quais permitem que
se abordem como fontes históricas as evidências e heranças imateriais, já sem
nenhum suporte físico e concreto, tais como as festas dramáticas populares e os
ritos religiosos que se deslocam e perpetuam-se tradicionalmente na realidade
social, ou ainda como os sistemas integrados e reconhecíveis de práticas e
representações, os gestos e modos de sociabilidade, os bens relacionáveis ao
chamado ‘patrimônio imaterial’ (modos de fazer algo, receitas alimentares,
provérbios e ditos populares, anedotários, apenas para citar exemplos).
As fontes históricas,
enfim, não precisam ser – não necessariamente – materiais no sentido
tradicional desta palavra. Nos dias de hoje, inclusive, começa a se abrir para
o tratamento historiográfico um enorme universo virtual produzido pelos
ambientes da Internet. Estes registros virtuais, que serão cada vez mais
analisados pelos futuros historiadores como objeto de estudo e abordados como
fontes históricas para a investigação sobre temáticas diversas, devem ser
vistos como possuidores da mesma qualidade de fontes históricas que os
tradicionais documentos registrados no suporte papel.
É certo que precisou
haver um longo e complexo desenvolvimento historiográfico até que se chegasse ao
momento em que, para além dos documentos e fontes concretizadas em papel ou
qualquer outro material, fossem também admitidas as ‘fontes imateriais’ como
campos de evidências das quais poderia o historiador se valer. De todo modo,
pode-se dizer que, na atualidade, não há praticamente limites para um historiador
quanto às suas possibilidades de transformar qualquer coisa em fonte histórica.
Um repertório de gestos, por exemplo, pode ser revelador de permanências do
passado. Lembremos o hábito de cumprimentar tirando o chapéu, que provém do
repertório de atitudes medievais: quando um cavaleiro cumprimentava o outro,
tirava o elmo em sinal de que suas intenções eram pacíficas (sem o elmo, peça
bélica defensiva, ele manifestava algo como uma proposta de desarmamento).
Foram-se as batalhas e os elmos, e veio a galante sociedade oitocentista dos
chapéus burgueses. O gesto, contudo, manteve-se incrustado no repertório de
atitudes, e mesmo com os chapéus em desuso ainda permanece nos dias de hoje como
um movimento que toca a testa como que para tirar o “elmo imaginário”. É assim
que, em certos hábitos enraizados, expressos na vida cotidiana e na prática
comportamental – também aí poderemos ir buscar uma fonte, uma evidência ou um
testemunho do passado.
Um vocabulário em disputa: fontes ou documentos?
Antes de prosseguir, quero
esclarecer alguns dos termos que estamos utilizando neste livro. Falei atrás, em
alguns momentos, em ‘fontes históricas’ e em ‘documentos históricos’. Estas
palavras costumam ser empregadas, nos meios historiográficos, como sinônimos.
São ‘fontes’ ou ‘documentos históricos’ tanto os textos escritos de todos os
tipos, como também o são as fotografias, os objetos de cultura material ou
quaisquer outros conteúdos e materiais que os historiadores utilizem como
vestígios para apreender a história um dia vivida e para, concomitantemente,
escreverem a História no outro sentido, o de produto de um campo de saber.
O que ocorre é que a
palavra ‘documento histórico’ era muito empregada desde o século XIX, quando os
historiadores utilizavam como fontes de informação e como caminhos de análise,
de modo muito mais preponderante, alguns tipos de textos como aqueles
produzidos pelas instituições, pelos organismos do Estado e dos poderes
constituído; ou, ainda, como as crônicas de época oficiais patrocinadas por
estes mesmos poderes, entre outras possibilidades. Essa escolha de fontes era
essencialmente orientada por um modelo específico de História Política que perdurou
amplamente no primeiro século da historiografia científica. Por causa do amplo
predomínio da produção textual no universo que os historiadores tomavam como o
seu conjunto de fontes históricas – e também por causa da enfática ideia de prova que estes textos assumiam no
trabalho dos historiadores – a designação ‘documento histórico’ surgiu como uma
tendência no vocabulário historiográfico, o que inclusive parecia aproximar do
trabalho dos juristas o tipo de trabalho que os historiadores desenvolviam. A palavra
documento é ela mesma resíduo de um
tipo de História que se fazia em um período anterior.
A prática
historiográfica foi mudando bastante, ao adentrar novas possibilidades teóricas
e metodológicas, da mesma forma que o universo de fontes possíveis aos
historiadores, conforme veremos neste livro, foi se expandindo para muito além
do tipo de textos que os historiadores utilizavam até o século XIX.
Expandiu-se, inclusive, para além das possibilidades meramente textuais, como
já ressaltado. Por causa disso, a palavra ‘documento’, que estava já bastante
incorporada ao metier do historiador, foi também expandindo seus sentidos
possíveis. Começou-se a se entender que tanto um texto (um documento estatal ou
uma receita de bolo) como um objeto material (uma cadeira, por exemplo), ou
ainda uma foto ou uma canção, são todos ‘documentos’, neste sentido ampliado.
Essa extraordinária expansão
do universo das fontes históricas, que abordaremos no momento oportuno, assim
como a concomitante flexibilização de sentidos a partir daí proporcionados pela
palavra ‘documento’, favoreceram o surgimento de outra palavra muito evocada
nos dias de hoje para os mesmos conteúdos, materiais, vestígios e indícios que
os historiadores tinham passado a chamar de ‘documentos históricos’. “Fonte”
(ou ‘fonte histórica’) é este termo mais fluido que passou a ser empregado
alternativamente à palavra ‘documento’.
Pessoalmente, acredito
que essa nova expressão tenda a substituir mais amplamente, no futuro próximo, o
uso da palavra ‘documento histórico’, uma vez que esta última apresenta uma
origem mais restrita e mais bem acomodada aos tipos de textos – frequentemente
documentos escritos demarcados pelas instituições oficiais e encontráveis nos
arquivos – com os quais os historiadores costumavam trabalhar mais no século
retrasado, na sua cuidadosa e obstinada busca de informações. De todo modo,
pode-se dizer que, nos dias de hoje, ‘fontes históricas’ e ‘documentos
históricos’ (neste último caso considerando a palavra com o seu sentido estendido)
são expressões praticamente sinônimas no âmbito mais específico da
historiografia. Neste livro, utilizaremos alternadamente uma ou outra destas
expressões, entre outras que aparecerão mais eventualmente, mas basicamente
estaremos nos referindo em um caso e outro à mesma coisa.
Por fim, resta salientar
que são ainda comuns, nos atuais meios historiográficos, outras expressões como
“vestígios” e “registros históricos”. Este último termo tem como vantagem a
referência ao aspecto informacional de diversas das fontes históricas; e como
desvantagem o fato de que deixa de fora o aspecto não-voluntário de outros
tipos de fontes. Já a expressão “vestígios” – uma palavra que parece aproximar
da historiografia a investigação criminal ou a prática arqueológica – é bastante
adequada para lançar luz sobre o fato de que muitas fontes são efetivamente
produtos ou resíduos de sociedades e processos que já desapareceram ou
findaram; mas deixa-se de iluminar o fato de que outro enorme setor de fontes
históricas possíveis é constituído por textos e objetos que ainda estão em uso
e se beneficiam de releituras ou reapropriações nas sociedades contemporâneas. Além disso, é importante lembrar que, até o século XIX, também a palavra “monumento” foi
muito empregada com o sentido historiográfico de “documento”.
Variados tipos de fontes: a conquista da diversidade
Desde já, é oportuno
ressaltar que a ampliação documental – ou a crescente multidiversificação das
fontes históricas – foi uma conquista gradual dos historiadores. Verificou-se, mais
intensamente, à medida que a historiografia expandia seus limites no decurso do
século XX. O historiador moderno, contribuindo para uma incessante
renovação do seu próprio saber, adotaria no mundo contemporâneo novas
perspectivas, passaria a dispor de novos métodos e a contar com o diálogo e intercurso
de outras disciplinas como a Geografia, a Linguística e a Psicologia – apenas
para mencionar três campos relacionados aos exemplos antes expostos: a
paisagem, a palavra e o gesto. Tudo isto e mais o interesse por novos objetos,
até então negligenciados pela História tradicional, fez com que a historiografia
contemporânea se encaminhasse para necessitar cada vez mais de outros tipos de
fontes que não só as tradicionais crônicas e os habituais registros
arquivísticos.
Assim, se os arquivos oficiais
continuam a ser fundamentais para o trabalho dos historiadores, eles estão
longe de serem suficientes para fornecerem tudo o que os historiadores
necessitam para o seu trabalho. Na verdade, a questão de pesquisar ou não em
fontes de arquivos tem muito mais a ver com o objeto específico ou com os
problemas históricos que estão sendo examinados do que com qualquer outra coisa. Por isso, conforme já ressaltei anteriormente, este aspecto está
algo ligado à gradual imposição da expressão fonte histórica em detrimento da
antiga ideia de ‘documento histórico’ – expressão mais afinada com a
historiografia do século XIX por estar muito relacionada tanto aos arquivos que
na época começaram a ser organizados mais sistematicamente, como também à
maneira como se concebia a História naquele momento.
De fato, quando lançamos um olhar mais longo
sobre a historiografia predominante no século XIX, podemos notar que se esperava
essencialmente, nesta primeira fase da historiografia científica, que o
historiador documentasse – ou mesmo comprovasse no sentido mais especificamente
jurídico – as afirmações que fizesse no decorrer de sua narrativa histórica. A
ideia de que o historiador deve “provar” tudo o que diz, muito referencial no
imaginário historiográfico da época, seria depois substituída pela ideia mais
corrente de que o historiador deve “demonstrar” tudo o que afirma – uma diferença
sutil mas significativa para as novas posturas historiográficas.
Acrescento – ao que já foi discutido até aqui sobre
a tendência cada vez mais saliente de predomínio da expressão ‘fonte histórica’
– o fato de que o historiador de hoje não costuma mais esperar, dos materiais e
evidências que lhes chegam do passado, apenas ou necessariamente uma
“prova”, encarando também as fontes como discursos a serem analisados ou como redes
de práticas e representações a serem compreendidas. A História – na mesma medida em que deixou de ser limitadamente
factual em favor de uma nova historiografia principalmente interpretativa – não
se interessa tão somente em oferecer informações, descrever acontecimentos ou
encadear eventos, mas também, e principalmente, em elaborar interpretações demonstráveis
e bem fundamentadas sobre os processos históricos, em propor hipóteses, em promover
análises, problematizar.
Onde começa a História: no problema ou na fonte?
Este passo nos leva a
uma questão crucial. Um famoso dito proferido pelo historiador francês Charles
Seignobos (1854-1942) - em um manual escrito no trânsito do século XIX para o XX - costumava resumir a preocupação dominante da velha
historiografia: “sem documentos, não há História”. Seu conterrâneo Lucien Febvre (1858-1956), já um
historiador de novo tipo e pertencente a uma nova geração historiográfica,
confrontou este dito com outro igualmente importante: “sem Problema, não há
História”. Esta nova e emblemática sentença, em um artigo mais tarde reunido na coletânea "Combates pela História", foi muito representativa do
alvorecer de uma nova historiografia.
Venerar o documento como
o princípio essencial e único da operação historiográfica, tal como pareciam
propor alguns historiadores tradicionais como Seignobos e Langlois, podia
trazer a reboque a ideia incorreta de que os documentos já estão prontos, à
espera do historiador, e de que os mesmos conteriam informações imobilizadas,
prontas para serem extraídas da documentação à maneira da pérola que se obtém
da ostra. Ao contrário, ao situar o problema como o princípio
de tudo, Lucien Febvre chama atenção para o fato de que a própria documentação
é delimitada ou constituída pelo historiador a partir do problema histórico que
ele tem em vista, e no próprio ato da operação historiográfica. Além disso, o
que se pode buscar neste ou naquele documento histórico também dependeria essencialmente
do problema. Sem reduzir-lhe a importância, esta dessacralização do documento –
e, sobretudo, do chamado ‘documento de arquivo’ – foi decerto muito importante
a seu tempo.
No seio de uma nova história-problema,
hoje já francamente estabelecida, as fontes históricas assumem novos papéis,
para além da mera disponibilização e comprovação de conteúdo informativo. As
fontes não seriam meros registros repletos de informações a serem capturadas
pelos historiadores, mas também diversificados discursos a serem decifrados,
compreendidos, interpretados. Não mais seriam apenas uma solução para o
problema, mas parte do próprio problema. Nas fontes, espelhos de dupla face,
poderíamos ver o passado, mas também a nós mesmos. Não mais um solene ponto de
partida ou de chegada – o big-bang
místico a partir da qual é gerada a operação historiográfica, ou o Santo Graal finalmente
encontrado depois de obstinadas aventuras – as fontes seriam, sim, um lugar
movente no qual o historiador interage com as ressonâncias deixadas pelas sociedades
e processos que decidiu examinar. Neste sentido, as fontes são como que pontos
de encontro, portais através dos quais se tocam duas épocas. Elas são o
“passado-presente”, para aqui empregar uma feliz expressão cunhada pelo
historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-2006).
Por tudo isto, quero
propor um pequeno ajuste, um novo dito que permitirá reunir os dois anteriores:
“sem o encontro entre um problema e suas fontes possíveis, não há História”.
Para construir História, não basta uma ideia na cabeça, ou tampouco ter uma
fonte nas mãos. Estas duas condições são necessárias; mas, isoladas, não são insuficientes.
Para se fazer História adequadamente e dentro do que se espera de uma
historiografia científica, o que se precisa é assegurar uma espécie de entrelaçamento
entre estas duas instâncias. É deste encontro entre o Problema e a Fonte,
envolvido pela vontade de fazer a História, que tudo começa.
Atingimos, aqui, o mais
íntimo âmago da palavra “fonte”. Podemos finalmente compreender por que ela é a
expressão ideal que se apresenta para se referir, de maneira adequada, ao extremamente
vasto conjunto de documentos, vestígios e ressonâncias que, aos historiadores,
se oferecem para a percepção da passagem da vida humana pelo espaço-tempo e
para a compreensão dos processos históricos por ela gerados. “Fonte”! Fascinante
palavra que tanto remete ao fluir
(“as fontes dos rios”) como à ideia de princípio
(“fonte da vida”, “fonte de energia”, “fonte da informação”). Para os historiadores,
de fato, as fontes podem e devem ser duplamente associadas à fluência e ao princípio. Sim, as fontes constituem de alguma maneira um dos
princípios da História, que sem elas não seria possível; mas elas também são intrinsecamente
o que assegura o próprio fluir do discurso do historiador – um tipo de texto no
qual tudo almeja ser demonstrado passo a passo, revivido quando possível,
imaginado quando necessário, problematizado sempre. Um tipo de texto
simultaneamente científico e artístico no qual se assegura ao leitor a
possibilidade singular de transitar entre duas ou mais épocas distintas: a do
próprio historiador, de onde surgem os problemas demandados pelo seu próprio
tempo, e aquelas épocas que já desapareceram, ao deixaram uma infinidade de
vestígios. No fluir das fontes, a História encontra a própria
história.
Tipologia das Fontes
Muitos historiadores se empenharam em inventariar os diferentes tipos de fontes históricas - ou mesmo construir taxonomias relativas a fontes históricas, as quais, à maneiras das taxonomias biológicas que descrevem em pormenor a variedade de diferentes espécies vivas, seriam capazes de descrever os diferentes tipos de fontes históricas e de possibilitar situá-las uma em relação com as outras, e todas no interior de um universo mais amplo que nada deixasse escapar em termos de diferentes tipos de fontes históricas. De minha parte, também me empenhei em construir a minha própria taxonomia - ou o meu próprio panorama de diferentes tipos de fontes históricas - e a expus no livro Fontes Históricas - uma introdução aos seus usos historiográficos (2020).
Minha escolha pessoal para
uma taxonomia das fontes históricas, a qual deverá se mostrar operacional para
os tempos contemporâneos, opta pela divisão das fontes conforme os seus
suportes e linguagens. Trabalho com um duplo critério – o do
suporte e da linguagem – que poderei aqui desenvolver introdutoriamente e apoiar em exemplos. O mesmo critério permitiria posteriormente novas divisões, e no livro atrás mencionado (Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos) a cheguei a uma taxonomia completa, ao
mesmo tempo em que pude elaborar uma reflexão de profundidade acerca das
diversas modalidades e gêneros de fontes históricas disponíveis nos dias de
hoje, com suas respectivas metodologias possíveis.
O conjunto dos diversos tipos de fontes que podem gerar categorias relativamente
aos seus suportes, possibilidades de suportes ou mesmo a inexistência de suportes. As
‘fontes materiais’, aquelas que interessam como objetos mesmos, podem ser contrastadas, por exemplo, com a constelação de categorias que chamei de
‘fontes de conteúdo’, as quais interessam principalmente pelas suas mensagens e
conteúdos mas que, de todo modo, admitem também suportes.
Vamos aclarar neste momento, com um
esquema bem definido, a nova proposta taxonômica. O ‘Quadro 2’, abaixo exposto, foi elaborado de modo a retratar a complexidade das fontes históricas
no que concerne aos diversificados suportes (ou não-suportes) que a elas estão
relacionados. Além disso, procuramos dar conta das linguagens que se
entrecruzam com estas possibilidades de suportes.
Na organização esquemática proposta pelo
‘Quadro 2’, podemos ver três grandes campos de maior destaque, que denominamos
respectivamente (1) ‘fontes materiais’, (2) ‘fontes de conteúdo’, e (3) ‘fontes
imateriais’. Os tempos recentes, anunciadores e portadores de uma autêntica revolução
digital e informática que terminou por se espraiar planetariamente, levam-nos a
admitir como fontes para a história contemporânea também um universo digital
que simplificaremos com a designação ‘fontes virtuais’ (4).
No âmbito das ‘fontes de conteúdo’, conforme
se pode observar no quadro proposto, e consoante o que já havíamos aventado
anteriormente, concebemos uma partição em dois hemisférios laterais, de modo a melhor
ressaltar que de um lado existem as ‘fontes verbais’, amplamente utilizadas
pelos historiadores de todas as épocas, e de outro lado as ‘fontes
não-verbais’, cujo uso historiográfico tem crescido muito nos tempos recentes.
Como o próprio nome já diz, as fontes
não-verbais ultrapassam o horizonte da linguagem verbalizada, seja ela escrita
ou falada, e alcançam outros tipos de linguagens e formas de expressão,
principalmente centradas na exclusividade ou predomínio da ‘imagem’ ou do
‘som’. Ao mesmo tempo, um grupo importante que chamei de ‘fontes complexas’
procura abarcar os gêneros de realizações culturais – e de fontes históricas –
que reúnem dentro de si mais de uma linguagem, sendo que o grande exemplar desta
multiplicidade coordenada de linguagens é o Cinema, já que uma fonte fílmica
contém verbalização (falada e escrita), imagem (seja a imagem-movimento, seja a
imagem fixa das cenografias), e, por fim, o som (sob a forma de música, trilha
sonora, sonoplastia e outras). Inclui-se também aqui a performance, através da
atuação dos atores, o que implica todo um sistema gestualizações, modos de
expressão diversos, linguagens corporais, entre outros aspectos performáticos.
O Teatro acompanha este exemplar em muitos aspectos.
Vamos deixar que nosso olhar se retenha,
por ora, no âmbito das ‘fontes de conteúdo’. No interior de cada hemisfério
(fontes verbais e fontes não-verbais) situamos alguns retângulos maiores, os
quais expressam algumas categorias de fontes com relação aos tipos de suporte e
à linguagem por elas empregados: escrita, oralidade, imagem, som. Nas palavras
menores, sem quadratura, registramos alguns gêneros de fontes que podem ser
agrupados no interior destas categorias mais amplas, ou mesmo entre elas, se
considerarmos o caso das fontes complexas.
Assim, os manuscritos, documentos de
arquivos, livros e impressos diversos acomodam-se ou giram em torno da
categoria das ‘fontes textuais’. Mais adiante, veremos que será preciso avançar
para outra linha de reflexões, de modo a que possamos compreender mais adequadamente
as fontes textuais, pois existem diferentes gêneros de textos como os tratados
comerciais, processos criminais, ensaios, obras literárias, testamentos, certidões,
diários, relatos de viagem, apenas para dar exemplos de alguns itens
relacionáveis a uma diversidade realmente muito grande de distintos gêneros
textuais. Esta segunda diversidade será exposta no próximo artigo, já
relacionado às ‘fontes textuais’.
Por enquanto, como o que nos interessa
neste momento é principalmente falar sobre a combinação entre os suportes e as modalidades
mais amplas de linguagens (verbal, imagística, sonora, digital), vamos apenas
entender as fontes textuais nos termos de divisões mais simples como os ‘manuscritos’
e ‘fontes impressas’ (os ‘documentos de arquivo’ e os ‘livros’, na verdade, não
deixam de ser submodalidades de fontes impressas, lembrando-se ainda que, nos
tempos mais recentes, surgiu a possibilidade das fontes digitalizadas e
disponibilizadas na rede mundial de computadores).
As ‘fontes textuais’, as ‘fontes orais’,
as ‘fontes iconográficas’ e as ‘fontes sonoras’ (incluindo aqui não apenas as
‘fontes musicais’, mas também gravações de todos os tipos) podem ser compreendidas,
tal como já ressaltamos, como subcategorias das já mencionadas ‘fontes de
conteúdo’. Para os historiadores, esta primeira
variedade de fontes adquire importância, principalmente, pelo conteúdo que
transmitem. Isto posto, é importante considerar que estas ‘fontes de conteúdo’
também podem apresentar um suporte qualquer, ou uma materialidade que permite
que o conteúdo seja exposto de uma maneira ou de outra. Se não houver um
suporte material tradicional, como o suporte-livro ou qualquer outra forma de
materialidade impressa, ao menos deve ocorrer ou ser assegurada a ocorrência de
um meio de transmissão qualquer para este conteúdo. A oralidade e a
virtualidade são dois exemplos de transmissores substitutivos de suportes
materiais, pois um poema sempre pode ser recitado por alguém que o memorizou,
ou transmitido instantaneamente pela Internet.
As quatro modalidades básicas de fontes
de conteúdo também implicam em diferentes tipos de linguagens que devem ser bem
compreendidas, conforme já veremos, pois a escrita e a verbalização oral trazem
implicações bem distintas quando comparadas àquelas que são trazidas pela imagem
ou pela sonoridade. Uma fonte textual, por exemplo, apresenta-se frequentemente
em suporte livro, jornal, revista, ou qualquer outro. Nos dias de hoje, conforme
já assinalamos, o mesmo texto que está registrado nas páginas de um livro
também pode ser transmitido via Internet, adquirindo uma existência virtual, ou
pode ser registrado em CDs e DVDs, assumindo uma existência digital. Não
obstante, o que interessa principalmente na fonte textual, quando esta é
utilizada pelo historiador, costuma ser essencialmente o seu conteúdo, ainda
que uma reflexão sobre o suporte original de um texto possa ou deva também ser
incorporada à análise historiográfica, tal como têm proposto autores como Roger
Chartier (1994) e Alberto Manguel (2004) em suas reflexões sobre a modalidade ‘livro’.
De igual maneira, podemos apreender diretamente
ou indiretamente cada texto hieroglífico desenhado nas paredes de uma pirâmide,
ou que se encontre talvez registrado em um papiro originário do Egito antigo. Em
cada um destes casos, o historiador precisará ter consciência de que suporte
trará eventualmente implicações bastante importantes para a análise
historiográfica, embora o principal da análise se volte mesmo para o conteúdo, ao
menos nos casos em que a mensagem textual for o principal objetivo
historiográfico. Ou seja, os historiadores devem considerar em suas análises
que há implicações concernentes ao fato de um texto ter sido escrito originalmente
no suporte livro, em suporte papiro, nas paredes de uma pirâmide ou em um muro
urbano; mas, de todo modo, ainda assim eles poderão aqui analisar textos e
imagens que importam muito mais pelo seu conteúdo.
Considerar o suporte, em algum nível, é
importante, sim, para a análise historiográfica. O autor de um grafite
clandestino, por exemplo, precisou materializar a sua mensagem escrita de
maneira muito rápida, de modo a não ter corrido o risco de ser capturado pela
polícia. O papiro apresenta formas de degradação e preservação distintas do
papel moderno, utilizado no livro, e este atende também aos ditames editoriais,
que trabalham para transformar o objeto livro em algo atraente para o seu
provável consumidor. O suporte, enfim, é importante. Não obstante, não há de
fato como negar que, nas ‘fontes de conteúdo’ – como, por exemplo, as fontes
textuais – o conteúdo ou a mensagem situam-se diretamente no centro da análise,
ao contrário do objeto de cultura material que estiver sendo analisado de um
ponto de vista arqueológico, no qual a análise da materialidade ocupa uma
posição fundamental na interpretação do objeto.
O suporte, além disso, não deve ser
apenas considerado para o caso das fontes textuais. Também a ‘fonte
iconográfica’ – uma pintura, por exemplo – é sempre produzida originalmente em um
suporte, como é o caso dos ‘quadros’ em óleo sobre tela que afloram na pintura
ocidental a partir do Renascimento italiano. Mais ainda: este suporte é único, de
maneira que só existe uma única Mona Lisa
original produzida em 1503 pelo pintor renascentista Leonardo da Vinci
(1452-1519). Entrementes, a verdade é que a imagem da Mona Lisa pode ser transmitida através de inúmeras reproduções, e
também através dos recursos virtuais dos tempos contemporâneos, da mesma forma
que ocorre com um texto. À parte isto, o que nos interessa neste momento é que,
essencialmente, quando o historiador se aproxima da Mona Lisa, estará analisando principalmente o seu conteúdo
imagético, embora em uma pesquisa ou outra possa ocorrer o tratamento desta
fonte – no caso, a Mona Lisa original
– como objeto material.
Vamos considerar agora as ‘fontes
sonoras’, e um grupo particularmente importante no âmbito destas fontes, que é
aquele representado pela ‘fonte musical’. A música pode ser transmitida através
de partitura, ou realizada em sonoridade através da gravação em CD que
concretiza o registro de uma performance específica. Além disso, a Música – e
performances específicas de uma determinada música – também pode ser passível
de transmissão através de meios virtuais, tal como é extremamente comum nos
dias de hoje. Analisar historiograficamente as fontes
musicais implica conhecer bem esta linguagem que é a Música – compreender o que
é uma escala, um acorde, as formas musicais, os diversos gêneros de música e
inúmeros outros aspectos. Mereceria um livro específico a discussão dos
elementos dos quais os historiadores precisarão se acercar nos momentos em que
desejarem efetivamente trabalhar com fontes musicais. É preciso conhecer
conceitos como o de polifonia, monodia, homofonia, entender o que é a harmonia
e como sobre ela pode ser ajustada uma melodia, ou vice-versa. Mas por ora não
nos deteremos nestes aspectos, que nos desviariam demais do assunto mais geral
proposto por este texto introdutório sobre as fontes históricas[1].
Quero voltar à categoria mais ampla das
‘fontes de conteúdo’. A grande importância historiográfica do “conteúdo” transmitido
por estas modalidades básicas de fontes – sejam elas textuais, visuais ou
sonoras – fez com que as denominássemos, na categorização anterior, como ‘fontes
de conteúdo’, modificando um pouco a terminologia que já havia sido utilizada
na taxonomia proposta por Julio Aróstegui no início do século XXI. Este novo conceito,
aqui empregado para ressaltar a distinção entre este universo complexo de
fontes e o igualmente grande conjunto das ‘fontes materiais’, parece-nos mais
adequado para abordar o problema da vasta complexidade de tipos de fontes
históricas na historiografia contemporânea, mesmo com todas as ambiguidades que
a expressão possa comportar.
Mencionei ainda as ‘fontes imateriais’, representadas
na parte direita do ‘Quadro 2’, que de modo geral são aquelas que não admitem o
suporte, ou que dele prescindem muito claramente. Um sistema de gestos, uma
festa dramática, um ritual religioso, uma prática que sobrevive milenarmente através
de suas repetidas variações, uma outra prática que já foi até mesmo tombada
como ‘patrimônio cultural imaterial’ ... eis aqui alguns exemplos que podem se
referir a um tipo de fonte que, rigorosamente falando, não comporta o suporte
material. Estas fontes, imateriais por excelência, reatualizam-se a cada
momento, e delas podem se valer os historiadores de muitas maneiras, sem que se
apresente aqui o suporte, nem obrigatoriamente, nem circunstancialmente. Nada impede, é claro, que alguém filme
uma performance de Festa Dramática, e com isso superponha a esta realização específica
de uma festa dramática uma nova fonte, audiovisual, que é a mídia onde foi ou será
gravada a fonte imaterial. Mas agora teremos de fato uma nova fonte, pontual,
visual e sonora ao mesmo tempo, gravada no suporte mídia escolhido. Da mesma maneira,
podemos facilmente gravar um comediante performatizando um repertório de
anedotas que já fazem parte da cultura popular, e assim por diante. A piada – a
fonte imaterial em si, já integrada a um repertório popular de anedotas que
circula na sociedade – deve ser distinguida, é claro, da performance específica
desta piada que foi gravada pelo pesquisador. Temos aqui, enfim, duas fontes
envolvidas, em superposição: a piada circulante – ‘fonte imaterial’ – e a piada
performatizada, gravada no registro digital em determinado lugar e data.
Ainda a propósito das ‘fontes
imateriais’, quero registrar que o empenho dos governos modernos em registrar o
patrimônio coletivo, e tombá-lo com vistas à sua preservação, fez com que
muitas Constituições, nos diversos países da atualidade, obriguem ou recomendem
a criação de ‘livros de registro’ relativos a estas ‘fontes imateriais’. Para
citar o caso do Brasil, foi instituído o Registro
de Bens Culturais de Natureza Imaterial[2], e com isso surgiram alguns livros oficiais que buscam
colocar por escrito algumas sinalizações e referências relacionadas a estas
fontes imateriais. Há o Livro de Registro
dos Saberes, o Livro das Formas de
Expressão, o Livro das Celebrações
e o Livro dos Lugares. Conforme se
vê, aqui se entrecruzam a produção imaterial e estes novos registros ‘textuais-imagéticos’
que foram elaborados para atender à legislação de preservação do patrimônio
cultural. O historiador pode então dispor de fontes que se transmitem de forma
oral, prática ou performativa, mas que também se acham registradas em impressos
produzidos pelos organismos estatais[3]. Compreender esta duplicidade e
superposição de fontes performativas e de fontes imateriais, que podem se
referir à mesma realização cultural, é muito importante para os historiadores. Assim
– à parte a possibilidade de serem cuidadosamente registradas em fontes
impressas e digitais que apenas as replicam parcialmente, seja através de
indícios postos por escrito ou de uma performance específica que foi gravada – as
fontes imateriais correspondem, de fato, a uma diversidade de realizações
culturais em potencial que estão circulando pela sociedade através de inúmeras práticas,
transmissões orais e performances específicas[4].
No lado direito do ‘Quadro 2’, situei no
campo das ‘fontes imateriais’ tanto aquelas que são conservadas e transmitidas
pela prática e pelo hábito (parte de baixo), como aquelas que requerem
performances para se manifestarem mais uma vez a cada instante, tais como os
ritos religiosos, festas dramáticas, jogos infantis, narrativas de anedotas ou
mitologias (parte de cima). Um sistema de gestos, por exemplo, é
incorporado quase que automaticamente por aqueles que usufruem desta forma de
expressão e modo de comunicação. Aponta-se com o dedo indicador para sugerir
certa direção (e não com o dedo anelar ou mínimo). Acena-se de um jeito ou
outro para denotar boas-vindas ou dizer adeus. Utiliza-se certa combinação ou
disposição dos dedos para sinalizar vitória ou para insultar um oponente. Isto
é feito automaticamente por aqueles que pertencem a uma mesma cultura, e os
historiadores podem tratar estes vários gestos ou sistemas gestuais como ‘fontes
imateriais’ a serem analisadas.
Ainda sobre as fontes imateriais, quero
ressaltar que o esquema proposto tenta resolver visualmente alguns problemas
difíceis, concernentes à organização gráfica e à complexidade real relacionada
ao que são realmente as fontes históricas. Por exemplo, há músicas – tais como
as canções de ninar, os cantos de trabalho, as canções folclóricas de modo
geral e aquelas pertencentes às tradições rituais e religiosas – que deveríamos
localizar neste setor, uma vez que pertencem a uma tradição circulante e
imaterial. No entanto, além de constituir um conjunto indefinido de ‘fontes
imateriais’, esta produção musical folclórica também faz parte do universo das
‘fontes musicais’ (ou das fontes sonoras). Por causa disso, no esquema proposto
(‘Quadro 2’) fizemos com que ficasse atravessado o retângulo relativo às
‘fontes sonoras’, fazendo-o tocar também neste setor à direita do quadro (as
‘fontes imateriais’). Foi uma tentativa de simbolizar essa possibilidade de
imaterialidade da música, que de fato ocorre devido à própria natureza da experiência
musical, embora a maior parte das realizações musicais efetivas, em geral
autorais, possa ser perfeitamente considerada como ‘fontes de conteúdo’,
não-verbais’, enquadráveis nas ‘fontes sonoras’.
As ‘fontes materiais’ (1) constituem um
capítulo à parte, com muitas implicações, as quais não poderão ser abordadas
todas nos limites deste livro. Conforme já foi dito, as ‘fontes materiais’
devem ser compreendidas como aquelas que são
o próprio suporte (os objetos de cultura material), ou que se valem muito demarcadamente
de suportes específicos para transmitir mensagens e conteúdos em diferentes
tipos de linguagens, em distintos níveis simbólicos, e integrando variadas
funções. As ‘inscrições’, por exemplo, apresentam
uma mensagem escrita que se mostra inseparável do seu objeto, e um grafite
certamente não faz sentido fora do muro que se tornou seu corpo. Enquanto isso,
um poema adquire vida própria fora do livro em que foi publicado pela primeira
vez, e pode ser lido em voz alta sem necessitar deste suporte para a sua plena
compreensão. De fato, quando ouvimos um poema, é o texto o que realmente
importa – a não ser, é claro, no caso muito específico da ‘poesia concreta’,
que une o discurso poético a uma certa disposição gráfica que se torna, ela
mesma, parte do poema e fornecedora de sentido.
Fontes materiais por excelência são os
objetos, os utensílios e artefatos, mas também a espacialidade material, tal como
o tecido viário através do qual o historiador pode ler a história da cidade, e
também os ‘lugares’, nos quais “se concentram e se reproduzem práticas
culturais coletivas, como mercados, feiras, santuários e praças”[5]. Quero chamar atenção para um problema
importante que concerne à análise das ‘fontes materiais’. No caso delas, a
forma material é a questão de primeira ordem, além dos materiais concretos que
constituem substancialmente a fonte. Isso não quer dizer, contudo, que esta
modalidade de fontes não apresente questões ideológicas, simbólicas e
discursivas a serem analisadas. Pretendo mostrar isso a partir de alguns
exemplos bem simples. O primeiro deles refere-se ao fato de que, nos objetos
materiais, a forma e a função acham-se particularmente integradas, de modo que
é possível analisar uma a partir da outra, o que é particularmente importante
para a análise historiográfica.
Pensemos por exemplo em uma ponte. Este
artefato urbano ou rural – ou este “fixo”, para retomarmos uma terminologia
proposta pelo geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001)[6] – foi idealizado pelos seres humanos para cumprir uma
determinada função, e é assim que as pontes reaparecem inúmeras vezes em
realizações específicas que assumem, em cada caso, a forma mais apropriada. A
forma abaulada de uma ponte, conforme já discuti em outra oportunidade[7], pode ser compreendida como a materialização de uma
função específica que é a própria razão de ser deste objeto. Melhor dizendo,
quando uma fonte possui a forma abaulada, isso se dá para atender à combinação
de suas duas funções principais: permitir o trânsito de uma à outra margem do
rio, e permitir que, abaixo de si, as embarcações circulem. Se a ponte é de
içar, isso significa que, eventualmente, o rio é atravessado por grandes
embarcações. Conforme se vê, a mais simples análise da forma de um objeto já
permite entrever sua função, pois esta se materializa na própria matéria e
formato do objeto.
Uma colher foi feita para escavar
comida. Um garfo é constituído em seu formato para espetar comida e depois
içá-la à boca; da mesma forma que, no formato e nos materiais que constituem
uma faca, bem como na presença de um lado cortante, fica muito explícita a sua
função de cortar e partir. Os objetos, desta maneira, falam de si mesmos, e de
suas funções, através de seus formatos e dos materiais que os constituem. Eles
também têm uma história, e devem ser inseridos na série histórica que os
redefiniu, além de serem comparados com outros objetos de mesmo tipo presentes
na sua contemporaneidade.
As ‘fontes materiais’, a exemplo dos
objetos, também falam da ideologia que os justifica e da simbologia que carregam.
Não é possível para os indivíduos de inúmeras culturas deixar de olhar para uma
coroa – com suas pedras preciosas e seu formato que imita os raios do sol – sem
enxergar o simbolismo de poder que ela traz e o ápice de hierarquia que ela
representa. Ao olharmos para um exército com muitos uniformes, e identificarmos
neles a superposição de medalhas e insígnias de diferentes tipos e cores,
também sabemos de imediato que aqueles objetos representam hierarquias, mesmo
que não conheçamos exatamente o sistema de sinais neles implicado. As medalhas
servem para separar os homens uns dos outros, e agrupar alguns por oposição a
outros, terminando por hierarquizá-los. Podemos não conhecer o sistema de
condecorações que temos diante de nós, mas somos capazes de reconhecer a sua
presença de um só golpe de vista, ao olhar para um desfile militar
Os exemplos são muito simples, mas
ilustram o que os historiadores precisam fazer diante das fontes materiais.
Precisam olhar para a forma dos objetos e para a sua materialidade, situá-los
em um conjunto sincrônico (objetos que com eles conviveram ao mesmo tempo),
localizá-los em uma série diacrônica (a série histórica relacionada ao objeto),
e daí extrair conclusões sobre a sociedade que os produziu, sobre o simbolismo
que neles está envolvido, sobre as funções práticas e sociais que o objeto
desempenha, sobre as ideologias e hierarquias que ele denota.
No ‘Quadro 2’, situei ainda, no interior
do sombreado pertinente às ‘fontes materiais’, uma categoria de fontes que
começou a ser muito considerada pelos historiadores a partir do século XX, e
que chamei de ‘fontes naturais’. Uma paisagem, um campo de cultivo, a natureza
interferida pelo ser humano, passaram a ser possibilidades importantes de
fontes históricas para os historiadores modernos. No esquema, podemos ver que os
fósseis constituem fontes peculiares: situam-se a meio caminho das fontes
naturais e dos objetos de cultura material. Os ossos e crânios humanos, por
exemplo, costumam ser transformados em objetos de museu, e ali poderão ser
consultados ou servir de estudo e entretenimento para olhares curiosos. Da
mesma maneira, o organismo que é fossilizado – o esqueleto de um dinossauro,
por exemplo – torna-se depois um objeto de cultura material exposto no mesmo
museu. Podemos lembrar ainda que os ossos de animais também podem ser
transformados pelos seres humanos em armas ou utensílios, de modo que, ao olhar
para um osso fossilizado, devemos entender a possibilidade de pensar nele como
um resíduo da natureza ou como um resíduo cultural. Devemos enxergar no osso a
Natureza e o Homem, bem como a sua interação. De modo inverso, o objeto de cultura
material produzido por uma civilização antiga – um machado, uma roda, um arco
com suas flechas – pode retornar ao mundo material da natureza, e depois,
séculos mais tarde, pode ser finalmente resgatado das camadas de terra que o
separam de nós para ser catalogado arqueologicamente – gerando, então, uma
imagem em um ‘catálogo’, que constitui simultaneamente um texto escrito e
imagético. Depois de ser filmado, fotografado, medido, anotado e registrado
arqueologicamente no que concerne às suas características, circunstâncias e
posição no sitio em que foi encontrado, o objeto pode ser depois conduzido a um
museu, onde terminará por ter um destino similar ao esqueleto do dinossauro.
No ‘Quadro 2’, situei no âmbito das ‘fontes
de conteúdo’ uma modalidade atravessada entre as ‘fontes verbais’ e as ‘fontes
não-verbais’. As ‘fontes complexas’, também disponíveis aos historiadores,
referem-se a combinações que não podem ser desconsideradas. Temos fontes que
constituem imbricamentos entre duas categorias – como a cerâmica, que é objeto
de cultura material mas também é fonte imagética – ou entre muitas categorias,
como o Cinema, que nos oferece o caso exemplar de uma fonte que se situa em um
universo de realizações que inclui a linguagem verbal, imagética e sonora. Obra
necessariamente coletiva – tanto em sua produção como em sua recepção – e
multidiscursiva, incorporando todas as demais artes e um grande número de
práticas tecnológicas, o Cinema também produz registros em suportes diversos: o
roteiro que sintetiza a obra e a prepara para a performance, o filme que se
mostra como produto final e depois atinge as telas para exibição coletiva, a
película original e o DVD que a multiplicará em objetos culturais vendáveis, o
arquivo virtual que poderá circular pela internet e em aplicativos variados,
fora toda a cultura material produzida nas filmagens através de aspectos como a
indumentária e cenografia ou relacionada à divulgação e apresentação do
espetáculo cinema (cartazes, folhetos, óculos 3D). O Cinema é a complexidade
por excelência. Onde situá-lo, para adequá-lo a um esquema mais simples?
Por fim, em um pequeno triângulo à parte
(4), situamos as ‘fontes virtuais’. Geradas pela Internet, as fontes virtuais
podem conduzir textos e imagens, e haverá um momento em que talvez se tornem
aptas a conduzir informações que permitam a “impressão” de um objeto de três
dimensões. Quando um site expõe virtualmente um texto, estamos diante da fonte
virtual, mas também da fonte textual que a nós se apresenta e que, facilmente,
poderia ser reconduzida às páginas de um livro impresso. Podemos vislumbrar no
mesmo site a imagem de uma pintura de Leonardo da Vinci ou de Pablo Picasso, e
também poderemos tê-las no instante seguinte se apertarmos o comando que aciona
a impressora ligada ao computador. No universo tecnológico atual, enfim, é
possível um trânsito imediato entre o virtual e o impresso, e deste àquele,
através do recurso de scanner. Se aderirmos à imaginação da ficção científica,
talvez se torne mesmo possível o trânsito entre o material e o virtual – e o
registro rigoroso da combinatória de padrões que constituem um indivíduo vivo poderá
um dia se abrir a possibilidades como o teletransporte, no qual o material se
transforma em virtual e depois é reconvertido ao seu estado material de origem.
As fontes virtuais, desta maneira, constituem um caso à parte porque ampliam as
possibilidades de conversão e reconversão de fontes textuais, sonoras,
imagéticas, materiais e mesmo naturais.
Para dar um último exemplo, e agora
retornar ao âmbito das ‘fontes materiais’, podemos considerar que o traçado de
uma cidade – com suas ruas e avenidas, e com todos os objetos que se erguem
sobre o plano urbano – constitui um imenso objeto de cultura material que, como
tal, pode ser analisado pelos historiadores. Através da sua polifonia de
objetos vindos de muitos tempos distintos, a cidade nos conta muitas histórias,
apresentando-se ao historiador como fonte material. Mas ela também é o próprio
ambiente em que o historiador vive. A cidade pode ser vista como um grande
objeto material, infinitamente complexo e desdobrado, mas também como um
ambiente, ou ainda como uma macro-fonte para a compreensão da história
ambiental, imbricando-se ao ambiente natural que entra por dentro dela e que,
junto à materialidade produzida pelos próprios seres humanos, também a
constitui.
O ‘Quadro 2’, enfim, procurou apenas
retratar uma complexidade, e não resolvê-la. A partir deste momento, pretendo
discorrer sobre uma categoria especial entre as ‘fontes de conteúdo’, a qual
tem sido de longe, até o dia de hoje, a mais utilizada pelos historiadores: a
‘fonte textual’. Esta reflexão específica ocupará toda a segunda parte deste
livro.
José D'Assunção Barros
O texto aqui apresentado corresponde a partes dos capítulo iniciais do livro Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos (BARROS, José D'Assunção. Petrópolis: Editora Vozes, 2020).
A continuação deste livro também já foi publicada, com o título A Fonte Histórica e seu Lugar de Produção(BARROS, José D'Assunção. Petrópolis: Editora Vozes, 2020).
NOTAS
[1]
Desenvolvi o tema da análise historiográfica de fontes musicais no artigo História e Música: considerações sobre suas possibilidades de interação (BARROS,
José D'Assunção. História & Perspectivas, vol. 31, n°58, p.352-372, 2018).
[2]
Decreto n° 3.551/2000.
[3]
“Em 20 de dezembro de 2002, o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras foi o
primeiro bem cultural catalogado no Livro de Registros de Saberes, por
solicitação da Associação de Paneleiras de Goiabeiras e da Secretaria Municipal
de Cultura de Vitória, com o objetivo de preservar o saber tradicional
relacionado à fabricação artesanal de panelas de barro em Goiabeiras Velha,
Vitória (ES)” (CASTRO, 2008, p.17).
[4]
Assim, o Livro dos Saberes – registro
escrito e oficial do patrimônio nacional brasileiro no que concerne “aos
conhecimentos modos de fazer” – pode registrar passo a passo a receita do pão
de queijo, ao mesmo tempo em que um DVD pode registrar a filmagem de uma festa
dramática ou de um rito religioso. Entretanto, a fonte imaterial propriamente
dita não é a receita, mas o próprio modo de fazer o pão de queijo, e o Bumba
meu Boi é a festa dramática em si mesma, e não aquela performance mais
específica que ocorreu em um dado momento e lugar, encontrando-se agora
registrada em um DVD.
[5]CASTRO,
2008, p.17.
[6]
SANTOS, 1978.
[7] História, Espaço, Geografia (BARROS, José D'Assunção. Petrópolis: Editora Vozes, 2017, p.68).
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