A História, como se sabe, deve ser entendida nos dias de hoje como uma "ciência interpretativa". Isso quer dizer que a sua principal função é produzir diversas interpretações plausíveis e problematizadas para a compreensão das realidades que toma para seu objeto de estudo - ou seja, as sociedades humanas no tempo e os processos históricos que as afetaram. Não é função da História - embora este atributo também seja decorrente da atividade central dos historiadores - apenas descrever as sociedades que já existiram ou narrar factualmente os processos históricos que já se desenvolveram. Embora a descrição de contextos históricos e a narração de fatos decorra necessariamente do trabalho dos historiadores, a principal função destes últimos é a de pensar a realidade histórica, propor interpretações acerca dos diversos processos históricos examinados e sobre porque certas sociedades se desenvolveram de uma maneira e não de outra.
O historiador, acima de tudo, é um propositor de interpretações historiográficas. É um problematizador da história - agora compreendida como espaço-tempo onde se dão os chamados acontecimentos históricos*. O historiador, pelo menos nos dias de hoje, não é um mero enunciador de fatos, nem um simples delineador de ambientes históricos. Esta consciência histórica, típica dos historiadores contemporâneos desde as primeiras décadas do século XX, demarca muito claramente a ascensão de uma 'História-Problema' em detrimento da antiga 'História Factual'.
É óbvio que o historiador trabalha com os fatos - os quais precisam ter seus indícios bem comprovados e presentes nas fontes históricas de diversos tipos. No entanto, só isto não é suficiente para o trabalho do historiador. Para produzir suas diferentes interpretações históricas, os historiadores precisam trabalhar com problemas históricos bem delimitados (fazer perguntas à realidade histórica que está examinando) e propor hipóteses provisórias para iniciar a sua investigação (aspecto que abordaremos oportunamente). Neste texto, contudo, queremos discorrer sobre uma consequência importante do fato de que a História é uma "ciência interpretativa": a condição de que a ciência histórica está em permanente elaboração no que concerne aos diferentes processos por ela examinados.
Não existe uma verdade única e definitiva para os historiadores
É já bem conhecida a aparente contradição ou dilema no qual se funda o próprio trabalho do historiador: ao mesmo tempo em que este busca obstinadamente construir um conhecimento que possa ser considerado verdadeiro, dificilmente o sujeito que produz o relato historiográfico pode deixar de considerar, em algum nível, que o conhecimento assim produzido refere-se sempre a um ponto de vista, a uma perspectiva, a escolhas relacionadas a aspectos vários que vão desde as visadas possíveis em relação a um objeto às decisões ligadas ao ato enunciar, em forma de texto, as conclusões da pesquisa.
Na produção do conhecimento histórico, enfim, um certo compromisso de falar sobre algo verdadeiro confronta-se com o reconhecimento de que, talvez mais do que em qualquer outra área do saber, o conhecimento produzido pelos historiadores é relativo. A forte presença do sujeito ao abordar o objeto histórico, e as marcas que ali são deixadas pela sua própria época e lugar de produção – sem considerar ainda que o historiador trabalha sempre com a mediação produzida pelas suas próprias fontes – fazem da História uma modalidade de conhecimento que não descreve integralmente uma verdade histórica independente do historiador que a produz, ainda que todo instante o historiador precise se empenhar em oferecer à sua comunidade de leitores alguns índices de veracidade em relação ao objeto ao qual se refere.
Em tempo: se não existe uma verdade única e externa que será descrita de uma vez por todas pelo historiador, como se este pudesse assumir um ponto de vista neutro e onisciente, isso não significa que esse mesmo historiador não possa discorrer cientificamente sobre uma realidade histórica efetiva, da qual ele pode apreender aspectos objetivos e concretos que lhes chegam através de fontes de todos os tipos, e que devem ser analisadas com uma metodologia adequada. O historiador trabalha efetivamente sobre uma base factual objetiva - que ele não inventa, e que deve estar fundamentada nas fontes e vestígios de todos os tipos - ainda que esta base esteja sujeita a uma aproximação subjetiva, interpretativa, alicerçada em problemas que são propostos pelo próprio historiador e em hipóteses que são entretecidas por ele mesmo. De fato, existe já de saída uma parte de subjetividade que é trazida ao trabalho historiográfico a partir das próprias escolhas que são feitas pelos historiadores - relacionadas aos problemas por eles definidos, às hipóteses por eles formuladas (e que podem ser rejeitadas se se mostrarem inadequadas), às fontes que eles propõem-se a examinar, ao universo conceitual por eles utilizados, e ao próprio estilo e conjunto de características que dão uma identidade a cada historiador.
A dinâmica da objetividade e subjetividade na História
Este sofisticado jogo entre objetividade e subjetividade não nos deve iludir. A História pode ser tratada efetivamente como um conhecimento científico, desde que pensemos nela como uma ciência interpretativa. E, certamente, não podemos falar a respeito de um assunto historiográfico qualquer tudo o que quisermos. Por exemplo, ao examinarmos o período nazista alemão, podemos formular diferentes hipóteses acerca de um problema bem definido: "porque o Nazismo, ao lado de outros movimentos fascistas, surgiu na década de 1920 e teve sucesso em ascender ao poder nas décadas seguintes?" Este problema pode ser abordado a partir de muitas hipóteses, e dar origem a diferentes interpretações historiográficas. Uma boa parte destas diferentes interpretações historiográficas sobre o Nazismo serão aceitas como plausíveis, se estiverem baseadas em fatos, em análises adequadas de fontes, em formulações conceituais pertinentes, e em articulações lógicas aceitáveis. Obviamente que também poderão surgir interpretações estapafúrdias, inadequadas, mal engendradas, e mesmo absurdas, as quais serão certamente rejeitadas pela comunidade historiográfica. Posto isto, nunca existirá uma única interpretação historiográfica que responde ao problema da origem do Nazismo e que exclui todas as demais. E assim ocorre para qualquer problema historiográfico no qual possamos pensar.
Continuando com o mesmo exemplo - o do Nazismo histórico - podemos compreender que, a partir de uma mesma base adequada e correta de dados e de fontes históricas, podem ser produzidas interpretações aceitáveis ou inaceitáveis. No último caso, isso pode se dar porque a qualidade da argumentação é questionável, ou porque certos conceitos estão sendo utilizados de maneira indevida, ou porque as fontes não foram analisadas de acordo com uma metodologia crítica e convincente, entre outros problemas.
Contudo, temos uma situação ainda mais drástica, de um ponto de vista historiográfico. Aquela em que a própria base objetiva de trabalho já se mostra, desde a partida, comprometida: os próprios dados estão corrompidos, e as fontes são ignoradas, deturpadas ou mesmo falsificadas. Assim, por exemplo, sabemos que existiram 'campos de concentração' na Alemanha Nazista. Isso é um fato, que pode ser comprovado com uma simples visita a museus que se ergueram sobre a base material dos antigos campos de concentração nazistas, além de, principalmente, poder ser verificado em fontes as mais diversas - desde troca de correspondência oficial ou oficiosa entre as autoridades e os agentes prisionais alemães, até os depoimentos de pessoas que viveram aqueles acontecimentos, seja de um lado ou de outro (como prisioneiros, como agentes prisionais ou como testemunhas). Documentos contábeis, relatórios, relatos informais, diários escritos por prisioneiros ou mesmo por auxiliares do regime nazista, fora a própria cultura material deixada pela presença dos campos de concentração - há um universo de fontes amplo e diversificado que não apenas confirma, como permite aos historiadores descrever detalhadamente como era a vida em um campo de concentração nazista. A existência ou não de campos de concentração não pode ser objeto de uma discussão historiográfica séria. Sabe-se que os campos de concentração nazistas existiram na mesma medida em que se sabe que os portugueses e espanhóis chegaram às Américas nos séculos XV e XVI, ou que a Independência do Brasil foi formalmente proclamada em 1822.
Os historiadores não discutem fatos comprovados. É verdade que podemos enunciar os fatos de muitas maneiras - e aqui voltamos ao tema das múltiplas interpretações historiográficas. É fato que as caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral chegaram ao continente que futuramente seria denominado América do Sul em 22 de abril de 1500. O que podemos é narrar este acontecimento de maneiras diversas: era comum abordar este fato - a chegada dos portugueses a esta parte do continente sul americano - como o "descobrimento do Brasil". Descrever desta maneira esse fato é produzir um ponto de vista, o português, ignorando o ponto de vista dos nativos brasileiros que aqui já estavam: indígenas para os quais a chegada dos portugueses bem que poderia ser descrita como a "invasão de Pindorama", ou de qualquer outra maneira que poderíamos tentar imaginar.
Os fatos, enfim, existem e podem estar bem registrados em algumas de suas implicações nas fontes históricas. Alguns deles são muito simples e não há muito o que discutir. Outros podem ser enunciados de maneiras diversas, que já denunciam micro-interpretações historiográficas. De uma maneira ou de outra, contudo, os historiadores trabalham sobre uma base objetiva de fatos que são trazidos por uma diversidade de fontes históricas - e é sobre esta base objetiva que eles constroem as suas diferentes interpretações historiográficas.
A História está sempre sendo reescrita
Sendo uma ciência interpretativa, a História nunca deixará de produzir novas interpretações históricas sobre os mesmos acontecimentos que já foram examinados muitas vezes pelos historiadores. Como se disse mais acima, os problemas historiográficos não têm uma resposta única, como ocorre frequentemente com os problemas nas áreas relacionadas às ciências exatas. Para o problema histórico "porque ocorreu o Nazismo na Alemanha da década de 1920", ou para o problema "porque os espanhóis e portugueses iniciaram a sua expansão marítima no século XV", sempre existirão muitas respostas - isto é, muitas diferentes interpretações sempre poderão se desdobrar destes problemas propostos.
Por outro lado, os fatos simples não podem ser reescritos. O Nazismo foi uma ditadura de extrema-direita, foram construídos campos de concentração pelo regime hitlerista. e houve perseguição ou segregação de grupos diversos pela intolerância nazista. Estes são fatos. É claro que o primeiro fato - o caráter ditatorial de ultradireita do Nazismo - iria requerer uma explicação mais sistemática sobre os conceitos de "ditadura" e de "ultradireita". Já a existência de campos de concentração é um fato simples, que pode ser enunciado linearmente e que é diretamente comprovado, assim como também a perseguição de grupos sociais diversos pela política arianista nazista. De um modo ou de outro, temos aqui fatos que não são questionáveis. Porque aconteceram estes fatos, como eles se inseriram em um sistema político mais amplo ou em um contexto histórico mais específico, ou, ainda, quais foram as implicações de cada um destes fatos para o futuro, este já é um campo de problemas que constitui um vasto universo que termina por se abrir a futuras interpretações historiográficas.
A História (a História escrita pelos historiadores, que aqui grafaremos com o "H" maiúsculo), é constantemente reescrita - dentro de bases objetivas que lidam com as intersubjetividades próprias ao âmbito historiográfico, e sempre a partir de uma perspectiva científica, séria, amparada na legitimidade de historiadores que conhecem as regras e compromissos do seu ofício. Mas quanto à história (o campo dos acontecimentos e processos que já ocorreram no âmbito da realidade histórica que um dia foi vivida, e que aqui grafaremos com "h" minúsculo), esta não pode ser reescrita. A História deve ser reescrita constante e permanentemente - na mesma medida em que surgem novos problemas, novos interesses em fazer novas perguntas, novos aportes conceituais, novas possibilidades metodológicas. Mas não há como reescrever a história- campo de acontecimentos - isto é, não há como alterar os fatos e refabricar as fontes. Podemos fazer novas perguntas às fontes de todos os tipos, mas não podemos falsificar as fontes.
Em 1984, famoso livro de ficção escrito por George Orwell em 1948, temos o exemplo ficcional de uma sociedade distópica que manipula a memória coletiva e que reinventa a história a cada instante com vistas a atender a interesses políticos, militares e de controle da população. Não se trata, contudo, da já tradicional reescrita constante e permanente da História (que, aliás, não deve nunca cancelar as escritas anteriores, mas sim se somar a elas). Trata-se, neste pesadelo futurista imaginado por George Orwell, de uma permanente reescrita da história (da história campo de acontecimentos). Esta sociedade imaginária possui - entre suas várias instituições de controle e opressão - um contraditório "Ministério da Verdade", cuja principal função é reescrever os próprios registros históricos. A metodologia, neste caso, volta-se para a alteração de dados, e não para o seu levantamento preciso e esclarecimento, tal como ocorre na historiografia habitual.
Conforme mudam os inimigos (e eles mudam constantemente) os funcionários deste Ministério alteram os dados e as próprias fontes históricas: de saída, os jornais do passado, arquivados no Ministério da Verdade, são todos alterados de modo a darem notícias de acordo com as novas alianças políticas; os relatórios oficiais do passado são todos reescritos, mostrando que o inimigo sempre foi a nação que, até pouco tempo, era chamada de amiga. Os indivíduos que caíram em desgraça perante o Governo, e que antes eram elogiados pelos jornais, precisam ser descaracterizados como se nunca tivessem sido enaltecidos. Da mesma forma, os dados relativos à Economia, à Saúde e à Educação são permanentemente reescritos ao sabor das conveniências: recua-se ao passado mais remoto, através de jornais e relatórios dos anos anteriores que são totalmente alterados, para fabricar novas séries de dados. Alterando-se o Passado - diz-se no Ministério da Verdade da distopia orwelliana - alteramos o Presente. Paradoxalmente, contudo, é também o Presente que altera o Passado.
A alteração de dados, no entanto, não pode mudar a história. Imaginando-se que nesta distopia totalitária, descrita por Georges Orwell, os dados relativos a uma pandemia pudessem ser mudados - no caso redesenhando-se um novo gráfico que alterasse irrealisticamente o número de mortos e atingidos pela doença - isso não significaria que a doença deixaria de fazer mortos. Chega a ser irônico. O "Ministério da Verdade" da distopia descrita por Orwell tem por finalidade única a de falsificar a verdade. É sintomático o fato de que a "verdade" é frequentemente evocada e invocada - sempre de maneira retórica e prepotente - por todos os governos ditatoriais, os mesmos que, se pudessem, facilmente resvalariam para o mais brutal totalitarismo. "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará". Esta fórmula religiosa, na boca contraditória de políticos mal intencionados, costuma ocultar o desejo de torcer e distorcer a verdade, de torturar os fatos para fazê-los confessar o que melhor se encaixar nos seus interesses.
Voltando ao nosso tema, para finalizar, podemos encerrar com aquele que deve ser o compromisso dos historiadores que trabalham com seriedade e dignificam a sua profissão. A História precisará ser constantemente reescrita - no sentido de produzir novas interpretações e propor novos problemas - mas nunca poderá ser falsificada. Se a História não se propõe a atingir uma verdade única e definitiva - no que concerne aos modos de interpretar os diversos processos históricos - isto não quer dizer que ela não tenha o compromisso de ser verdadeira.
José D'Assunção Barros
Para aprofundar o debate sobre a relação entre História e Verdade, leia o artigo Verdade e História (Cadernos IHU, vol.12, n°212, 2014)
*Neste artigo, sempre que a palavra "História" estiver escrita com inicial maiúscula, estará se referindo à História escrita pelos historiadores (ou seja, aos seus trabalhos historiográficos, sob a forma de livros, artigos, conferências e interpretações historiográficas). Já quando "história" estiver sendo grafada com inicial minúscula, estará se referindo à "história" enquanto campo de acontecimentos, conjunto de processos que efetivamente ocorreram em algum momento, tendo ou não sido registrados pelos historiadores nas suas "Histórias".
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