terça-feira, 26 de maio de 2020

História e Literatura

Introdução: diferentes relações entre História e Literatura


A História tem estabelecido com a Literatura relações de diversos tipos e em diversos níveis. Neste artigo, gostaria de comentar mais rapidamente algumas destas relações, e me demorar mais detidamente em algumas outras que têm se mostrado essenciais para a própria renovação da escrita historiográfica nos últimos tempos. Podemos dizer inicialmente que, assim como o Cinema, a Literatura já se abre à partida para três tipos de relações com a História. Os historiadores podem tratar a Literatura respectivamente como 'objeto', 'fonte histórica' e 'meio de representação para a História'. O mesmo ocorre com o Cinema, tal como já comentamos anteriormente.
Quando tomamos a Literatura como objeto para a História, estamos trabalhando com um domínio temático da historiografia chamado 'História da Literatura'. Neste caso, a Literatura - ou uma obra literária específica, a produção autoral de um literato, um determinado gênero literário, ou o próprio ambiente de sociabilidade gerado pelas práticas literárias, apenas para dar alguns exemplos - pode se constituir em objeto de estudo para o historiador. O historiador, nesse caso, estuda a literatura como um fim em si mesmo. Ele está interessado em compreender como se desenvolveu a Literatura em uma determinada sociedade, ou pode estar interessado em examinar obras específicas, compará-las, abordá-las como produções intelectuais ou como produções sociais. Pode desejar compreender como estas obras ou realizações literárias foram recebidas pelos diversos homens e mulheres de sua época, ou quem sabe de outras épocas - já que uma das propriedades da Literatura é a de se tornar tão interessante para outras épocas como foi para a sua própria. Pode ser que o historiador esteja interessado em perceber que tipos de leitores leram ou se interessaram por determinadas obras literárias, compreendendo a que classes sociais pertenciam, a que gêneros, a que gerações ou faixas etárias. O historiador pode estar interessado ainda no 'estilo literário', no vocabulário mobilizado por certos autores, nas temáticas que mais atraíram autores e leitores em cada época, Enfim, existe um grande número de possibilidades de abordar a Literatura como objeto histórico.
Podemos selecionar diferentes problemas historiográficos concernentes à Literatura e examiná-los a partir dos vários enfoques que acabamos de citar. Se podemos estudar a recepção de certos textos literários - ou os tipos de leitores que acorreram a este ou àquele tipo de literatura - podemos examinar mais especificamente as predileções literárias das mulheres, articulando nosso estudo historiográfico da Literatura com uma conexão entre História das Mulheres e História de Gênero. Se pretendemos estudar o vocabulário de certo autor, podemos abordar este campo dirigindo-o para algum problema relacionado à História Social, procurando neste caso identificar que classes sociais interagiam com determinado autor ou com certo tipo de literatura. Estes são apenas alguns exemplos, entre muitos que poderiam ser dados.
A História também pode tratar a Literatura - ou as obras literárias - como fontes históricas. Nesta caso, ao invés de elaborar uma "História da Literatura", podemos dizer que o historiador está desenvolvendo uma "História através da Literatura". Isso porque ele pode estudar qualquer tipo de problema histórico a partir de fontes literárias, e não apenas os problemas especificamente literários. É possível estudar a economia, a política, os padrões de mentalidade, a vida cotidiana e outros aspectos de antropologia histórica, assim como podemos abordar os problemas sociais e inúmeras outras dimensões historiográficas a partir do exame sistemático de fontes literárias. Neste caso, o historiador não estará particularmente interessado na Literatura como um fim em si mesmo (um objeto de estudo), mas estará, sim, especialmente interessado na Literatura como um meio, como um caminho para compreender outras coisas, como a economia, política, ambiência social e mentalidades vigentes em determinada sociedade historicamente localizada. A obra literária tomada como 'fonte histórica', neste caso, é apenas um caminho para compreender outras coisas.
Por fim, uma relação interessante que pode ser estabelecida entre Literatura e História é a possibilidade de a obra literária ser concebida pelo seu autor como um 'meio para representar a História', o que ocorre em gêneros literários muito específicos como os 'romances históricos'. Desta maneira, se a Literatura permite criar mundos que não existem, inventar realidades e situações que nunca aconteceram - ou até mesmo criar um universo fantástico com outras regras e leis físicas - as realizações literárias também podem se ater à realidade, e mesmo à história que já aconteceu. Um autor pode narrar literariamente acontecimentos e processos históricos, conduzindo sua narrativa de maneira esteticamente interessante - mas sempre se atendo a personagens e fatos que realmente aconteceram. Neste caso, ele estará trabalhando com o chamado 'romance histórico'. Mas também é possível inventar uma história totalmente original, embora enquadrando-a no interior de um certo ambiente histórico bem estudado, tal como a Idade Média, o Egito antigo, ou outro qualquer. Podemos chamar a este gênero de 'literatura de ambientação histórica'. De todo modo, assim como ocorre com o Cinema, tem sido particularmente profícuos os gêneros literários que têm se esmerado em desenvolver alguma forma de representação histórica.
Quero ainda acrescentar, pois esta constituirá a seção final deste texto, que a História também pode interagir interdisciplinarmente com a Literatura, de modo a desenvolver novos padrões narrativos e descritivos. Afinal, o próprio texto elaborado pelo historiador também pode ser um texto narrativo - e, quando não é especialmente narrativo, é um texto analítico e expositivo que precisa seduzir o leitor a prosseguir com a sua leitura. Diante da importância da dimensão escrita para a elaboração final de trabalhos historiográficos, os historiadores têm percebido cada vez mais a necessidade de aprender com os literatos maneiras criativas de narrar os processos históricos que estudaram, ou formas engenhosas de apresentar as suas análises historiográficas. Esta possibilidade de que o próprio historiador também transforme o seu texto científico em uma arte literária - sem prejuízo do caráter sério e científico de seu trabalho - será abordada mais adiante.


A Literatura como fonte histórica

Inicialmente, quero me concentrar mais demoradamente no uso da literatura como 'fonte histórica'. Vou me basear, para esta seção do texto, em um livro que escrevi sobre o uso de fontes históricas de todos os tipos (Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos), e mais especificamente no capítulo deste livro em que examino os tratamentos historiográficos que podem ser direcionados a estes tipos de fontes históricas. O primeiro aspecto que temos de considerar é que, por mais que uma certa criação literária seja fantasiosa e totalmente criada pela imaginação, ela terá tanta potencialidade para ser usada como fonte histórica quanto a terão as criações literárias de tipo realista - ou seja, aquelas que tentam representar a realidade tal como ela é. De fato, a Literatura pode investir neste dois caminhos: a representação da realidade (inclusive a realidade histórica), e a invenção de novas realidades, criando no limite sociedades e mundos que não existem. Em um e outro destes casos, qualquer realização literária pode sempre ser tomada como fonte histórica, pois mesmo a criação literária mais fantasiosa termina por falar, de alguma maneira, da própria sociedade a viu nascer. Vamos desenvolver este ponto mais adiante, mas já podemos deixar bem estabelecido que toda obra, assim como o seu autor, surgem dentro de uma sociedade historicamente localizada, e dirigem-se a leitores que também fazem parte de uma sociedade historicamente localizada. Por isso, mesmo que os personagens e situações trazidos por uma obra literária sejam totalmente inventados - e que até tenhamos diante de nós os seres fantásticos como personagens de um certo romance de ficção científica - as obras literárias sempre falam e falarão involuntariamente das sociedades em que floresceram: a sociedade do próprio autor da obra, com os seus leitores imediatos. Os personagens podem ser fantásticos (se o forem), mas os sentimentos serão inevitavelmente bem humanos: medos, esperanças, anseios, hesitações, necessidades, modos hierarquizados de enxergar a realidade, padrões morais que se expressam involuntariamente ... em uma obra literária, por imaginária e fictícia que ela seja, a sociedade real está sempre se expressando de alguma maneira. Enquanto isso, o segundo aspecto que precisamos considerar é que existem muitos gêneros literários, cada qual com o seu padrão próprio. E os historiadores, obviamente, podem tomar quaisquer destes diferentes gêneros literários como fontes históricas. Vamos então falar um pouco sobre isso.
Para começar, devemos considerar que a distinção interna entre os diversos gêneros textuais pertinentes às ‘fontes literárias’ é bastante radical, como é facilmente evidente. Uma ‘poesia’, um ‘texto teatral’ (que servirá de base para uma performance de atores) ou uma obra de ‘literatura em prosa’, como um certo romance de Lima Barreto ou de Machado de Assis, são na forma e no conteúdo gêneros literários radicalmente distintos uns dos outros. A poesia, com sua escrita em versos, logo se destaca visualmente dos demais gêneros literários que podemos entender como uma "literatura em prosa". Mas mesmo a modalidade mais extensa da literatura em prosa poderia ser partilhada em subdivisões ainda menores, como o romance, o romance policial, a ficção científica, o conto, a sátira, e assim por diante. A forma envolvida em cada um destes gêneros de fontes literárias tem as suas próprias singularidades e estratégias discursivas. Basta pensarmos no contraste entre em um romance de mistério e um romance de amor; ou podemos contrastar estes dois subgêneros de fontes literárias escritas no modelo da prosa com a poesia, que já constitui um gênero à parte com a sua forma muito bem organizada em estrofes e versos, ou com a sua evocação de imagens através de palavras para cujo uso conta muito a sonoridade nelas envolvidas. A rima, por exemplo, é uma estratégia discursiva muito presente na poesia, embora não seja obrigatória.
É óbvio que há implicações muito específicas na análise de um texto em forma poética ou no exame de um texto em prosa. Há também implicações envolvidas no texto satírico, que busca encaminhar críticas à sociedade mediado pela possibilidade de provocar o riso, ou no texto de um romance de amor, que busca comover. Importante é ainda ressaltar que, para o historiador, um romance ficcional pode trazer informações sobre a realidade, e também discursos e sentimentos nela presentes – independente de a história narrada ser livre criação do seu autor. Em um romance, por mais ficcional que seja, os personagens se alimentam, vestem roupas, manipulam instrumentos, comunicam-se através de certos parâmetros de sociabilidade, utilizam a língua de uma forma que é comum à do autor que os criou ou que faz parte do repertório de estratégias linguísticas e comunicativas presentes nos dialetos sociais com os quais ele conviveu. Os personagens de um romance caminham de uma determinada maneira pelas ruas de uma cidade, mesmo que esta cidade seja inteiramente inventada. Pensam e sentem de certo modo – e, se o autor colocou no papel tais pensamentos e sentimentos, tal foi possível porque eles fazem sentido não apenas para ele, mas também para os seus leitores.
Um romance, mesmo que radicalmente ficcional – e que não apresente quaisquer pretensões de constituir uma literatura realista – fala da realidade de quem o construiu e de quem o vai ler. Assim, se os personagens de Balzac (1799-1850) são diretamente inspirados em figuras que seu autor podia encontrar facilmente pelas ruas de sua cidade, ou que ele até conhecera diretamente, mesmo um livro de ficção científica que tematize a vida em um planeta habitado por seres imaginários – talvez com pele verde, dois pares de braços, chifres exóticos e outras distinções físicas – não deixa de discorrer sobre anseios muito reais, de dizer-nos algo sobre temores e aflições presentes nas sociedades do seu autor e dos leitores que atualizaram a sua leitura, de nos falar das hierarquias e sistemas normativos que os enquadravam, das esperanças e desencontros que os impactaram, das sociabilidades que os confortavam e da solidão que os recobria.
De igual maneira, o célebre romance Dom Quixote de La Mancha (1605) fala muito da época do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). Na verdade, este romance protagonizado pelo “cavaleiro da triste figura” também termina por nos falar um pouco sobre as diversas sociedades e ambientes culturais que retomaram a leitura deste célebre romance, pois ele não seria lido por sucessivas gerações de leitores se não falasse a cada uma delas de alguma maneira. Mas aqui, é claro, adentramos a complexa e instigante temática das releituras diacrônicas das obras artísticas e literárias, que constitui um interessante campo de reflexões. Com relação a este último ponto, é oportuno ressaltar que a especificidade do enredo de Dom Quixote de La Mancha – e de criações literárias com características análogas – permite que observemos as leituras de uma época sobre outra, pois a obra é uma sátira aos antigos romances medievais de cavalaria, gênero que havia gozado de grande popularidade entre leitores de certo tipo, mas que já se encontrava em declínio quando Cervantes inicia a escrita do romance que o celebrizou. Para os historiadores, esta leitura explícita produzida pelo autor de uma época acerca da literatura elaborada em outra época é uma riqueza adicional, a qual nos introduz em um interessante jogo de espelhos no qual se envolvem dialeticamente o historiador, o autor de uma outra época, e a literatura e sociedade de uma terceira época que foi retratada por este último.
A relação complexa entre a realidade literária e a realidade extraliterária (isto é, a realidade de fora do romance, que vem a ser o próprio mundo em que o autor ou cada um de seus leitores vive) impõe uma última observação. Cumpre notar que – ainda que todas as obras artísticas e literárias sempre tragam algo da sociedade que as viu florescer – nunca temos aqui meramente um reflexo ou uma relação linear e mecânica. A Literatura também preenche lacunas. As pacatas famílias burguesas consomem filmes de ação, e as obras pornográficas podem constituir o principal produto de entretenimento de sociedades puritanas. Ao historiador, cabe decifrar as inversões, contradições e silêncios. Além disso, a Literatura também age sobre a sociedade; por isso, analisar fontes literárias implica analisar seus efeitos sobre os grupos sociais que lhes ofereceram leitores à sua época, estabelecendo uma compreensão sobre a relação circular entre estas fontes e a sociedade. Produzida pela sociedade, a Literatura ajuda a transformá-la. É preciso compreender o projeto de ação social que está por trás de uma obra literária, voluntária ou involuntariamente. Um livro, ao ser publicizado, interage com a sociedade como um todo, com grupos sociais, e também com os indivíduos em sua especificidade.
O último ponto da relação literatura-sociedade refere-se ao fato-limite de que, quando um ser humano se posiciona diante de uma obra literária para lê-la e interagir com ela, cada novo ato de leitura estabelece uma nova realidade literária, produto da combinação entre o que o autor escreveu e aquele leitor específico. A cada nova leitura da obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez (1967), surge aos olhos do novo leitor um novo José Acádio Buendia – o primeiro patriarca da saga e fundador da fictícia cidade de Macondo. Talvez leitores distintos percebam de maneiras diferenciadas este personagem e os outros que lhe seguirão; talvez leitores que compartilhem determinado contexto social, ou experiências de vidas análogas, produzam leituras mais aproximadas do mesmo personagem e da mesma obra. De todo modo, e de uma maneira ou de outra, a leitura é também um ato criador, e está longe de ser uma ação passiva. Este é também um objeto de interesse historiográfico. A História das Ideias possibilita, por exemplo – entre outras temáticas de pesquisa – estudar a leitura de um autor sobre outro.
Vejamos agora como se apresenta a grande variedade de fontes literárias no que se refere à sua diversificação interna e à sua gradual assimilação, pelos historiadores, como fontes históricas importantes. Os vários tipos de fontes, que podemos agrupar sobre a rubrica das ‘fontes literárias’ – e notadamente os que se associam mais veementemente à ficção e à livre imaginação dos seus autores – apenas nas décadas mais recentes começaram a ser bem explorados pelos historiadores como fontes históricas. Em tempo, não estamos falando aqui do já muito antigo interesse dos historiadores pela Literatura como 'objeto histórico', aspecto sobre o qual já discorremos no início deste texto. Estamos falando no uso da Literatura como 'fonte histórica' - ou seja, como textos que nos permitem acessar a política, economia, relações sociais, vida material, imaginário, mentalidades, ou quaisquer outros aspectos de uma sociedade. Referimo-nos, aqui, à Literatura como caminho para nos aproximarmos de problemas históricos diversos - a obra literária como algo que pode ser analisado pelo historiador não apenas para compreender esta obra literária em si mesmo (o que seria tratá-la como objeto histórico) mas para entender principalmente o mundo social que a envolve, que permitiu a sua emergência como obra, ou que mesmo a demandou. Esse trabalho - que procura examinar a História através da Literatura, tratando-a como fonte histórica - é que é algo mais recente que o antigo interesse dos historiadores pela Literatura como fonte histórica.
Quando falamos em Literatura, há muitos subgêneros que poderiam ser considerados, mas não será o caso de discorrer sobre cada um deles neste momento. Podemos enquadrar diversos destes gêneros de literatura em uma rubrica mais ampla que seria a da ‘literatura em prosa’, sendo que esta poderia ser subdividida em modalidades formais como o ‘conto’ ou o ‘romance’, e ainda estes poderiam ser entrecruzados com gêneros como a ‘ficção científica’, ‘terror’, ‘drama’, ‘saga’, ‘comédia dos costumes’, ‘mitologia imaginária’ e tantos outros gêneros narrativos cuja delimitação mais precisa tornaria inviável esta síntese mais panorâmica que ousamos propor sobre as diversas formas de Literatura.
 A poesia, por exemplo, poderia se desdobrar em ‘poesia épica’, ‘poesia lírica’, ‘poesia satírica’, ‘poesia concreta’ e outras tantas, e cada uma destas modalidades, assim como também cada uma das modalidades e gêneros de literatura em prosa, teria suas próprias singularidades a serem consideradas em um trabalho historiográfico sobre cada um destes tipos de fontes. Os estilos e correntes estéticas de filiação, por fim, implicariam novas considerações a serem entrecruzadas com as formas e gêneros de literatura em prosa ou de poesia. Os ‘ensaios’, situados no encontro entre o literário e o científico, e os textos de ‘teatro’, escritos com vistas a uma performance cênica, ou ainda os ‘sermões’, com seus objetivos religiosos, apenas ampliam a variedade das ‘fontes literárias’, que poderia se diversificar ainda mais, para além destes exemplos iniciais. Mas aqui já começaríamos a nos distanciar mais propriamente da literatura de tipo criativo e imaginativo, que é o objetivo da reflexão que estamos desenvolvendo neste momento. Posto isto, quero passar na próxima seção a um outro aspecto aspecto da relação entre História e Literatura, que é o trazido por um problema fundamental: o que os historiadores podem aprender com a Literatura, em termos de enriquecer seus modos de expressão e padrões narrativos.



A interdisciplinaridade com a Literatura.

Para desenvolver esta última seção - dedicada ao problema de apreender as possibilidades de interação interdisciplinar entre História e Literatura, na mesma medida em que proporei a hipótese de que os historiadores ainda deverão aprender muito com os literatos para desenvolver novos modos de expressão para suas ideias e pesquisas históricas - vou me basear principalmente em outro livro que escrevi recentemente. Em Seis Desafios para a Historiografia do Novo Milênio (2019), dediquei uma seção especial ao desafio historiográfico que sintetizei com a palavra "criatividade".
Um desafio vital para a História, e que tem se tornado cada vez mais importante nas últimas décadas, refere-se ao fato de que História não é apenas “algo que se pesquisa”, e que, no mesmo movimento, é submetido a uma análise. A História também é “algo que se escreve”. Em outras palavras, a História não corresponde apenas a um campo científico de pesquisas: ela é também, em certo sentido, uma arte. O que é cientificamente pesquisado e analisado pelos historiadores, precisa ser por eles apresentado em forma de texto. Por isso estes mesmos historiadores têm exigências estéticas a cumprir. Além de pesquisadores hábeis, e de formuladores de problemas historiográficos, os historiadores precisam escrever. Com todo o direito, eles devem se afirmar não apenas como cientistas, mas também como literatos, hábeis artífices de um texto que também precisa ser valorizado na sua potência estética.
Posto isto, é preciso salientar que já é uma ideia antiga, aceita pela maior parte dos historiadores, a de que a História é um gênero de saber que envolve simultaneamente “pesquisa e artesanato”. Ainda assim, podemos partir da percepção de um sintoma importante. Nas últimas décadas, temos assistido a um fenômeno editorial que tem perturbado de alguma maneira os meios historiográficos. Obras de História têm sido elaboradas por escritores que não são historiadores de formação, e muitas delas têm alcançado sucesso editorial impressionante em termos de vendagem de livros. Não tem sido rara, por exemplo, a afirmação editorial da figura do jornalista que se faz historiador, e que conquista um amplo público para suas realizações na área de história. Enquanto isso, as obras de história elaboradas por historiadores profissionais, com todo o rigor científico, por vezes despertam pouca ou menor atenção do grande público. No Brasil essa tendência tem se mostrado particularmente saliente. Qual é a raiz deste problema? Esta pergunta faz desta segunda proposta não apenas um desafio para a historiografia, mas também para o Ensino de História.
Parece-me claro que os currículos de graduação em História já não deveriam prescindir de oferecer, aos historiadores em formação, disciplinas que os habilitem a lidar de maneira mais competente, e mesmo artística, com a Escrita da História. Existe ainda um fator adicional a ser considerado quando falamos na necessidade de desenvolver uma escrita criativa da História. É que, se a História, no âmbito da pesquisa, é elaborada por especialistas, no âmbito da produção de texto ela deve se voltar para públicos diversificados, menos ou mais especializados. O historiador não escreve apenas para a Academia. E, mesmo quando faz isso, também pode buscar trazer ao seu leitor acadêmico uma leitura prazerosa, criativa, inovadora.
Há duas questões aí envolvidas. A escrita da História pode ser mais agradável, e também pode ser mais criativa. Nestes dois âmbitos, a Literatura tem muito a trazer para a História, uma vez que a literatura é tanto a arte de dizer as coisas de modo interessante e agradável, como também é a arte de dizer o que tem para dizer de maneira criativa. Estética e criatividade são duas dimensões que fundamentam o trabalho de qualquer literato, e o sucesso de um autor de Literatura é em parte medido pela sua dupla capacidade de envolver os seus leitores e ser criativo. O último século, de fato, já vinha assistindo a experiências bastante importantes no âmbito da criação literária, particularmente no que se refere à escrita imaginativa. Os autores de romances, por exemplo, têm experimentado as mais inovadoras e inusitadas formas de entretecerem suas narrativas. O tempo, por exemplo, é tratado pelos escritores de ficção de maneira criativa, permitindo idas-e-vindas, abrindo-se para a exploração do tempo psicológico, para o entrecruzamento de ritmos temporais diversos.
Na historiografia, Fernand Braudel deu-nos, há muitas décadas, com seu célebre livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Felipe II (1949), o exemplo de uma abordagem mais criativa do tempo na narrativa histórica, ao articular durações distintas sujeitas a diferentes ritmos temporais. De modo geral, contudo, é possível dizer que a escrita dos historiadores tem apresentado soluções relativamente modestas para o tratamento do tempo narrativo: muito habitualmente, tem-se um tempo tratado linear e progressivamente, através de um encaminhamento facilmente previsível e pouco capaz de surpreender o leitor.
É marcante o contraste entre a apenas modesta inventividade da escrita historiográfica no último século e a extraordinária ousadia criativa alcançada pela literatura moderna no mesmo período. Ao mesmo tempo em que os literatos foram pródigos em experimentos textuais durante todo o século XX, salta à vista o quão pouco experimental foi a narrativa histórica neste mesmo período, padrão que não modificou muito ainda nestas décadas iniciais do novo milênio. Seria permitido a um historiador moderno escrever como José Saramago ou Guimarães Rosa? O quanto poderiam os historiadores ainda aprender com a escrita polifônica de Dostoiévski, tão bem analisada pelo linguista Mikhail Bakhtin?
Poderíamos ainda nos perguntar: a Academia abre possibilidades para que os historiadores mobilizem recursos poéticos na escrita de seus textos? Como lidar com o já mencionado ‘fator tempo’, para além das possibilidades unidirecionais que habitualmente são escolhidas e administradas pelos historiadores profissionais na sua escrita mais habitual? Como lidar mais criativamente, enfim, com a parte de “artefato literário” que é inerente à História, coadunando-a à dimensão de cientificidade que lhe é trazida pela pesquisa?. Estas perguntas e outras nos levam a pensar em alguns horizontes de preocupações e possibilidades que poderiam pautar a busca dos historiadores por uma escrita cada vez mais eficaz, interessante e criativa, capaz de interessar de modos diversos o seu diversificado universo de leitores.
Penso que os historiadores das novas gerações serão cada vez mais convidados a se tornarem escritores mais criativos, eficientes e estimulantes, com capacidade efetiva de diversificar seus modos de escrita e de interessar mais vivamente distintas faixas de público-leitor, sem que em nenhuma destas operações decaia a densidade e profundidade científica de seus trabalhos. Um pequeno quadro de desafios a serem enfrentados pela escrita historiográfica futura pode ser esboçado a seguir.



O quadro acima procurou selecionar alguns aspectos, habilidades e procedimentos que os historiadores das novas gerações ainda poderão aprender com literatos ligados à chamada escrita criativa (a Literatura propriamente dita). A busca de uma maior fluência textual - matizando o texto muitas vezes árido que frequentemente os historiadores, embora não todos, entregam aos seus leitores - assim como a possibilidade de utilizar mais criativamente recursos literários em suas exposições textuais, ou de investir em um maior experimentalismo textual, são horizontes que se apresentam para os historiadores neste novo milênio. Também precisamos, como historiadores, escrever para distintos públicos-leitores, e cada um destes diferentes tipos de públicos ou de leitores requer um padrão de linguagem especial. Os literatos já sabem isso muito bem; mas nós, historiadores, nem sempre pensamos nos diferentes tipos de leitores que podemos alcançar com nossos textos historiográficos. Já mencionei a questão do tempo. Nem sempre somos suficientemente criativos nos nossos modos de lidar com o tempo, e muito frequentemente trabalhamos com uma narrativa linear, progressiva e previsível. Não poderíamos aprender com os literatos novos modos de trabalhar com o tempo em nossos textos historiográficos? Também podemos aprender isso, é claro, com os cineastas, pois assim como os literatos estes também têm sido muito criativos no seu uso do tempo.
Outra ordem de questões que merecem atenção é aquela que nos apresenta a possibilidade de desenvolver recursos para expor, em um único texto, ‘distintas vozes sociais’ – ultrapassando, assim, a narrativa unidirecional que encaminha o ponto de vista único. A esse recurso, muito bem explorado por literatos como Dostoiévski (1821-1881), já desde o penúltimo século, chamamos de "polifonia" - uma palavra que, na verdade, já havia sido importada de outro criativo campo de expressões artísticas: a Música. Na arte musical, a polifonia é o recurso de encaminhar diversas vozes ao mesmo tempo, com os vários instrumentos ou segmentos vocais, sem que uma voz adquira preponderância sobre as demais. Escrever polifonicamente, na Literatura, é desenvolver um fluxo narrativo no qual os diversos personagens de uma trama vão tomando ao seu cargo o protagonismo narrativo, expondo a sua visão de mundo em pé de igualdade com os demais personagens da mesma trama. Na Música, para ter em mente o que é uma polifonia, podemos pensar em um quarteto de Jazz no qual o trompete, o saxofone, o baixo e o piano desenvolvessem cada qual a sua melodia, todas ao mesmo tempo e interagindo umas com as outras. Podemos também pensar na música de Johan Sebastian Bach, ou em um conjunto de Choro no qual os diversos instrumentos participam da trama musical com igual magnitude, sem que um se sobreponha aos demais. Podemos nos perguntar se o modelo narrativo polifônico - que poderia dar voz aos diversos atores sociais dentro de uma trama historiográfica - não poderia ser mais explorado pelos historiadores. Estes tipos de experiências poderiam ser aprimorados no contacto interdisciplinar entre historiadores e literatos, pois estes últimos já tem desenvolvido a polifonia com grande maestria nas suas composições literárias.

Entre os historiadores, é justo dizer, existe já um certo número de experiências recentes que merece destaque por atribuir ao estilo, à forma, e também à inventividade da escrita, um papel mais central na historiografia. Os micro-historiadores, por exemplo, têm apresentado o aspecto da escrita final do texto como uma questão crucial, que é capaz de afetar inclusive o que pode ser passado ao leitor acerca da pesquisa realizada pelo historiador. A escolha de um ou outro caminho narrativo, ou a opção por certa forma dada ao texto, também tem as suas implicações, inclusive para a própria dimensão da pesquisa histórica – um aspecto que não tem fugido à consideração de alguns historiadores.
A Micro-História, para seguirmos com este exemplo, tem se esmerado em avivar as implicações da forma literária escolhida pelo autor-historiador em relação às instâncias da pesquisa historiográfica. Esforços como esses chamam atenção para o fato de que Pesquisa e Escrita não são instâncias que se desenvolvem necessariamente em separado. De todo modo, hoje como ontem, a massa de historiadores profissionais tem formado grandes escritores, no sentido de produção do artefato literário da história. Os séculos XIX e XX foram pródigos em grandes historiadores que se exprimiram com exímia capacidade literária, e, hoje em dia, ainda é assim. No nível mais mediano constituído pela grande massa dos historiadores, contudo, penso que ainda se discute pouco a importância da escrita, do fazer literário implicado pela História. Trazendo para este ponto a discussão sobre o Ensino de História no âmbito de graduação, quero sustentar a minha convicção de que os historiadores em formação precisarão aprender cada vez técnicas literárias e estratégias discursivas que tanto sejam mais eficazes, como se mostrem mais instigantes de um ponto de vista da leitura que poderá ser proporcionada aos seus leitores. O historiador profissional precisa também se formar como escritor. Isso me parece imprescindível nos dias de hoje.
Esta questão, particularmente importante, leva-nos a um novo eixo de discussões. Como será possível fornecer aos historiadores em formação, particularmente através do Ensino de Graduação em História, as competências que os habilitarão a também serem experimentadores de novos modos de narrar a história, ou de expor os problemas historiográficos? Não será importante para o historiador em formação o estudo da Literatura, não apenas como fonte histórica ou como objeto de pesquisa, mas também como campo de recursos que podem vir a ser incorporados ao metier historiográfico de construção textual? O hábito de ler obras de literatura imaginativa, neste sentido, não poderia ser um elemento importante para a formação do historiador? O currículo de Graduação em História não deveria contemplar – e agora como crédito obrigatório – pelo menos uma disciplina que trabalhasse com a invenção literária, particularmente aplicada à historiografia, e com os recursos diversificados da narrativa e da arte da descrição que têm sido mobilizados na Literatura?
Se os historiadores profissionais não tiverem pleno sucesso em se transformar em exímios escritores, estarão sempre ameaçados de perderem seu lugar de destaque, junto ao grande público leitor, para os profissionais de outras áreas que têm publicado trabalhos de História. Em uma palavra, é preciso que o historiador em formação seja habituado a enxergar a sua prática não apenas como uma ciência, mas também como uma arte. Neste sentido, a interdisciplinaridade entre História e Literatura tende a se apresentar, para as futuras gerações de historiadores, como um aspecto tão importante como a abordagem da literatura como objeto histórico, ou como o uso das obras literárias como fontes históricas para examinar problemas diversos.


José D'Assunção Barros


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Para a última seção aqui abordada - sobre a Interdisciplinaridade entre História e Literatura - leia a reflexão integral sobre os demais desafios que se apresentam aos historiadores das próximas gerações, a qual foi desenvolvida no livro Seis Desafios para a Historiografia do Novo Milênio (Petrópolis: Editora Vozes, 2019). 
Sobre o uso das obras literárias como fontes históricas, leia o capítulo concernente a este tema na obra Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos (Petrópolis: Editora Vozes, 2019.
Para outras questões relacionadas ao diálogo entre História e Literatura, leia o artigo História e Literatura - novas relações para os novos tempos (Revista Contemporâneos, n°6, 2010).





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