1. Preâmbulo explicativo
Entre as inúmeras modalidades e especialidades nas quais se reparte a disciplina e a prática da História nos dias de hoje, talvez a dimensão historiográfica mais sujeita a oscilações de significado seja a da História Social. Modalidade historiográfica rica de interdisciplinaridades com todas as Ciências Sociais, e igualmente rica nas suas possibilidades de objetos de estudo, a História Social abre-se de fato a variadas alternativas de definição e delimitação que certamente interferem nos vários trabalhos produzidos pelos historiadores que atuam neste campo intradisciplinar da História. Veremos, neste texto, que existem razões várias para essa oferta de uma diversidade de sentidos que vem à tona quando falamos em História Social. Um texto sintetiza algumas das partes apresentadas no livro O Campo da História (Petrópolis: Editora Vozes, 2004), e também pode ser encontrado, na sua forma completa, no artigo indicado ao final deste texto.
2. A História Social como campo histórico
relacionado a uma dimensão da vida
social
Antes de mais nada, para retornar aos primeiros usos da
expressão “história social” na historiografia moderna, podemos fixar a História
Social como modalidade que começa a aparecer de maneira auto-referenciada por
ocasião do surgimento na França do Grupo dos Annales, e que naquele momento principia a se mostrar claramente
construída – ao lado da História
Econômica – por oposição à História
Política tradicional. Nesta esteira inicial, houve quem direcionasse a
expressão “História Social” para uma história das grandes massas ou para uma história
dos grupos sociais de várias espécies (em contraste com a biografia dos grandes
homens e com a História das Instituições a que tinha sido tão afeita a
historiografia do século anterior).
Também é evidente que a historiografia marxista da mesma época
– seguindo os princípios norteadores que já no século XIX haviam sido indicados
por Marx e Engels com vistas a uma nova filosofia da história – direcionava-se
na mesma época para a elaboração de uma história preocupada com a conjunção dos
aspectos econômicos e dos aspectos sociais. O que haveria de relevante a ser
estudado não era, sob esta perspectiva, a história dos grandes homens, ou mesmo a história
política dos grandes estados e das instituições, mas sim a historia dos ‘modos
de produção’ – isto é, das bases econômicas e sociais que determinariam toda a
vida social – e também a história das ‘lutas de classes’, isto é, das relações
entre os diversos grupos sociais presentes em uma sociedade particularmente nas
suas situações de conflito.
A delimitação de um novo campo a ser chamado de “história
social” surge, portanto, sob a forte influência destes dois campos de motivação
que passaram a exercer profunda influência no seio da historiografia da
primeira metade do século XX. De um lado vinham os ataques desfechados pelo
grupo dos Annales contra aquilo que consideravam uma “velha história política”,
de outro lado começavam a surgir as primeiras grandes obras da historiografia
marxista, que cumpriam fielmente um programa de filosofia da história voltado
para o econômico e para o social tal como havia sido proposto pelos fundadores
do materialismo histórico a partir de meados do século XIX.
A História Social, enfim, surgia no cenário historiográfico, na primeira metade do século XX,
como campo relevante e definitivo a se estabelecer no âmbito das modalidades
historiográficas que devem ser definidas pelas 'dimensões' que são trazidas à tona quando o historiador se põe a
examinar um processo histórico qualquer. Considerando aquilo que é colocado em
evidência em uma determinada análise historiográfica – a Política, a Cultura, a
Economia, as relações sociais – poderíamos ter respectivamente uma História
Política, uma História Cultural, uma História Econômica, uma História Social,
entre outras possibilidades.
Tal como foi explicitado atrás, esta clara tendência da historiografia
contemporânea a constituir e perceber a história social como campo relacionado
a uma dimensão social específica liga-se ao fato de que, na primeira metade do
século XX, os novos historiadores passam a opor um novo campo de interesses e
enfoques à História Política do século XIX, o que de certo modo produzia uma
aliança entre a História Social e a História Econômica na luta pelo
estabelecimento de uma historiografia inteiramente nova no que se refere aos
fazeres historiográficos do século anterior. À História Social e à História
Econômica – como campos inauguradores de um novo fazer historiográfico – logo
se juntariam a História Demográfica, a História Cultural, a História das
Mentalidades, a História do Imaginário, e também uma nova História Política,
não mais preocupada apenas com o poder institucional mas sim com todas as
formas de poder que circulam em qualquer sociedade, inclusive os micropoderes
que afetam a vida cotidiana e as relações familiares. O quadro das 'dimensões
historiográficas', portanto, multidiversificava-se – e é neste contexto que pode
ser definido um primeiro sentido para a História Social como uma instância
historiográfica específica, no mesmo nível da História Política e da História
da Cultura, apenas para dar dois exemplos.
Por outro lado, outra indagação que surge nos dias de hoje,
quando a expressão “história social” já multiplicou os seus sentidos e as suas
aberturas de significados, é se a História Social deve ser considerada uma
especialidade, com objetos próprios e definidos, ou se o “social” que ao seu
nome se agrega como adjetivo acaba de um modo ou de outro por fazer coincidir o
seu circuito de interesses com a sociedade – o que faria da História Social uma
espécie de categoria transcendente que acaba perpassando ou mesmo englobando
todas as outras especialidades da História.
3. Os diversos âmbitos da História Social
Se investirmos na ideia de que a História Social é uma
sub-especialidade entre as outras (o que parece ter sido a proposta da Escola
dos Annales nos seus primórdios ao introduzir esta categoria no título de sua
revista), veremos que começam a se destacar certos objetos mais evidentes: os
modos e mecanismos de organização social,
as classes sociais e outros tipos de agrupamentos, as relações sociais
(entre estes grupos e entre os indivíduos no seu interior), e por fim os
processos de transformação da sociedade.
O Quadro abaixo busca reunir alguns dos objetos e âmbitos que
poderiam ser pretensamente visados por uma sub-especialidade chamada História
Social. Este esquema complexo foi construído rastreando os objetos mais
específicos que têm sido trabalhados por alguns dos mais conhecidos
historiadores que se autodefinem como inscritos na categoria História Social.
Pode-se perceber que a maioria dos campos de interesse que ali foram
assinalados correspondem a ‘recortes humanos’ (as classes e grupos sociais, as
células familiares), ou a ‘recortes de relações humanas’ (os modos de
organização da sociedade, os sistemas que estruturam as diferenças e desigualdades,
as formas de sociabilidade). Em um caso, estudam-se fatias da sociedade (ou os
subconjuntos internos à sociedade); em outro caso, estudam-se elementos
específicos e transversais que parecem atravessar a sociedade por inteiro (os
mecanismos de organização social e os sistemas de exclusão, por exemplo,
atravessam a sociedade como um todo).
Para além dos subcampos citados no parágrafo anterior,
indicamos ainda uma categoria que é obviamente uma das mais importantes para a
História Social: a dos ‘processos’ (industrialização, modernização,
colonização, ou quaisquer outros, inclusive as revoluções, que aparecem
incluídas na rubrica ‘movimentos sociais’). É muito importante indicar que a
História Social também estuda estes ‘processos’, e não apenas modos de
organização ou estruturas, pois caso contrário a História Social poderia ser
vista como uma História estática, e não dinâmica.
Voltemos por ora aos objetos da História Social que coincidem
com subconjuntos da sociedade (grupos e classes sociais, categorias de
excluídos, células familiares). Quando o historiador volta-se para o exame
destes grupos humanos específicos no interior de uma sociedade, ou então para
as relações conflituosas e interativas entre alguns destes grupos, seu
interesse poderá se voltar tanto para a elaboração de um retrato sintetizado
destes grupos sociais e de suas relações, como para a incidência de questões
transversais nestes grupos. Como uma certa classe ou grupo se comporta diante
de determinada conjuntura política ou econômica? Como reage a uma determinada
crise política, ou a uma determinada crise econômica? Como reage um grupo, por
exemplo, às flutuações de preços? Como repercutem certas mudanças políticas na
vida social de um grupo?
Embora as questões acima colocadas refiram-se alternadamente
aos âmbitos político ou econômico, elas podem ser trabalhadas socialmente pelos historiadores. Dito de
outra forma, existe um modo específico como a História Social encara os fatos
políticos e econômicos. As repercussões sociais dos fatos políticos e
econômicos, seja nos grupos específicos ou em um conjunto mais amplo, devem ser
também objetos privilegiados para os historiadores sociais. Isto nos leva
àquela questão inicial, à qual ainda voltaremos outras vezes: não existem fatos
políticos, econômicos ou sociais isolados. Não é o tipo de fato – político,
econômico, social ou cultural por definição – o que define uma
sub-especialidade da História, mas sim o enfoque que o historiador dá a cada um
destes tipos de fatos. Um historiador econômico pode dar um destino a
determinados fatos econômicos (ao elaborar, por exemplo, um estudo dos ciclos
econômicos no decurso de algumas décadas), e um historiador social um outro – pois
este último estará mais preocupado em perceber como estas variações conjunturais
afetam diferentemente os vários grupos sociais, que alterações elas provocam
nas relações entre estes grupos, e assim por diante.
Ainda com relação à possibilidade de examinar no interior de
uma sociedade certos recortes humanos, uma outra observação deve ser feita.
Vimos que a História Social pode dirigir sua atenção para uma classe social,
para uma minoria, para um grupo profissional, para a célula familiar – ou seja,
para um subconjunto específico da sociedade. Em contraste com este tipo de
enfoque, existem duas das divisões ou subconjuntos possíveis que perdem o seu
caráter mais específico por se autoconstituírem de certo modo em totalidades :
o estudo das ‘comunidades’ (rurais e urbanas) e o estudo das ‘populações’ como
um todo. Ou seja, em um caso dois subconjuntos que se complementam e que
dividem a sociedade na dicotomia ‘rural / urbano’, e no outro caso um
subconjunto que coincide com o conjunto universo da sociedade, e que chamamos
de ‘população’. Estes dois campos são os únicos que estão especificamente
ligados a uma outra acepção da História Social que discutiremos a seguir.
4. História Social como “história totalizante”
Se a História Social foi se constituindo desde o princípio
como uma sub-especialidade da História, direcionada para objetos bem
específicos e que se distinguiam dos objetos das outras modalidades da história,
por outro lado a noção de “História Social” também começou a ser vinculada por
alguns pensadores e historiadores a uma “história total”, encarregada de
realizar uma grande síntese da diversidade de dimensões e enfoques pertinentes
ao estudo de uma determinada comunidade ou formação social. Portanto, estaria a
cargo da História Social criar as devidas conexões entre os campos político,
econômico, mental e outros – o que implica que nesta acepção a História Social
deixa de ser uma modalidade mais específica, como qualquer outra, para se
tornar o campo histórico mais abrangente que se abriria à possibilidade da
mediação ou da síntese ... História Social como História da Sociedade ...
Na verdade, esta última acepção foi adotada ainda pela Escola
dos Annales, mas a partir da década de 1940, de modo que acaba se contrapondo
àquela primeira acepção que procurava fixar a História Social como
especialidade. Em uma conferência de 1941, mais tarde publicada em Combates pela História [1942], Lucien
Febvre chega a afirmar que “não há história econômica e social; há somente
história, em sua unidade” (Febvre, 1992: p.45). Trata-se portanto de um
programa que assume a perspectiva da História Total, ou da “História-Síntese”,
que tão bem caracteriza a segunda fase dos Annales
– sobretudo com as monumentais obras de Fernando Braudel sobre O Mediterrâneo e sobre a Civilização
Material do Capitalismo (Braudel, 1997 e 1984). Muitos historiadores
passaram a entender História Social, a partir de então, com este sentido mais
abrangente (se existem fatos econômicos ou fatos políticos propriamente ditos,
não existiriam rigorosamente os fatos sociais, ou melhor, todos os fatos seriam sociais, uma vez que estariam ocorrendo no
interior da sociedade a partir dos relacionamentos dos homens e dos grupos de
homens uns com os outros).
Aqui, uma nova noção da História Social fazia a sua entrada na história
do pensamento historiográfico. Esta nova noção de História Social, voltada para
a ideia de uma totalidade de aspectos, podia ser aplicada tanto ao estudo de
uma sociedade inteira, como para o estudo de comunidades tomadas como centros
de referência, como as comunidades rurais e urbanas que começaram a ser
examinadas pelos historiadores associados à História Regional. Em um caso ou
outro, a História Social não apresenta mais objetos específicos dentro da
História: seu interesse é a sociedade como um todo (esteja ela estudando um
país, uma grande região como o Mediterrâneo, uma cidade ou uma aldeia). Mas a verdade é que a designação anterior continuou existindo
paralelamente, de modo que a História Social preservou seu lugar específico como
sub-especialidade ao lado da História Econômica, da História Política, da
História Cultural e de todas as outras. Rigorosamente, depois da crise da
História Total (esperança de abarcar todos os aspectos de uma sociedade em uma
grande síntese coerente) esta designação mais específica ganhou até mais força,
sobretudo a partir da década de 1960. De qualquer modo, a noção de História
Social continuou sempre aberta a muitas possibilidades de sentidos.
5. As fontes e abordagens relacionadas à
História Social
Não há limitações com relação ao que pode ser tomado como ‘fonte’ para a
História Social. É possível encontrá-las tanto na documentação de origem
privada como na documentação oficial, por assim dizer. O que estamos chamando
de documentação privada são aquelas fontes produzidas ao nível das vidas
individuais: os relatos de viagem, os diários pessoais, correspondências entre
particulares (sejam indivíduos ilustres, ou não). Documentação oficial ou
pública existe de todos os tipos: desde aquelas que oferecem dados massivos
sobre uma sociedade – como os inventários e registros fiscais, censitários,
testamentários, cartoriais, e paroquiais – até aquelas mais pontuais,
referentes a situações específicas. Por exemplo, um material muito rico do tipo
que estamos caracterizando como pontual encontra-se nos arquivos judiciais e
policiais (ou seja, na documentação oriunda dos sistemas repressivos). Os
historiadores sociais da atualidade têm precisamente prestado muita atenção a
um vasto manancial de fontes que por muito tempo foi esquecido: os registros de
polícia, os processos criminais – incluindo os depoimentos, as confissões e as
sentenças proferidas sobre determinado caso – ou ainda, para os primeiros
séculos da Idade Moderna, os processos da Santa Inquisição, que costumavam
rastrear obsessivamente a vida dos indivíduos investigados, anotar a sua fala
nos mínimos detalhes, registrar rigorosamente os dados de sua vida cotidiana
com o fito de perceber qualquer indício de comportamento anormal ou mentalidade
herética.
É bastante irônico. Os indivíduos pertencentes às classes
sociais privilegiadas dão-se a conhecer através dos mais diversificados tipos
de fontes à disposição dos historiadores – na documentação política, falam
através dos deputados e governantes que os representam; nas notícias de
jornais, pode-se até mesmo percebê-los em flashes
de sua vida privada nas colunas sociais; na arte letrada, iremos encontrá-los
como sujeitos produtores de discurso ou como referentes dos discursos aí
produzidos. Já ao pobre, e mais ainda ao excluído, só é dada uma voz quando ele
comete um crime (ou quando é acusado de um). Os registros repressivos são
paradoxalmente os espaços documentais mais “democráticos” – aqueles onde os
historiadores poderão encontrar literalmente as vozes de todas as classes, mas
sobretudo as dos indivíduos pertencentes aos grupos sociais menos privilegiados
do ponto de vista político e econômico. É só quando comete um crime que o homem
pobre adquire uma identidade para a História!
Existem também, é preciso reconhecer, as fontes oriundas da
cultura popular. Mas este tipo de fonte é mais propriamente relacionado com a
História Cultural, como já vimos anteriormente. Também não deve ser desprezada
a grande literatura. A leitura atenta da Comédia
Humana de Balzac não é irrelevante para a compreensão da transição para o
Capitalismo moderno, e a mesma recomendação de atentar para a importância da
literatura como fonte para este período pode ser feita em relação às obras de
Victor Hugo. A partir do momento em que a perspectiva realista abriu-se como
uma possibilidade para os produtores de obras associadas à cultura letrada
(literatura, mas também artes visuais), o homem comum também começou a chegar
aos historiadores através destas fontes, embora elas sempre requeiram o cuidado
de serem trabalhadas com a consciência de que, nestes casos, o homem
pertencente aos extratos sociais menos privilegiados só recebe a sua voz ou a
sua transparência através de um filtro, que é a sensibilidade do escritor ou do
pintor pertencente a outro grupo social (fora, é claro, quando o próprio
artista é oriundo do grupo social que pretende retratar).
Voltemos às fontes de História Social que chegam aos
historiadores através da violência. Além da violência individual, que aparece
através do crime, existe ainda a violência coletiva, onde a massa anônima deixa
suas marcas e conquista também a sua voz através de explosões de revolta que
podem ficar registradas nas notícias de jornais, ou então nas descrições dos
cronistas para os períodos mais antigos. As revoluções e os processos de
transformação social, conforme já observou Thompson muito bem, são momentos privilegiados
para a percepção das identidades de classe, inclusive as relativas aos grupos
sociais menos privilegiados. São nestes momentos que as massas tornam-se
visíveis, exprimindo-se através dos gestos do “protesto” (sejam protestos
espontâneos, sejam os movimentos organizados, como as greves) ou da violência
coletiva, que podem produzir desde badernas e motins até revoluções com
repercussões sociais definitivas. São também nestes momentos que,
eventualmente, emergem as lideranças populares – por vezes deixando suas vozes
registradas em panfletos e em discursos que foram recolhidos pela imprensa ou
pelos cronistas de uma época.
No dia a dia, as massas populares são informes: executam como
que emudecidas as tarefas que lhes permitirão assegurar a sua sobrevivência
diária. A História conhece os camponeses do final da Idade Média, os operários
urbanos das sociedades industriais, os escravos do Brasil Colonial ... sempre
através dos registros massivos, que anotarão as datas de seus nascimentos, o
número de filhos, a morte, a ocupação, e as modalidades de pertencimento (a um
senhorio na Idade Média ou a uma indústria no mundo capitalista). Nestes
momentos, as massas falam à História através de números que registram a sua
laboriosa e sofrida passividade. Mas quando ocorre um motim, uma insurreição,
um protesto público, pela primeira vez a
massa de despossuídos será ouvida não através da passividade dos números
silenciosos, e sim através dos gestos violentos e ruidosos.
Os sem-terra,
por exemplo, são habitualmente encontrados pelos historiadores que examinam a
História contemporânea do Brasil nos documentos do censo, que os registram como
camponeses despossuídos e desempregados. Mas quando eles ocupam uma fazenda, ou
quando em protesto eles adentram um espaço que para eles não estaria previsto –
como um shopping center – neste
momento eles se transformam em atores sociais mais definidos e ganham espaço
nas notícias de jornal e outras mídias. Quando a massa excitada derruba uma
bastilha, entra subitamente na História não como uma estatística, mas como
sujeito coletivo que realiza um ato, que produz ou se incorpora a um movimento
social. Os camponeses medievais, de modo similar, chegam aos historiadores como
um número incorporado à terra através dos contratos celebrados entre um
suserano e um vassalo, ou através de um testamento que os passa adiante para os
herdeiros de um feudo. Mas quando produzirem uma Jacquerie serão registrados pela primeira vez por algo que fizeram,
e não por algo que fizeram a eles.
São os grandes momentos de protesto ou de violência coletiva
que tornam visíveis as massas, e os pequenos momentos de crimes individuais que
dão visibilidade ao homem comum. Por isto o historiador acaba chegando às
massas e aos indivíduos menos favorecidos através da violência. São as fontes
que expressam os vários tipos de violência (ou que registram a repressão a esta
violência) aquelas que permitirão a este historiador examinar as relações de
classe, as suas expectativas, o seu cotidiano. É aliás curioso observar que,
quando o criminoso escapa à repressão, ele perde-se para a História.
Na verdade, as fontes de natureza repressiva – como os
processos criminais ou os registros inquisitoriais – constituem registros
múltiplos, polifônicos por excelência. A própria diversidade social pode estar
presente em um processo judicial ou inquiridor – afinal, o modo como devem ser
organizados os processos, entrecruzando indivíduos dos mais diversos tipos,
acaba conferindo a este tipo de fontes uma posição muito rica no repertório de
documentos à disposição de um historiador social. São fontes que habitualmente
envolvem um foco representando o sistema repressivo (não raro expressando
contradições internas que podem aparecer sob a forma de conflitos de
autoridade) e um universo multifocal que passa por um vasto número de depoentes
e de testemunhas, até chegar ao
criminoso ou ao inquirido.
É mais raro que a História Social, pelo menos no que se
refere a períodos mais recuados, vá encontrar fontes relativas aos grupos menos
favorecidos na ‘documentação privada’ (diários, livros de memória, relatos de
viagem, correspondência) porque estes tipos de textos nem sempre são
conservados depois que os seus autores desaparecem. Mas, na medida em que
avança para classes mais favorecidas, o historiador já começa a dispor deste
tipo de documentação. As fontes da História Social, enfim, são de inúmeras
modalidades. Sua escolha, naturalmente, será orientada pelo problema histórico
a ser definido e investigado pelo historiador.
José D'Assunção Barros
Leia o texto completo em História Social - seus significados e seus caminhos
O texto também está no livro O Campo da História (Petrópolis: Ed. Vozes, 2004, p.109-124)
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