segunda-feira, 4 de maio de 2020

História Social


1. Preâmbulo explicativo

Entre as inúmeras modalidades e especialidades nas quais se reparte a disciplina e a prática da História nos dias de hoje, talvez a dimensão historiográfica mais sujeita a oscilações de significado seja a da História Social. Modalidade historiográfica rica de interdisciplinaridades com todas as Ciências Sociais, e igualmente rica nas suas possibilidades de objetos de estudo, a História Social abre-se de fato a variadas alternativas de definição e delimitação que certamente interferem nos vários trabalhos produzidos pelos historiadores que atuam neste campo intradisciplinar da História. Veremos, neste texto, que existem razões várias para essa oferta de uma diversidade de sentidos que vem à tona quando falamos em História Social. Um texto sintetiza algumas das partes apresentadas no livro O Campo da História (Petrópolis: Editora Vozes, 2004), e também pode ser encontrado, na sua forma completa, no artigo indicado ao final deste texto.




2. A História Social como campo histórico relacionado a uma dimensão da vida social




Antes de mais nada, para retornar aos primeiros usos da expressão “história social” na historiografia moderna, podemos fixar a História Social como modalidade que começa a aparecer de maneira auto-referenciada por ocasião do surgimento na França do Grupo dos Annales, e que naquele momento principia a se mostrar claramente construída – ao lado da História Econômica – por oposição à História Política tradicional. Nesta esteira inicial, houve quem direcionasse a expressão “História Social” para uma história das grandes massas ou para uma história dos grupos sociais de várias espécies (em contraste com a biografia dos grandes homens e com a História das Instituições a que tinha sido tão afeita a historiografia do século anterior).
Também é evidente que a historiografia marxista da mesma época – seguindo os princípios norteadores que já no século XIX haviam sido indicados por Marx e Engels com vistas a uma nova filosofia da história – direcionava-se na mesma época para a elaboração de uma história preocupada com a conjunção dos aspectos econômicos e dos aspectos sociais. O que haveria de relevante a ser estudado não era, sob esta perspectiva, a história dos grandes homens, ou mesmo a história política dos grandes estados e das instituições, mas sim a historia dos ‘modos de produção’ – isto é, das bases econômicas e sociais que determinariam toda a vida social – e também a história das ‘lutas de classes’, isto é, das relações entre os diversos grupos sociais presentes em uma sociedade particularmente nas suas situações de conflito.
A delimitação de um novo campo a ser chamado de “história social” surge, portanto, sob a forte influência destes dois campos de motivação que passaram a exercer profunda influência no seio da historiografia da primeira metade do século XX. De um lado vinham os ataques desfechados pelo grupo dos Annales contra aquilo que consideravam uma “velha história política”, de outro lado começavam a surgir as primeiras grandes obras da historiografia marxista, que cumpriam fielmente um programa de filosofia da história voltado para o econômico e para o social tal como havia sido proposto pelos fundadores do materialismo histórico a partir de meados do século XIX.
A História Social, enfim, surgia no cenário historiográfico, na primeira metade do século XX, como campo relevante e definitivo a se estabelecer no âmbito das modalidades historiográficas que devem ser definidas pelas 'dimensões' que são trazidas à tona quando o historiador se põe a examinar um processo histórico qualquer. Considerando aquilo que é colocado em evidência em uma determinada análise historiográfica – a Política, a Cultura, a Economia, as relações sociais – poderíamos ter respectivamente uma História Política, uma História Cultural, uma História Econômica, uma História Social, entre outras possibilidades.
Tal como foi explicitado atrás, esta clara tendência da historiografia contemporânea a constituir e perceber a história social como campo relacionado a uma dimensão social específica liga-se ao fato de que, na primeira metade do século XX, os novos historiadores passam a opor um novo campo de interesses e enfoques à História Política do século XIX, o que de certo modo produzia uma aliança entre a História Social e a História Econômica na luta pelo estabelecimento de uma historiografia inteiramente nova no que se refere aos fazeres historiográficos do século anterior. À História Social e à História Econômica – como campos inauguradores de um novo fazer historiográfico – logo se juntariam a História Demográfica, a História Cultural, a História das Mentalidades, a História do Imaginário, e também uma nova História Política, não mais preocupada apenas com o poder institucional mas sim com todas as formas de poder que circulam em qualquer sociedade, inclusive os micropoderes que afetam a vida cotidiana e as relações familiares. O quadro das 'dimensões historiográficas', portanto, multidiversificava-se – e é neste contexto que pode ser definido um primeiro sentido para a História Social como uma instância historiográfica específica, no mesmo nível da História Política e da História da Cultura, apenas para dar dois exemplos.
Por outro lado, outra indagação que surge nos dias de hoje, quando a expressão “história social” já multiplicou os seus sentidos e as suas aberturas de significados, é se a História Social deve ser considerada uma especialidade, com objetos próprios e definidos, ou se o “social” que ao seu nome se agrega como adjetivo acaba de um modo ou de outro por fazer coincidir o seu circuito de interesses com a sociedade – o que faria da História Social uma espécie de categoria transcendente que acaba perpassando ou mesmo englobando todas as outras especialidades da História.


3. Os diversos âmbitos da História Social

Se investirmos na ideia de que a História Social é uma sub-especialidade entre as outras (o que parece ter sido a proposta da Escola dos Annales nos seus primórdios ao introduzir esta categoria no título de sua revista), veremos que começam a se destacar certos objetos mais evidentes: os modos e mecanismos de organização social,  as classes sociais e outros tipos de agrupamentos, as relações sociais (entre estes grupos e entre os indivíduos no seu interior), e por fim os processos de transformação  da sociedade.
O Quadro abaixo busca reunir alguns dos objetos e âmbitos que poderiam ser pretensamente visados por uma sub-especialidade chamada História Social. Este esquema complexo foi construído rastreando os objetos mais específicos que têm sido trabalhados por alguns dos mais conhecidos historiadores que se autodefinem como inscritos na categoria História Social. Pode-se perceber que a maioria dos campos de interesse que ali foram assinalados correspondem a ‘recortes humanos’ (as classes e grupos sociais, as células familiares), ou a ‘recortes de relações humanas’ (os modos de organização da sociedade, os sistemas que estruturam as diferenças e desigualdades, as formas de sociabilidade). Em um caso, estudam-se fatias da sociedade (ou os subconjuntos internos à sociedade); em outro caso, estudam-se elementos específicos e transversais que parecem atravessar a sociedade por inteiro (os mecanismos de organização social e os sistemas de exclusão, por exemplo, atravessam a sociedade como um todo).





Para além dos subcampos citados no parágrafo anterior, indicamos ainda uma categoria que é obviamente uma das mais importantes para a História Social: a dos ‘processos’ (industrialização, modernização, colonização, ou quaisquer outros, inclusive as revoluções, que aparecem incluídas na rubrica ‘movimentos sociais’). É muito importante indicar que a História Social também estuda estes ‘processos’, e não apenas modos de organização ou estruturas, pois caso contrário a História Social poderia ser vista como uma História estática, e não dinâmica.
Voltemos por ora aos objetos da História Social que coincidem com subconjuntos da sociedade (grupos e classes sociais, categorias de excluídos, células familiares). Quando o historiador volta-se para o exame destes grupos humanos específicos no interior de uma sociedade, ou então para as relações conflituosas e interativas entre alguns destes grupos, seu interesse poderá se voltar tanto para a elaboração de um retrato sintetizado destes grupos sociais e de suas relações, como para a incidência de questões transversais nestes grupos. Como uma certa classe ou grupo se comporta diante de determinada conjuntura política ou econômica? Como reage a uma determinada crise política, ou a uma determinada crise econômica? Como reage um grupo, por exemplo, às flutuações de preços? Como repercutem certas mudanças políticas na vida social de um grupo?
Embora as questões acima colocadas refiram-se alternadamente aos âmbitos político ou econômico, elas podem ser trabalhadas socialmente pelos historiadores. Dito de outra forma, existe um modo específico como a História Social encara os fatos políticos e econômicos. As repercussões sociais dos fatos políticos e econômicos, seja nos grupos específicos ou em um conjunto mais amplo, devem ser também objetos privilegiados para os historiadores sociais. Isto nos leva àquela questão inicial, à qual ainda voltaremos outras vezes: não existem fatos políticos, econômicos ou sociais isolados. Não é o tipo de fato – político, econômico, social ou cultural por definição – o que define uma sub-especialidade da História, mas sim o enfoque que o historiador dá a cada um destes tipos de fatos. Um historiador econômico pode dar um destino a determinados fatos econômicos (ao elaborar, por exemplo, um estudo dos ciclos econômicos no decurso de algumas décadas), e um historiador social um outro – pois este último estará mais preocupado em perceber como estas variações conjunturais afetam diferentemente os vários grupos sociais, que alterações elas provocam nas relações entre estes grupos, e assim por diante.
Ainda com relação à possibilidade de examinar no interior de uma sociedade certos recortes humanos, uma outra observação deve ser feita. Vimos que a História Social pode dirigir sua atenção para uma classe social, para uma minoria, para um grupo profissional, para a célula familiar – ou seja, para um subconjunto específico da sociedade. Em contraste com este tipo de enfoque, existem duas das divisões ou subconjuntos possíveis que perdem o seu caráter mais específico por se autoconstituírem de certo modo em totalidades : o estudo das ‘comunidades’ (rurais e urbanas) e o estudo das ‘populações’ como um todo. Ou seja, em um caso dois subconjuntos que se complementam e que dividem a sociedade na dicotomia ‘rural / urbano’, e no outro caso um subconjunto que coincide com o conjunto universo da sociedade, e que chamamos de ‘população’. Estes dois campos são os únicos que estão especificamente ligados a uma outra acepção da História Social que discutiremos a seguir.

4. História Social como “história totalizante”

Se a História Social foi se constituindo desde o princípio como uma sub-especialidade da História, direcionada para objetos bem específicos e que se distinguiam dos objetos das outras modalidades da história, por outro lado a noção de “História Social” também começou a ser vinculada por alguns pensadores e historiadores a uma “história total”, encarregada de realizar uma grande síntese da diversidade de dimensões e enfoques pertinentes ao estudo de uma determinada comunidade ou formação social. Portanto, estaria a cargo da História Social criar as devidas conexões entre os campos político, econômico, mental e outros – o que implica que nesta acepção a História Social deixa de ser uma modalidade mais específica, como qualquer outra, para se tornar o campo histórico mais abrangente que se abriria à possibilidade da mediação ou da síntese ... História Social como História da Sociedade ...
Na verdade, esta última acepção foi adotada ainda pela Escola dos Annales, mas a partir da década de 1940, de modo que acaba se contrapondo àquela primeira acepção que procurava fixar a História Social como especialidade. Em uma conferência de 1941, mais tarde publicada em Combates pela História [1942], Lucien Febvre chega a afirmar que “não há história econômica e social; há somente história, em sua unidade” (Febvre, 1992: p.45). Trata-se portanto de um programa que assume a perspectiva da História Total, ou da “História-Síntese”, que tão bem caracteriza a segunda fase dos Annales – sobretudo com as monumentais obras de Fernando Braudel sobre O Mediterrâneo e sobre a  Civilização Material do Capitalismo (Braudel, 1997 e 1984). Muitos historiadores passaram a entender História Social, a partir de então, com este sentido mais abrangente (se existem fatos econômicos ou fatos políticos propriamente ditos, não existiriam rigorosamente os fatos sociais, ou melhor, todos os fatos seriam sociais, uma vez que estariam ocorrendo no interior da sociedade a partir dos relacionamentos dos homens e dos grupos de homens uns com os outros).
Aqui, uma nova noção da História Social fazia a sua entrada na história do pensamento historiográfico. Esta nova noção de História Social, voltada para a ideia de uma totalidade de aspectos, podia ser aplicada tanto ao estudo de uma sociedade inteira, como para o estudo de comunidades tomadas como centros de referência, como as comunidades rurais e urbanas que começaram a ser examinadas pelos historiadores associados à História Regional. Em um caso ou outro, a História Social não apresenta mais objetos específicos dentro da História: seu interesse é a sociedade como um todo (esteja ela estudando um país, uma grande região como o Mediterrâneo, uma cidade ou uma aldeia). Mas a verdade é que a designação anterior continuou existindo paralelamente, de modo que a História Social preservou seu lugar específico como sub-especialidade ao lado da História Econômica, da História Política, da História Cultural e de todas as outras. Rigorosamente, depois da crise da História Total (esperança de abarcar todos os aspectos de uma sociedade em uma grande síntese coerente) esta designação mais específica ganhou até mais força, sobretudo a partir da década de 1960. De qualquer modo, a noção de História Social continuou sempre aberta a muitas possibilidades de sentidos.


5. As fontes e abordagens relacionadas à História Social

Não há limitações com relação ao que pode ser tomado como ‘fonte’ para a História Social. É possível encontrá-las tanto na documentação de origem privada como na documentação oficial, por assim dizer. O que estamos chamando de documentação privada são aquelas fontes produzidas ao nível das vidas individuais: os relatos de viagem, os diários pessoais, correspondências entre particulares (sejam indivíduos ilustres, ou não). Documentação oficial ou pública existe de todos os tipos: desde aquelas que oferecem dados massivos sobre uma sociedade – como os inventários e registros fiscais, censitários, testamentários, cartoriais, e paroquiais – até aquelas mais pontuais, referentes a situações específicas. Por exemplo, um material muito rico do tipo que estamos caracterizando como pontual encontra-se nos arquivos judiciais e policiais (ou seja, na documentação oriunda dos sistemas repressivos). Os historiadores sociais da atualidade têm precisamente prestado muita atenção a um vasto manancial de fontes que por muito tempo foi esquecido: os registros de polícia, os processos criminais – incluindo os depoimentos, as confissões e as sentenças proferidas sobre determinado caso – ou ainda, para os primeiros séculos da Idade Moderna, os processos da Santa Inquisição, que costumavam rastrear obsessivamente a vida dos indivíduos investigados, anotar a sua fala nos mínimos detalhes, registrar rigorosamente os dados de sua vida cotidiana com o fito de perceber qualquer indício de comportamento anormal ou mentalidade herética.
É bastante irônico. Os indivíduos pertencentes às classes sociais privilegiadas dão-se a conhecer através dos mais diversificados tipos de fontes à disposição dos historiadores – na documentação política, falam através dos deputados e governantes que os representam; nas notícias de jornais, pode-se até mesmo percebê-los em flashes de sua vida privada nas colunas sociais; na arte letrada, iremos encontrá-los como sujeitos produtores de discurso ou como referentes dos discursos aí produzidos. Já ao pobre, e mais ainda ao excluído, só é dada uma voz quando ele comete um crime (ou quando é acusado de um). Os registros repressivos são paradoxalmente os espaços documentais mais “democráticos” – aqueles onde os historiadores poderão encontrar literalmente as vozes de todas as classes, mas sobretudo as dos indivíduos pertencentes aos grupos sociais menos privilegiados do ponto de vista político e econômico. É só quando comete um crime que o homem pobre adquire uma identidade para a História!
Existem também, é preciso reconhecer, as fontes oriundas da cultura popular. Mas este tipo de fonte é mais propriamente relacionado com a História Cultural, como já vimos anteriormente. Também não deve ser desprezada a grande literatura. A leitura atenta da Comédia Humana de Balzac não é irrelevante para a compreensão da transição para o Capitalismo moderno, e a mesma recomendação de atentar para a importância da literatura como fonte para este período pode ser feita em relação às obras de Victor Hugo. A partir do momento em que a perspectiva realista abriu-se como uma possibilidade para os produtores de obras associadas à cultura letrada (literatura, mas também artes visuais), o homem comum também começou a chegar aos historiadores através destas fontes, embora elas sempre requeiram o cuidado de serem trabalhadas com a consciência de que, nestes casos, o homem pertencente aos extratos sociais menos privilegiados só recebe a sua voz ou a sua transparência através de um filtro, que é a sensibilidade do escritor ou do pintor pertencente a outro grupo social (fora, é claro, quando o próprio artista é oriundo do grupo social que pretende retratar).
Voltemos às fontes de História Social que chegam aos historiadores através da violência. Além da violência individual, que aparece através do crime, existe ainda a violência coletiva, onde a massa anônima deixa suas marcas e conquista também a sua voz através de explosões de revolta que podem ficar registradas nas notícias de jornais, ou então nas descrições dos cronistas para os períodos mais antigos. As revoluções e os processos de transformação social, conforme já observou Thompson muito bem, são momentos privilegiados para a percepção das identidades de classe, inclusive as relativas aos grupos sociais menos privilegiados. São nestes momentos que as massas tornam-se visíveis, exprimindo-se através dos gestos do “protesto” (sejam protestos espontâneos, sejam os movimentos organizados, como as greves) ou da violência coletiva, que podem produzir desde badernas e motins até revoluções com repercussões sociais definitivas. São também nestes momentos que, eventualmente, emergem as lideranças populares – por vezes deixando suas vozes registradas em panfletos e em discursos que foram recolhidos pela imprensa ou pelos cronistas de uma época.
No dia a dia, as massas populares são informes: executam como que emudecidas as tarefas que lhes permitirão assegurar a sua sobrevivência diária. A História conhece os camponeses do final da Idade Média, os operários urbanos das sociedades industriais, os escravos do Brasil Colonial ... sempre através dos registros massivos, que anotarão as datas de seus nascimentos, o número de filhos, a morte, a ocupação, e as modalidades de pertencimento (a um senhorio na Idade Média ou a uma indústria no mundo capitalista). Nestes momentos, as massas falam à História através de números que registram a sua laboriosa e sofrida passividade. Mas quando ocorre um motim, uma insurreição, um protesto público,  pela primeira vez a massa de despossuídos será ouvida não através da passividade dos números silenciosos, e sim através dos gestos violentos e ruidosos.
Os sem-terra, por exemplo, são habitualmente encontrados pelos historiadores que examinam a História contemporânea do Brasil nos documentos do censo, que os registram como camponeses despossuídos e desempregados. Mas quando eles ocupam uma fazenda, ou quando em protesto eles adentram um espaço que para eles não estaria previsto – como um shopping center – neste momento eles se transformam em atores sociais mais definidos e ganham espaço nas notícias de jornal e outras mídias. Quando a massa excitada derruba uma bastilha, entra subitamente na História não como uma estatística, mas como sujeito coletivo que realiza um ato, que produz ou se incorpora a um movimento social. Os camponeses medievais, de modo similar, chegam aos historiadores como um número incorporado à terra através dos contratos celebrados entre um suserano e um vassalo, ou através de um testamento que os passa adiante para os herdeiros de um feudo. Mas quando produzirem uma Jacquerie serão registrados pela primeira vez por algo que fizeram, e não por algo que fizeram a eles.
São os grandes momentos de protesto ou de violência coletiva que tornam visíveis as massas, e os pequenos momentos de crimes individuais que dão visibilidade ao homem comum. Por isto o historiador acaba chegando às massas e aos indivíduos menos favorecidos através da violência. São as fontes que expressam os vários tipos de violência (ou que registram a repressão a esta violência) aquelas que permitirão a este historiador examinar as relações de classe, as suas expectativas, o seu cotidiano. É aliás curioso observar que, quando o criminoso escapa à repressão, ele perde-se para a História.
Na verdade, as fontes de natureza repressiva – como os processos criminais ou os registros inquisitoriais – constituem registros múltiplos, polifônicos por excelência. A própria diversidade social pode estar presente em um processo judicial ou inquiridor – afinal, o modo como devem ser organizados os processos, entrecruzando indivíduos dos mais diversos tipos, acaba conferindo a este tipo de fontes uma posição muito rica no repertório de documentos à disposição de um historiador social. São fontes que habitualmente envolvem um foco representando o sistema repressivo (não raro expressando contradições internas que podem aparecer sob a forma de conflitos de autoridade) e um universo multifocal que passa por um vasto número de depoentes e de  testemunhas, até chegar ao criminoso ou ao inquirido.
É mais raro que a História Social, pelo menos no que se refere a períodos mais recuados, vá encontrar fontes relativas aos grupos menos favorecidos na ‘documentação privada’ (diários, livros de memória, relatos de viagem, correspondência) porque estes tipos de textos nem sempre são conservados depois que os seus autores desaparecem. Mas, na medida em que avança para classes mais favorecidas, o historiador já começa a dispor deste tipo de documentação. As fontes da História Social, enfim, são de inúmeras modalidades. Sua escolha, naturalmente, será orientada pelo problema histórico a ser definido e investigado pelo historiador.

                                                                                                          José D'Assunção Barros 



O texto também está no livro O Campo da História (Petrópolis: Ed. Vozes, 2004, p.109-124)











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